Poeta mineiro participa de festival de performance na Alemanha

Compositor e artista visual, Ricardo Aleixo, defende a presença do corpo e da voz na literatura

por Walter Sebastião 08/09/2013 00:13

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Maria Tereza Correia/EM/D.A Press
Ricardo Aleixo procura captar o que escapa à percepção imediata: "Faço cartografia de inframundos" (foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)

O mineiro Ricardo Aleixo, de 53 anos, sete livros publicados, é hoje um dos poetas mais respeitados nacionalmente. Novidade, como ele mesmo reconhece, têm sido os convites para participar de festivais internacionais de poesia. Já participou de eventos em Portugal, Argentina e Estados Unidos e, este ano, passou pelo México e Alemanha. Está de partida para mais um evento, em Berlim. “Me descobriram aqui”, brinca, contando que foram os organizadores que vieram atrás dele. E dando toda a infraestrutura para as viagens – passagem, hospedagem e honorários.

O fato, conta Ricardo, trouxe decisão de avançar trabalho com performances, acompanhando multiplicação de traduções de seus textos. “Existe no exterior uma valorização das performances poéticas”, acrescenta com alguma surpresa, mas satisfeito em ter novos horizontes para desenvolver atividade que sempre cultivou. “Estive em festivais que são absolutamente dedicados aos poetas e à poesia, que não têm nem crítico participando”, conta. “É momento novo. A poesia, finalmente, começa a conquistar espaço fora do livro e das revistas”, observa.

Ricardo Aleixo conta que com performances e criações para o espaço cênico os poetas têm vencido inclusive a incompreensão do idioma. “Quanto mais desconhecida é uma língua, mais se fica atento à linguagem, aos meios que o poeta usa. Se há a perda linguística, tem o ganho semântico. O que se vê e se ouve é a totalidade: tudo se torna significante”, afirma. Ele, por exemplo, tem se valido de respirações, cortes bruscos, alternância entre canto e fala, exploração de ritmos, timbres e cadências. Recursos que “transformam o texto em música criada a partir da escrita”, observa.

A participação nos encontros de poetas e de poesia mexeu com Ricardo Aleixo: “Meu sonho dourado é reativar projeto do Festival Internacional da Poesia, de 1998, que não passou da primeira edição”. O que aprendeu sobre poesia depois de sete livros publicados? “No livro Modelos vivos há um pequeno poema em que digo: ‘Quanta poesia/ fazia enquanto não fazia/ tanta poesia’. Compor poemas, para mim, significa um modo peculiar de me posicionar diante da vida e do mundo, embora não resolva qualquer problema prático ou conceitual. Poemas são reproposições de problemas, muito mais do que sua possível resolução”, responde.

Outras artes

 Ricardo Aleixo nasceu, vive e trabalha em Belo Horizonte. É compositor, cantor, performer, ensaísta, artista plástico. É o coordenador do Festival Internacional de Arte Negra (FAN). Publicou: Festim (1992), A roda do mundo (1996 e 2004, com Edimilson de Almeida Pereira), Quem faz o quê? (1999), Trívio (2001), A aranha Ariadne (2003), Máquina zero (2004), Céu inteiro (2008) e Modelos vivos (2010). O interesse por artes veio do ambiente familiar. A mãe, Íris, cantava; o pai, Américo Basílio, era cinéfilo e escrevia. “Ambos eram grandes leitores”, observa. Aos 11 cantou em grupo coral no colégio, além de fazer colagens e aprender rudimentos de cerâmica. “Hoje me sinto como menino que se vale de ferramentas que tinha, mas nunca usou, para criar os meus trabalhos”, observa Ricardo Aleixo.

“O que faço é cartografar inframundos, tudo que escapa à percepção imediata e aponta para realidade paralela que é o mundo físico e material da linguagem”, explica. Recorrente nos textos “talvez seja a escrita, a linguagem, a própria poesia em seu contínuo movimento de testar os limites, os possíveis da língua”, observa. “Mesmo quando tematizo questões como o desastre social e racial brasileiro, a cidade como lugar da política, o amor ou a amizade, faço-o enfatizando o peso da palavra como motor de transformações”, esclarece.

Até o fim deste ano lança dois livros, ambos de poemas: Mundo palavreado e Impossível como nunca ter tido rosto. Prepara para 2015 instalação chamada No que pensam os pés quando longe da bola. Está escrevendo livros sobre o artista plástico Jorge dos Anjos e o percussionista Djalma Corrêa. Textos do poeta podem ser lidos no endereço www.jaguadarte.blogspot.

Três perguntas para Ricardo Aleixo


Como você avalia o interesse pelas performances poéticas?

O que se vê e ouve é o poeta falando, cantando, performando, usando recursos audiovisuais, das artes cênicas, efeitos tecnológicos, mas tendo como base o mais antigo instrumento da poesia: o corpo e a voz. A difusão em maior escala dos meios tecnológicos fez com que as pessoas ficassem muito confinadas em seus próprios ambientes, o que gerou retomada do contato direto entre as pessoas. Foi daí que viemos: somos oficiantes do rito da palavra em sua potência máxima. Homero não era para ser lido silenciosamente, mas para estar no corpo das pessoas.

Como fica a língua portuguesa no contexto dos festivais internacionais de poesia?

Falamos brasileiro, não português, que é língua muito celebrada nos festivais de poesia. Que se destaca pela musicalidade, o que cria atmosfera de celebração e troca. É língua mais conhecida do que imaginamos. Conheci, no México, jovens que tinham aprendido brasileiro para conhecer a nossa poesia, sobretudo a experimental. Todo mundo sabe da poesia concreta, Augusto de Campos é autor celebrado. O que me dizem é que o encaminhamento poético contemporâneo brasileiro é interessante por não ser tão cerebral como os programas estéticos europeus, que são quase fórmulas matemáticas.

Como foi sua formação em literatura, especialmente poesia?

Vivendo no Campo Alegre, bairro da periferia de Belo Horizonte, sem conhecer pessoalmente alguém que se dedicasse profissionalmente à literatura, me vi obrigado a montar por conta própria um programa de estudos. A intuição foi minha grande única mestra. Naqueles tempos lia, com grande voracidade, tudo, rigorosamente tudo que me caísse nas mãos, mas já sabia identificar aqueles poetas que primavam pela utilização de recursos como a exploração das camadas sonora e visual da palavra. Cheguei, por isso, com muita naturalidade à poesia concreta, com especial apreço pela obra de Augusto de Campos e às outras vanguardas, como o cubofuturismo russo, a sound poetry etc. Aprendi a chamar de mestre todo aquele que, com seu exemplo pessoal, me ajudou de algum modo a encontrar na poesia do passado pontos de contato com as questões do presente.

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