Bailarino defende a dança como elemento básico na educação do brasileiro

Artista, professor, coreógrafo e pesquisador é um dos responsáveis pela escola superior de dança da UFMG e sofreu bullying na escola

por Jefferson da Fonseca Coutinho 01/09/2013 00:13

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João Miranda/EM/D.A Press
Arnaldo Alvarenga, 56 anos: a dança na cesta básica (foto: João Miranda/EM/D.A Press )
Um ideal. O bailarino que se fez doutor nas artes espera ver “a dança na cesta básica na formação do brasileiro”. As razões de Arnaldo Leite de Alvarenga, de 56 anos, são muitas. De sobra. Uma delas é a fé num ser humano melhor por meio da cultura da dança e tudo que ela envolve. “A dança precisa estar no crescimento das crianças”, defende. “Crianças felizes, homens melhores”, acredita Arnaldo. O artista, professor, coreógrafo e pesquisador é um dos responsáveis pela escola superior de dança da UFMG, que diploma sua primeira turma no próximo ano.

Na adolescência, em tempos difíceis, Arnaldo sofreu bullying na escola. “Na época, não tinha esse nome, mas era isso. Para muitos, por causa da dança, eu era o ‘veado’ do colégio”, lamenta. Arnaldo diz ter perdido a conta das vezes em que “brigou de porrada” com seus agressores na saída do Instituto Champagnat, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. O garoto inquieto, dançarino, de muita personalidade, não baixou a cabeça. Quanto mais provocado, mais dedicado à inquietude da alma.

Irrequieto, o menino Arnaldo levou os conhecimentos das artes cênicas e da astronomia – outra paixão – para entre os muros da escola. No último ano na casa de ensino, com o espírito de liderança fortalecido, agregou os colegas da eletrônica e desenhistas para seu grand finale: Fausto, poema trágico do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Arnaldo adaptou, coreografou, pintou, bordou e dirigiu. Em cena, o estudante despediu-se, encarnando Mefistófeles, o demônio.

Bem antes do Instituto Champagnat, nos anos 1960, o menino Arnaldo já aprontava das suas no entorno da Avenida Álvares Cabral, saltando telhados. Um precursor do parkour – arte de deslocamento e de exploração de obstáculos, utilizando-se das habilidades do próprio corpo –, o professor “brincava de pegador nas alturas”, vencendo as obras do prédio da Escola de Direito da UFMG. Num salto da memória, com ares de garoto, Arnaldo conta que já esteve engessado por seis vezes. “Até os 13 anos, fui uma constante no Hospital da Previdência”, diverte-se.

Em casa, na Avenida Augusto de Lima, Arnaldo demonstra prazer e gosto em falar do passado. Ainda que de recortes difíceis nas lembranças, como o bullying na escola e os conflitos em família pela imersão no mundo da dança. Como o personagem Billy Elliot, inspirado na obra de A. J. Cronin, Arnaldo precisou dançar escondido. Tristeza breve, apagada pelo orgulho das aulas na Escola de Dança Moderna Marilene Martins, no terceiro andar do Colégio Arnaldo. “Ganhei uma bolsa. Naquela época, catavam-se os homens no laço para a dança”, conta.

Algum tempo depois, a escola ganhou o nome de Trans-Forma Grupo Experimental de Dança, espaço que marcou a história da dança na cidade. Arnaldo se emociona ao relembrar o salão de ensaios na Avenida Carandaí, entre as mangueiras e as curvas da Serra do Curral, numa metrópole horizontal, de outros tempos. Emoção que se repete ao relembrar o professor Carlos Leite, velhinho, severo, movendo as pás do moinho nos bastidores de Dom Quixote, de Cervantes (1547-1616), no Teatro Sesiminas, nos anos 1990, substituindo o técnico que faltou ao trabalho.

Estudioso por natureza, paralelo à dança, além dos estudos em técnica de desenho arquitetônico, Arnaldo se graduou em geologia. Também se formou terapeuta corporal e fez carreira como “pesquisador do corpo do idoso”. Ganhando o pão sempre por meio da dança, Arnaldo chegou a trabalhar com “leitura corporal aplicada na área de recursos humanos” para grandes empresas. A academia foi caminho natural para o menino gentil, aplicado, que devora livros e trabalha para melhorar o mundo.

Mestre e doutor em educação, Arnaldo Alvarenga, o “Mefistófeles” de passagem tumultuada, vilipendiado na escola secundarista, cativou o respeito das mais altas rodas. Orientador de muitos, é autor de livros na área de história da dança, além de professor dos cursos de graduação em teatro e da dança da Escola de Belas Artes da UFMG. Casado com a restauradora Dolores Belico, Arnaldo alimenta em casa outra paixão. Uma pinscher serelepe, habilidosa com as quatro patas, chamada Pina Bausch.

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