Balanço positivo do Festival Mundial de Circo, em Caxambu, projeta novas edições na cidade

Programação do evento também deve ser ampliada

por Carolina Braga 29/07/2013 06:00

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André Fossati/Agentz
O ESPETÁCULO DO CIRCO ZANNI LOTOU A TENDA MONTADA NO FESTIVAL E MUITA GENTE AINDA FICOU DE FORA (foto: André Fossati/Agentz)
Caxambu
– Não importava a idade. Seja em crianças, adultos ou adolescentes, a pintinha vermelha do nariz foi “contaminando” quem passasse perto. E o sorriso? Aberto. Os olhos? Arregalados. Nem gato e cachorro escaparam da brincadeira.

A energia do palhaço e a alegria do circo tomaram conta de Caxambu nos últimos seis dias. A primeira edição do Festival Mundial realizado na cidade deixa constatações. Entre elas, a certeza de que a linguagem secular do picadeiro é agregadora. Tem mais: no interior mora um público sedento por arte.

“Estar aqui é trabalhar contra o desperdício. De público, cérebros, corações, palmas. São tantas que deixo de escutar por aí que chega a ser absurdo. Com o tamanho que esse país tem até que demorou para interiorizar” comentpu a atriz Marisa Orth. Convidada para se apresentar pela primeira vez sob uma lona com o show 'Romance parte II', ela saiu de Caxambu impressionada com a qualidade da troca com a plateia. Como grande comediante que é, se esbaldou. “Circo ainda é um dos poucos redutos multimídias. Continuo achando que quero ser uma artista assim. Sou anos 1980, gostava da não caretice daquela época. Sou atriz, mas gosto de fazer música. O circo ainda é um espaço de liberdade”, diz.

Bem receptiva com o público, Marisa tomou o maior susto quando uma das espectadoras contou que estava na fila há sete horas para vê-la. “Aqui é uma fartura de tudo. Uma troca muito boa”, concluiu a atriz. A boa notícia é que este não foi um fenômeno exclusivo dela, rosto conhecido da televisão. Foi assim todo dia, com chuva, sol ou muito frio – aliás, o que foi comum. “É muito difícil ter as coisas aqui. Então, quando aparece, todo mundo quer ver”, explicou a estudante Aniellen Brito, primeira da fila para ver a apresentação do Circo Zanni - ela estava ali desde as 14h30 à espera da distribuição das senhas, marcada para às 18h.

“Isso é uma coisa muito necessária não só em Caxambu, mas em todo interior. As pessoas gostam de cultura, mas é preciso que chegue até elas. Quando isso ocorre, você vê que não tem quem não goste”, garante a produtora cultural da cidade, mas radicada em São Paulo, Marília de Lima. Integrante da Cia Carroça de Mamulengo, a atriz e diretora Maria Gomide se surpreendeu com a atenção da plateia no Circuito das águas. “Querendo ou não, o tempo ainda circula diferente nos pequenos lugares. É muito bom poder realizar um espetáculo em um lugar que as pessoas têm naturalmente mais tempo para apreciar”, elogia.

SUPERANDO EXPECTATIVAS  O resultado da primeira edição do Festival Mundial de Circo em Caxambu superou as melhores expectativas das organizadoras. Na cidade com cerca de 22 mil habitantes, pelo menos 16 mil pessoas participaram das atividades. “Temos que ampliar a capacidade de atendimento do público e, principalmente, pensar em estratégias para ocupar cada vez mais Caxambu”, analisa Fernanda Vidigal, da Agentz Produções. Segundo ela, a tenda de 450 lugares se mostrou pequena para a demanda da região. “A nossa avaliação é que para montar a lona aqui tem que ser no mínimo de 800 lugares”, planeja.

O retorno que teve do público deixou claro que há uma carência a ser suprida. Da parte da organização, além da procura pelos espetáculos, surpreendeu também a ânsia pelas oficinas oferecidas. Nas aulas de palhaço, por exemplo, foram 60 inscritos para 15 vagas. “É uma curiosidade latente”, constata Fernanda. Como a realização do evento na cidade está garantida pelos próximos dois anos, a ideia dela é ampliar a oferta para 2014, principalmente de aulas relacionadas à encenação e dramaturgia circenses.

Em 2013, foram quatro oficinas e 11 espetáculos, na lona e principalmente na rua. Estiveram representados países como Bélgica, Argentina e Espanha. No fim de semana, o espetáculo que ostentou mais foi 'As mulheres do sol e o balão', da Cia. A Base. Porém, não passou de belas imagens. O grande destaque foi a simplicidade do palhaço espanhol Tortell Poltrona. Cinco anos depois de se apresentar no FIT-BH, ele mostrou em Caxambu a montagem 'Postclássic', com números tradicionais feitos com muita graça e poesia.

Ele que há 20 anos trocou o ritmo de Barcelona por uma pequena cidade próxima da montanha, diz ter encontrado em Caxambu “seres da mesma espécie” que ele. “Gosto muito das pessoas que têm uma relação próxima com a natureza. Nos espetáculos de palhaço, tudo depende da reação. Somos provocadores de sensações, portanto caberá ao público fazer o resto”, diz. A julgar pelo resultado das apresentações, o povo aqui entendeu o recado. Tortell brinca com a plateia do início ao fim. Ninguém sai constrangido.

FELICIDADE

O encerramento do Festival Mundial de Circo ficou por conta do Grupo Galpão com o novíssimo Os gigantes da montanha. Na montagem concebida e dirigida por Gabriel Villela, os atores encenam a tragédia de Luigi Pirandello com narizes vermelhos. “A função do palhaço é fazer as pessoas felizes pelo menos no momento em que estão diante dele”, ensinava o espanhol Tortell. O público que esteve em Caxambu que o diga.

Personagem da notícia

Carlos Antônio Esteves
Estudante de 13 anos

VOLUNTÁRIO

O adolescente Carlos Antônio Esteves (foto) certamente estará com o repertório de histórias renovado para contar aos colegas depois das férias. Isso porque, quase empatado com o nariz dos palhaços, ele foi onipresente durante o Festival Mundial de Circo em Caxambu. O garoto pode até não reconhecer, mas foram sim dias mais coloridos na vida dele. Literalmente. Carlos ficou sabendo sobre a chegada da lona na escola. No entanto, ser apenas espectador era pouco para ele. Assim que a produção desembarcou na cidade, Carlos foi se oferecendo para ajudar. Com graça, conquistou a equipe e claro, viu quase tudo. “É uma terapia para mim”, diz, em tom adulto. O lugarejo onde mora com os pais e a irmã de 7 anos fica a 2km do centro de Caxambu. Todo dia, bem cedo, o menino seguia de bicicleta para entregar folhetos e organizar cadeiras. O pretexto para isso tudo era, além de estar perto, tornar as férias inesquecíveis. Se duvidar, ele até foge com o circo.

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