Casa comprada por Elizabeth Bishop mantém viva a memória da escritora em Minas

Localizada em Ouro Preto, a Casa Mariana serviu de residência temporária da poeta norte-americana até a sua morte, em 1979

por Mariana Peixoto 21/08/2013 07:30

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Maria Tereza Correia/EM/D.A Press
Linda Nemer recorda amizade com Elizabeth Bishop (foto: Maria Tereza Correia/EM/D.A Press)
“Um caminhão Mercedes-Benz, enorme e novo, chega e domina a cena. Na carroceria, botões de rosa brilham, enquanto o para-choque anuncia: CHEGOU QUEM VOCÊ ESPERAVA. O motorista e o ajudante lavam o rosto, o peito, o pescoço. Lavam os pés, os sapatos, depois se recompõem.” Em duas das 16 estrofes de 'Pela janela: Ouro Preto', a poeta norte-americana Elizabeth Bishop expõe observações cotidianas e banais que tinha de uma certa janela da Rua Conselheiro Quintiliano. Pois foi do alto do casarão da amiga Lili Correia de Araújo, a quem o poema é dedicado, que ela observou uma residência logo abaixo. O que lhe chamou a atenção da casa, então em péssimo estado, foi o telhado, “como uma lagosta emborcada.”


Quarenta e oito anos depois dessa observação, é outra senhora de cabelos brancos quem relembra a história. Bishop comprou em 1965 a casa, datada do final do século 17, início do 18. Durante três anos, empreendeu uma extensa reforma no imóvel de 500 metros quadrados, situado numa área de 7 mil metros. Ficou com a casa até sua morte, em 1979, mesmo que nos anos finais pouco a tenha frequentado. Linda Nemer, economista e socióloga aposentada, a comprou da herdeira da poeta, Alice Methfessel, em 1982. Desde então, pouca coisa mudou. À exceção das estantes abarrotadas de livros, que ocupavam a residência, que Bishop levou para os EUA quando retornou ao país natal, em meados dos anos 1970, boa parte dos móveis continua como na época de sua moradora ilustre.

Globo Filmes / Divulgação
Elizabeth Bishop (Miranda Otto) e Carlota de Macedo Soares (Glória Pires) no filme 'Flores Raras', de Bruno Barreto (foto: Globo Filmes / Divulgação)

A passagem da poeta pelo país é retratada no filme 'Flores raras', de Bruno Barreto, recém-chegado aos cinemas. Mas o que está em foco na tela é a relação de Bishop com Lota de Macedo Soares, arquiteta autodidata que planejou o Parque do Flamengo. A maior parte da narrativa, baseada no livro 'Flores raras e banalíssimas', de Carmen L. Oliveira, é centrada no período em que as duas viveram, entre os anos 1950 e 1960, em Petrópolis e no Rio de Janeiro. Ouro Preto é relegada a alguns momentos na parte final, quando o casal visita amigos na cidade histórica. A vivência de Bishop em Minas Gerais se intensifica depois da morte de Lota, em 1967. E é essa a mulher com quem Linda Nemer e sua família conviveram muito proximamente.

Foi o irmão caçula de Linda, o artista plástico José Alberto Nemer, quem primeiramente ficou amigo dela – ele chegou a ter, na Casa Mariana (o nome é homenagem à poeta Marianne Moore, mentora de Bishop), um quarto reservado. Linda logo se tornaria também amiga. Como a família Nemer é de Ouro Preto, os laços se estreitaram. Tanto que a poeta deixou de herança para Linda cinco salas comerciais no Rio de Janeiro. Para ela, Elizabeth, como a chama, sempre foi a senhora um tanto solitária, que bebia muito, mas era de uma delicadeza a toda prova. Capaz de providenciar um tecido que vinha do Norte da Europa somente para presenteá-la (isso depois que Linda elogiou o vestido) e de ir para a cozinha para preparar algo para os amigos.

O quarto que pertenceu a Bishop é o menor dos cinco da Casa Mariana (a cama, com cabeceira do chamado “pescoço de cisne”, é utilizada por Linda hoje em outro quarto). No vidro da janela está inscrita a data de nascimento do chef Jesse Dunfod Wood (22 de outubro de 1977), que teria nascido no quarto de Bishop a pedido do pai, o pintor Hugh Diarmid Dunford Wood, fã da poeta. Mas a porta desse ambiente cai num outro muito maior, o antigo escritório da poeta, hoje transformado em quarto de hóspedes.

Histórias

Detalhista, Bishop mandou vir dos EUA a grande banheira branca, que havia pertencido a um hotel. Da Inglaterra são a lareira da sala e o aquecedor do banheiro. Na sala principal, um detalhe, emoldurado, mostra a construção original da casa (pau a pique, com amarração em couro). Bem próximo está a escrivaninha que pertenceu a José Eduardo de Macedo Soares, fundador do jornal 'O Imparcial', precursor do 'Diário Carioca'. Por sua antiguidade, a casa guarda histórias que não têm nada a ver com a passagem de Bishop por Ouro Preto. Há inclusive uma lenda que diz que a cabeça de Tiradentes teria sido enterrada ali – um importante maçom foi dono da casa em seus primeiros tempos e teria roubado a cabeça de Joaquim José da Silva Xavier.

Entretanto, é a passagem de Bishop que leva pesquisadores, turistas e curiosos a visitarem a Casa Mariana. Há alguns anos, Linda, que vive em Belo Horizonte, pensou em vendê-la, quem sabe para uma instituição “que fizesse dessa casa um museu da Elizabeth, que a mantivesse, a deixasse a salvo.” Como não apareceu ninguém, ela parou de pensar no assunto. “E meus sobrinhos vêm muito para cá, então fica para eles. Tenho 82 anos. O que vou fazer com o dinheiro nessa idade?” Mas se atualmente houvesse algum interesse que fizesse do memorial o lugar que ela imagina – e que Bishop, certamente, merece – Linda voltaria a pensar no caso.

Arquivo/O Cruzeiro/EM/D.A Press
A escritora norte-americana na Casa Mariana, em registro de 1970 (foto: Arquivo/O Cruzeiro/EM/D.A Press)
Elizabeth por Linda


» Sem tradução

“Ela bebia muito. Às vezes chegava lá em casa carregada pelo motorista. Nessa época, em Belo Horizonte, morávamos na Rua Herval (na Serra). A gente cuidava dela. Eu saía para trabalhar o dia todo e a mamãe (uma libanesa que nunca foi fluente em português) cuidava dela. Um dia, quando cheguei, ela me falou: ‘Passei a tarde conversando com a sua mãe. Foi muito agradável’. ‘Sobre o que vocês conversaram?’, perguntei. ‘Não sei, porque ela não entendia a minha língua e eu também não entendia a dela’.”

» Amiga famosa

“Um dia, cheguei aqui e ela estava com uma caixinha de sapato amarrada com uma fita. Me disse: ‘Linda, você não faz confiança em mim, mas sou uma pessoa famosa. Se na velhice você precisar de dinheiro, venda esses papéis que vai ter um apoio’. Peguei a caixa e levei para casa. Como viajava muito, falei para mamãe, que de vez em quando dava uma limpeza e jogava papel velho fora: ‘Mamãe, esses aqui não pode jogar fora’.”

» Papéis velhos

“Uma professora veio me perguntar coisas sobre a Elizabeth. Mostrei para ela a caixa. Pois ela foi para Vassar (a faculdade norte-americana em que Bishop estudou e que hoje guarda grande parte de seu acervo) e contou dos papéis. Ligaram-me insistentemente até que concordamos que eu iria até lá levá-los. Quando cheguei a Vassar, tinha um professor de português me esperando, me hospedaram num quarto enorme na universidade. Era tão bem montado que tinha 14 lâmpadas, eu contei. Eu ficava assim porque para mim a Elizabeth era uma pessoa comum, uma amiga mais idosa, uma senhora estrangeira que tinha poucos amigos em Ouro Preto, que bebia e que a gente ajudava quando precisava. Pois a diretora da biblioteca de Vassar só deixou eu abrir a caixa numa sala que era à prova de fogo. Uns experts de Nova York viram que eram autênticos. Nós negociamos e eu os vendi por US$ 25 mil. Era uma caixa de papel velho, com ótimos manuscritos, rascunhos de poemas e reflexões.”

» Coisa de escritoras

“Antes de vir ao Brasil, uma vez ela perguntou a Marianne Moore (mentora de Bishop) o que ela queria do país. Disse para levar uma coisa vermelha. Elizabeth foi a um antiquário e achou rubis. Quando a Marianne já estava muito doente, foi visitá-la e a família falou para que escolhesse uma lembrança. Ela escolheu a abotoadura de rubi. E me deu depois. Então, fui a uma solenidade em Petrópolis com o Affonso Romano e a Marina Colasanti, muito meus amigos. Durante o jantar, bati no copo, todo mundo fez silêncio. Contei essa história e dei as abotoaduras para a Marina. ‘Coisa de escritoras, fica para vocês’.”

Assista ao trailer de 'Flores Raras', de Bruno Barreto:


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