Das acrobacias da ginástica olímpica surgiu Rafael Eduardo, o bailarino do Grupo Corpo

Barba, cabelo e bigode em salões de beleza são também o ganha-pão do Rei Momo dançarino, mestre do sapateado

por Jefferson da Fonseca Coutinho 02/09/2013 08:50

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Leandro Couri/EM/D.A Press
Rafael Eduardo, 24 anos: O Billy Elliot das quadrilhas (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Quem acompanha o Grupo Corpo dos irmãos Pederneiras, homens de sucesso da dança mundial, já viu em cena o caçula da companhia mineira. Rafael Bittar, de 22 anos, participou de sete espetáculos de repertório nas mais variadas praças do globo. Ele está em cartaz em 'Triz', coreografia de Rodrigo Pederneiras em cartaz no Palácio das Artes.


Selecionado entre cerca de 30 candidatos, Rafael lembra com alegria o dia em que soube do resultado da audição. “Fiquei estático. O Paulo Pederneiras disse: ‘Bem-vindo ao Grupo Corpo. Agora a gente vai trabalhar junto’. Uma felicidade enorme na minha vida”, diz. O jovem talento surgiu nos salões de ginástica olímpica do Minas Tênis Clube. “Desde criança, as acrobacias já haviam despertado em mim essa coisa do corpo”, explica.

Para Rafael, o masculino na dança ainda é questão delicada no Brasil. “Vivemos em um país que não valoriza a nossa arte, atrelada ao estereótipo do homossexual. Você vai ganhando respeito à medida que as coisas vão acontecendo, das oportunidades. Aos 15 anos, fiz minha primeira viagem internacional como bailarino. Daí em diante, não houve espaço para preconceito”, conta.


Na dança desde os 13, Rafael destacou-se no Grupo Sarandeiros, do Colégio Santo Agostinho. Cita o apoio incondicional da mãe e o respeito do pai por seu ofício: “Ele nunca se pronunciou, embora eu entenda que a dança não era exatamente o que ele gostaria para o meu futuro”.

 

O caminho da roça

 

Filho de militar linha-dura, Rafael Eduardo José Geraldo, de 24 anos, teve seus dias de Billy Elliot bem cedo, aos 10. Sua história é parecida com a do menino saído do romance 'Sob a luz das estrelas, do escocês' A. J. Cronin (1896 –1981): nada de aulas de boxe ou de luta que pudesse machucar alguém. Aquele mocinho irrequieto, de vigor e presença fora dos padrões “normais” da família, queria dançar. Diz ele que “uma voz vinda do coração e cheia de movimento” não o deixou parar.


Disposto a enfrentar tudo e todos, o menino dos sapateados encontrou nas festas juninas o caminho da roça para o futuro. Com 14 anos de andanças por salões de incríveis paisagens, Rafael está de malas prontas para mais uma viagem pelos palcos da Europa. Nos pés, a história da quadrilha – homenagem a Luiz Gonzaga, o Rei do Baião – ao lado do Núcleo Mineiro de Cultura Feijão Queimado, grupo que o acolheu aos 14 anos.


Ator profissional, mestre do sapateado gaúcho, da catira, do frevo e do samba, além de “primeiro Rei Momo magro de Belo Horizonte”, Rafael tem 67 kg e passagens pelo clássico e pelo jazz. Ele soma ao trabalho como coreógrafo e dançarino do Feijão Queimado seus tempos no Grupo de Pesquisa e Projeções Folclóricas Guararás. “Esse coletivo despertou em mim a vontade ainda maior de estudar a cultura brasileira e de me aprofundar na dança”, conta.


Rafael revela que nem só alegrias trazem a inspiração para coreografar. Este ano, a seca do Norte de Minas emocionou as plateias de festas juninas no estado, dando ainda mais projeção ao Feijão Queimado, convidado para temporadas na França e na Holanda. “O difícil é conciliar a agenda do grupo com os trabalhos no salão”, diz, sorrindo. Hoje, o capiau viajante, cabeleireiro nas horas vagas, é “coreógrafo dos jecas”. E tem muito orgulho disso.

 

Nos passos da mãe

 

No fim dos anos 1970, Heloísa Helena Frade Reis foi aluna de Carlos Leite (1914 –1995), pioneiro da dança clássica em Minas. “Ele exigia um corpo infalível. Era técnica, técnica e técnica”, relembra. Afastada das sapatilhas, ela vê com alegria o filho, Matheus Philipp, de 14 anos, destacar-se no Núcleo Artístico Floresta.

Esse jovem astro da street dance não quer saber de 'pliés'. “Tenho até um pouco de preconceito com o clássico”, reconhece. Como o pai, o empresário José Fabiano Reis Filho, de 50, Matheus acha que balé tem mais a ver com meninas. Criança, fez judô, natação e futebol. “Ele fica passando as coreografias o dia inteiro em casa. Desde pequeno, dança o tempo inteiro”, conta a mãe. Tímido, Matheus confirma. E admite: “Com a dança moderna não tenho problema. Até acho interessante…”.

Adolescente de poucas palavras, ele gosta mesmo é de dançar. “É natural, como se eu não estivesse ali. É o sentimento da hora, que chega só quando você está no palco”, explica. Em silêncio, dança na praça sob o olhar de aprovação da mãe. Chama a atenção dos passantes. Ali, não está o mocinho tímido da entrevista. É outro.

Ao fim da performance, a pergunta: “É difícil, Matheus?”. Ele responde: “Na dança, não existe nada difícil. É questão de ensaio e de tempo”. Extrovertido, o bailarino fala com desenvoltura e sabedoria. A mãe intervém: “No ato da dança, é como se você estivesse dentro de um personagem”. Está explicada a transformação.

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