Bienal de Veneza estimula o diálogo de culturas e abre espaço para a arte de 88 países

O artista mineiro Paulo Nazareth expõe versões da mesma obra em Minas e na Itália

por Sérgio Rodrigo Reis 01/08/2013 06:00

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Sérgio Rodrigo Reis/EM/D.A Press
Hélio Fervenza e Odires Mlászho representam o Brasil na bienal italiana (foto: Sérgio Rodrigo Reis/EM/D.A Press)
Bienal de Veneza, Itália. Dezenas de galpões e edificações históricas da cidade das gôndolas, cercada por canais, recebem produções visuais dos quatro continentes – inclusive do Brasil, um dos países homenageados. Dentro da torre imponente está a instalação criada pelo artista plástico Paulo Nazareth, que reuniu objetos coletados em suas andanças a pé pelo mundo. Em Ribeirão das Neves, em Minas Gerais, o barracão no Bairro Veneza abriga outra versão daquela obra.

Veja mais fotos da exposição de Paulo Nazareth em Veneza


A intenção dele, que optou por não ir à Itália, é estabelecer conexões entre as duas instalações. Na bienal, seus assistentes reuniram o material coletado na obra 'Santos de minha mãe', o vídeo 'Aprender a rezar guarani e kaiowa para o mundo não se acabar' e o 'Caderno de projetos' – dedicado a Veneza e seus arredores. Em Ribeirão das Neves, Paulo estabeleceu conexões entre seus ancestrais indígenas da tribo krenak, perseguidos no passado, com os kaiowas, do Mato Grosso do Sul. “Meu trabalho junta esses nós. Busco tais aproximações nas marcas do meu rosto e nos deles”, explica.

O visitante da Bienal de Veneza não consegue perceber a densidade desse discurso nos trabalhos do mineiro. O mesmo sentimento surge depois da visita à representação brasileira. O pavilhão nacional, sob a curadoria de Luis Pérez-Oramas (o mesmo da última Bienal de São Paulo), sedia a exposição 'Dentro/Fora'. Hélio Fervenza, com pesquisa envolvendo colagem e ambiente digital, e Odires Mlászho, voltado para a hibridização de meios no espaço expositivo, estão lado a lado com obras pontuais das origens dos movimentos concretista e neoconcretista. Estão lá 'Côncavo/Convexo' (1947), de Bruno Munari; 'Unidade tripartida' (1948 – 1949), de Max Bill; e 'Obra mole' (1964), de Lygia Clark. São tantas as questões gravitando por ali que só iniciados dão conta de apreender a dimensão do conjunto. Se depender das informações à disposição, o leigo dificilmente consegue perceber algo além do aspecto visual.

Um artista brasileiro importante também corre o risco de ser incompreendido em Veneza: o sergipano Artur Bispo do Rosário (1911 – 1989). Notabilizado por seus bordados de caráter autobiográfico, criados quando ele era paciente da colônia psiquiátrica carioca Juliano Moreira, Bispo não é tratado como merece. A expografia confusa da sala onde estão seus objetos e estandartes prejudica – e muito – a compreensão de seu legado.

Da forma como está apresentada, a seleção enviada a Veneza mais confunde que contribui para a percepção do imaginário de Bispo. Sob o alto platô foram colocados objetos construídos a partir de quinquilharias pacientemente selecionadas por ele. O pouco espaço e a dificuldade de circular embaralham visualmente as peças, atrapalhando a percepção delas. O mesmo ocorre com estandartes, que foram instalados imediatamente atrás dessas obras.

Enciclopédia


O pensamento por trás do que se vê na bienal surgiu de uma metáfora. Em 1955, o autodidata ítalo-americano Marino Auriti projetou o Palácio Enciplopédico. Caberia ao edifício sediar todo o conhecimento e as descobertas da humanidade – da roda ao satélite. O utópico plano só saiu do papel graças a Massimiliano Gioni, o mais jovem curador em 110 anos de história do evento bianual de artes visuais, que fez dele o eixo conceitual desta 55ª edição, batizada de II Palazzo Enciclopedico.

A intenção era partir daquele conceito para, à luz dos novos tempos, recuperar o poder das imagens justamente no mundo superpovoado por elas. O curador buscou referências no pensamento de intelectuais que se propõem a rever o estatuto da imagem na contemporaneidade, como o francês Georges Didi-Huberman, o alemão Hans Belting e o norte-americano W. J. T. Mitchell.

Se, na teoria, a 55ª Bienal de Veneza impressiona, nem tudo funciona na prática. Entretanto, a impressão negativa da participação brasileira não prevalece diante do conjunto exposto em Veneza. Entre os 158 artistas em cartaz (quase o dobro das edições anteriores) em 88 pavilhões, iniciantes e iniciados estão lado a lado. Há trabalhos de todos os níveis. Alguns valem a ida à Itália, como os da representação chinesa, com vídeos, instalações e pinturas inspirados na superpopulação do país. Os Emirados Árabes se destacam. Quando o público entra na sala escura e sobe a rampa, tem a sensação de estar na proa de uma embarcação, à noite, sobre o mar revolto.

Outro impacto vem da instalação 'Veneza, Veneza', do chileno Alfredo Jaar. O artista recriou uma das pontes suspensas da cidade-sede. Lá de cima avista-se o espelho d’ água em tom esverdeado (o mesmo da paisagem veneziana). A cada três minutos, emerge de lá algo familiar: a réplica perfeita da região onde está a bienal, fabricada em resina cinza. Depois de alguns minutos, a estrutura submerge e desaparece por completo nas águas escuras, lembrando a luta da cidade contra as inundações e o aquecimento global. “A intenção é criar um futuro em que essa região desapareça por completo. Ao emergir tão brevemente, ela é como um fantasma da história. Veneza, Veneza é um convite poético a repensar o modelo da bienal”, explica Jaar, para quem o evento segue adotando “estrutura caduca e excludente”.

A 55ª Bienal de Veneza será encerrada em 24 de novembro. Informações podem ser obtidas no site www.labiennale.org.

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