Festa Literária de Paraty refletiu o emblemático momento político brasileiro

O legado do alagoano Graciliano Ramos, autor do clássico 'Memórias do cárcere', ecoa no século 21

por Ana Clara Brant 08/07/2013 06:00

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Walter Craveiro/divulgação
A professora Cleonice Berardinelli, de 96 anos, emocionou os 'flipeiros' e a cantora Maria Bethânia ao declamar versos de Fernando Pessoa (foto: Walter Craveiro/divulgação)
Paraty – “Graciliano, sim, nos representa”. Bem à moda dos protestos registrados nas ruas do Brasil, o escritor Graciliano Ramos recebeu a última homenagem, domingo de manhã, durante mesa realizada na 11ª Festa Literária de Paraty (Flip).

“Políticas na escrita” foi o tema discutido pelos professores Wander Melo Miranda, Lourival Holanda e Erwin Torralbo, especialistas na obra do autor alagoano. Holanda mandou um recado para os jovens: “Graciliano é uma necessidade, sobretudo para as novas gerações”. E chamou a atenção para a concisão dos textos do escritor, um exemplo para quem escreve em blogs e Twitter.

O autor de 'Vidas secas' e 'Memórias do cárcere' foi homenageado pela Flip, encerrada domingo, em meio a um momento emblemático para o país. História e política, aliás, são indissociáveis da obra desse alagoano, preso pela ditadura Getúlio Vargas. Para Wander Melo Miranda, Graciliano sabia ser político sem ser panfletário. Os especialistas lembraram uma frase antológica dele: “Liberdade completa ninguém desfruta. Começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”.

A efervescência das ruas se fez presente na Flip. Sábado à noite, o debate “O povo e o poder no Brasil” refletiu a polarização política dos últimos dias. O público aplaudiu e vaiou enquanto o economista André Lara Resende, o filósofo Marcos Nobre e o jornalista William Waack discutiam o futuro das manifestações que mobilizam o país.

O estudante Gandhi Terra Ayres, de 20 anos, aproximou-se do palco e gritou: “William Waack não representa a luta popular”. Abordado por um segurança, chegou a cair e foi retirado do local. O jornalista afirmara que, depois de cobrir manifestações argentinas e italianas, chegou à conclusão de que movimentos sociais sem clara definição política provocam menos mudanças que o esperado.

Outra mesa da Flip reuniu o historiador britânico T. J. Clark, o filósofo Vladimir Safatle e o psicanalista Tales Ab’Saber. Para Safatle, a volta da população às ruas nada tem de novidade. De acordo com ele, o Brasil não é um país de poucas mobilizações e poucos conflitos sociais. “Os últimos 20 anos foram um hiato na história brasileira”, observou.

T. J. Clark comentou a irada reação contrária à Copa do Mundo de 2014. “Quem se importa (com a Copa)? O Estado se importa. Nós, ingleses, ainda estamos nos recuperando das Olimpíadas, do bebê da família real. O Estado se alimenta desse tipo de espetáculo. Reajam a isso”, afirmou, sob aplausos. Para Ab’Saber, a internet amplia as chances de o Brasil construir a democracia direta. “Isso pôs a esquerda tradicional em pânico”, constatou.


2014 vem aí
Diferentemente das edições anteriores, não foi anunciado o nome do homenageado da Flip em 2014. O curador Miguel Conde explicou que não houve tempo para defini-lo por causa de imprevistos que alteraram a programação deste ano. Os convidados Karl Ove Knausgard, Michel Houellebecq e Tamim Al-Barghouti cancelaram sua participação e mesas foram incluídas na última hora. Mário de Andrade, Lima Barreto e Rubem Braga estão cotados como patronos em 2014. Liz Calder, idealizadora do evento, informou que, em outubro, na Inglaterra, será realizada a Flip Side, inspirada na festa brasileira.

 

Walter Craveiro/divulgação
"Todo mundo já está cansado de ouvir o que o Gilberto Gil ou o Ruy Castro vão dizer" - Paulo Scott, escritor (foto: Walter Craveiro/divulgação)
Sobrou vitalidade

 

Numa edição que, segundo os habituées (ou flipeiros, como são conhecidos), não teve grandes personalidades e foi mais apagada com relação aos anos anteriores, a 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) atraiu 20 mil pessoas à charmosa cidade fluminense.

A 11ª Flip teve alguns momentos antológicos, como a declamação magistral de poemas de Fernando Pessoa pela professora Cleonice Berardinelli, de 96 anos. Ela não só conquistou a plateia, como fez com que a cantora Maria Bethânia se curvasse diante de tanto carisma e vitalidade. As duas devem gravar um disco com os versos do poeta português.

Ver o aclamado cineasta Eduardo Coutinho, que está completando 80 anos, elogiar as novelas e até Carminha, personagem de Adriana Esteves na inesquecível 'Avenida Brasil', foi outro momento ímpar, assim como assistir – ao vivo – à destreza de outro octogenário, Ferreira Gullar, ao caminhar pelas ruas de pedra de Paraty.

O gaúcho Paulo Scott, um dos escritores mais aclamados da nova geração, inovou ao revelar o fim de um de seus livros em mesa que não foi das mais concorridas, mas, certamente, está entre as mais comentadas e elogiadas.

“Muita gente, inclusive a própria imprensa, fica atrás das mesas dos bambambãs, que todo mundo está cansado de ver e ouvir a todo instante, e não valoriza a de pessoas muito interessantes e que têm muito a falar. Nada contra eles. Muito pelo contrário, mas todo mundo está cansado de ouvir o que o Gilberto Gil ou o Ruy Castro vão dizer”, alfinetou Scott.

A escritora franco-iraniana Lila Azam Zanganeh foi eleita “a musa da Flip”. Namorada de um brasileiro, ela conquistou a plateia com seu esforçado português. Lila dividiu mesa de debates com o ensaísta e compositor Francisco Bosco e ganhou muitos aplausos ao cantarolar trechos de 'Trem das onze', de Adoniran Barbosa.

Os problemas habituais de infraestrutura – como a internet lenta, o péssimo sinal da telefonia celular (uma das operadoras chegou a deixar de funcionar durante três dias) e até a falta de água em alguns momentos – foram lamentados, mas, no final, prevaleceu o clima de festa na cidade, que cheira a maresia, mas sobretudo a história, literatura e poesia. Que venha a Flip 2014!

*A repórter viajou a convite do Itaú Cultural

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