Performer sérvia e artista plástico transformam intimidade em objeto de arte

A cena do insólito reencontro da artista plástica Marina Abramovic com o ex-companheiro, em pleno museu, faz sucesso na rede

por Sérgio Rodrigo Reis 22/08/2013 07:30

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MoMa/divulgação
Momento-arte: Mariana Abramovic revê o ex-companheiro Ulay depois de 25 anos de afastamento, durante performance no MoMa (foto: MoMa/divulgação)

Na adolescência, a performer sérvia Marina Abramovic viveu intensa relação com Ulay, pseudônimo do artista plástico Uwe Laysiepen. Os dois se conheceram na Alemanha, apaixonaram-se e, por 12 anos, criaram diversos trabalhos. Em 1988, ele a deixou. Apesar da revolta de Marina, traída pelo companheiro, o casal combinou a última performance na Muralha da China. Ela partiu do Leste, ele do Oeste. O encontro se deu três meses depois.

 

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Marina e Ulay se despediram, passaram 25 anos sem se ver e se reencontraram há três anos, de maneira insólita: durante a performance dela no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMa.

O momento em que Marina se surpreende com a “visita” foi filmado. É uma das cenas do documentário 'The artist is present', que circulou entre iniciados. Não se sabe muito bem como e por que, mas ele caiu nas graças dos internautas. O filme cult é viral na internet: superou quatro milhões de acessos e se espalhou pelas redes sociais. A cena surge descontextualizada, apenas relata o encontro do casal, mas preserva a essência do sentimento.

O viral acabou se tornando uma espécie de “porta de entrada” para a obra da artista plástica Marina Abramovic – um dos nomes mais importantes da performance nos últimos 40 anos. A cena não deixa de ser um convite para o internauta assistir ao premiado documentário, lançado no ano passado.

Assista à performance de Marina Abramovic e Ulay no MoMa, em NY




Festivais

 

Uma das hipóteses para o fato de o vídeo cair nas graças dos brasileiros pode estar ligada à trajetória do filme, apresentado em vários festivais no país. O documentário narra a preparação da retrospectiva do MoMa, chamada 'A artista está presente'. Abramovic pediu à produção que instalasse mesa e duas cadeiras no museu. As pessoas – entre elas Ulay – sentavam-se à sua frente e a encaravam pelo tempo que quisessem. A fila permaneceu enorme durante os três meses da mostra.

No filme, Marina busca registrar sua trajetória por meio de vídeos e da reprodução de trabalhos, confiada a alunos e discípulos. A obra da sérvia é marcada pela experimentação, explora a interação entre performer e público, aborda os limites do corpo e as possibilidades da mente. A cena com Ulay foi um dos pontos altos da exposição no MoMa. O documentário traz várias cenas dela com anônimos e famosos, como o ator James Franco. Estão em cena olhares profundos e a emoção do encontro.

Christian Hartmann/Reuters
'Imponderabilia', performance criada pelos artistas plásticos Mariana Abramovic e Ulay em 1977 (foto: Christian Hartmann/Reuters)
Sophie

 

Poucos artistas conseguem transformar a poética pessoal em arte, mantendo a força do discurso e tornando-o compreensível ao público, como faz Marina Abramovic. Não é raro deparar com propostas que acabam se enredando na armadilha do discurso vazio ou piegas.

Assim como a performer sérvia, a francesa Sophie Calle se destacou por estabelecer o diálogo entre vida pessoal e arte. Em 24 de abril de 2004, ela recebeu do companheiro e-mail com esta mensagem de rompimento: “Não quero mais te namorar”. Ele recomendava: “Cuide de você”.

Sophie decidiu sublimar a perda por meio de um projeto artístico. Enviou a mensagem para 107 mulheres e pediu-lhes um parecer. O resultado deu origem a uma instalação.

A artista plástica mineira Laura Belém lembra que Sophie Calle e Marina Abramovic são exemplos de criadores que conseguem se inspirar em narrativas pessoais e produzir obras bem-sucedidas. “Para a maioria dos artistas, é impossível não usar aspectos pessoais na própria obra”, conclui.


Regime militar

Considerada “avó da performance”, Marina Abramovic nasceu em 30 de novembro de 1946, em Belgrado. Os pais militaram como guerrilheiros durante a 2ª Guerra Mundial. O comandante Vojo foi aclamado herói nacional da Iugoslávia. A mãe, Danica, comandou a Armada e, em meados dos anos 1960, dirigiu o Museu da Revolução e Arte de Belgrado. Em 1964, o pai abandonou a família.

Marina e o irmão foram criados dentro das regras militares, o que lhes trouxe profundas marcas. “Todas as performances que fiz na Iugoslávia foram antes das 22h, pois tinha de estar em casa nessa hora. É completamente insano, mas todas as vezes em que me cortei, me chicoteei e me queimei ocorreram antes das 10 da noite. Quase morri em uma estrela de fogo, mas antes das 10”, declarou ela à imprensa.

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