Clássico "Hilda Furacão" chega ao teatro com roteiro de escritor mineiro

Romance de Roberto Drummond ganha adaptação do escritor Geraldo Carneiro para espetáculo musical, que deverá chegar aos palcos com Ísis Valverde no principal papel

por Ailton Magioli 30/06/2013 00:13

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Quinho/Ilustração
(foto: Quinho/Ilustração)

Uma nova conspiração mineira. Assim Geraldo Carneiro classifica a adaptação do romance Hilda Furacão, de Roberto Drummond (1933-2002), para o teatro. “Como a última conspiração (de 1789) não foi bem-sucedida, esta tem tudo para dar certo”, aposta o poeta, letrista e roteirista mineiro, radicado no Rio.

Procurado pelo ator e produtor carioca Edson Fiesch, sócio do também produtor Luciano Borges, Geraldinho, como é carinhosamente chamado pelos amigos, aceitou o desafio. Ele vai assinar o roteiro do espetáculo musical, inspirado no livro de 1991, que, sete anos depois, viria se transformar em uma das séries de maior sucesso da TV Globo, em adaptação da novelista Glória Perez.

“Trata-se de um romance fascinante, protagonizado por uma mulher que rompe com os valores da própria classe e do patriarcado brasileiro”, justifica Geraldinho, empolgado com a proposta da Borges & Fieschi Produções Culturais. Principalmente a partir da descoberta de que a atriz cotada para protagonizar o musical, que terá direção de Jorge Takla, será a também mineira Ísis Valverde.

A primeira incursão da famosa prostituta nos palcos brasileiros ocorreu em Belo Horizonte, ainda em 1996, quando o diretor Marcelo Andrade adaptou e dirigiu o espetáculo Hilda Furacão. Além do privilégio de ter Ney Matogrosso interpretando a música-tema do espetáculo, composta por Marcos Viana, a montagem teve Cláudio Lins, filho de Ivan e Lucinha Lins, que vivia frei Maltus, cantando outra canção de Flávio Venturini.

 “A ideia de ter a Ísis no elenco me deixou ainda mais animado. Além de um encanto de pessoa e de uma atriz maravilhosa, ela é mineira e com certeza vai contribuir para dar autenticidade à personagem com a sua prosódia”, afirma Geraldo Carneiro. Coincidentemente, no momento ele vem se debruçando sobre o roteiro de uma série sobre a Inconfidência Mineira, para a Globo, além de nova versão de Xica da Silva, para o cinema.

À frente

Filha de tradicional família de classe média, Hilda escandalizou a sociedade mineira ao romper com as convenções sociais, fugindo no dia de seu casamento e indo refugiar-se entre as prostitutas da zona boêmia. Na pequena Santana dos Ferros vivem três amigos inseparáveis, cada um deles com um sonho: Maltus quer ser frade dominicano; Roberto Drummond pretende fazer a revolução comunista, e Aramel, o Belo, almeja o sucesso em Hollywood.

Os planos dos três são afetados pelo surgimento de Hilda, por quem frei Maltus se apaixona, passando a enfrentar um intenso conflito, dividido entre a castidade e as tentações do sexo. A história é narrada pelas memórias do jornalista Roberto Drummond, então repórter iniciante do jornal Folha de Minas, encarregado de traçar o perfil de Hilda Furacão, uma mulher que desafiou as regras da moral e bons costumes numa época de repressão política e comportamental, em que a hipocrisia ditava as normas de conduta.

Contra a hipocrisia
Francis Hime e John Neschling estão cotados para escrever a parte musical de Hilda Furacão. Romance foi levado aos palcos em Belo Horizonte, em 1996, com direção de Marcelo Andrade
Beto Novaes/EM/D.A Press - 16/7/01
Roberto Drummond no Viaduto Santa Tereza: o escritor mineiro sempre fez questão de colocar Belo Horizonte em seu mapa literário (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press - 16/7/01)

Entre os parceiros que o roteirista Geraldo Carneiro provavelmente vai convocar para compor a trilha do espetáculo baseado em Hilda Furacão, de Roberto Drummond, estão o compositor Francis Hime, “pelo lirismo”, e o maestro John Neschling, criador da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), “pela cultura musical capaz de lidar com qualquer gênero”, explica.

Mesmo não tendo acompanhado a série de TV, Geraldo Carneiro mostra-se empolgado com o que viu na época. “Da escalação dos atores ao drama em si, passando pela escolha da cidade de Tiradentes como cenário”, justifica o roteirista, elogiando o desempenho de Ana Paula Arósio na pele de Hilda Furacão e de Rodrigo Santoro como frei Maltus. Além da sensação provocada então pelo ator Matheus Naschtergaele, que incorporou o travesti Cintura Fina.

“O texto da Glória Perez, também, era muito dramático, muito bom”, elogia Geraldinho, recordando, sobretudo, as figuras da tradição, que, no romance, antagonizam com Hilda. O espírito transgressor e libertário é o que mais o atrai na personagem, incapaz de viver dentro dos cânones tirânicos do patriarcado. Para o roteirista, a adaptação para o teatro será diferente da feita para a TV.

“São outras convenções, outra linguagem. E em se tratando de musical, então, é outra praia, específica”, justifica Geraldo Carneiro, admitindo que, como diria Manuel Bandeira, ele já teve alguns “alumbramentos” sobre a produção. “Primeiro é preciso ter a visão de como sintetizar cenicamente o espetáculo”, garante o roteirista, lembrando a necessidade de reler o romance de Roberto Drummond, que narra a trajetória da prostituta mais desejada da zona boêmia de Belo Horizonte, na década de 1950.

No palco

A primeira adaptação do romance de Roberto Drummond para os palcos data ainda da década de 1990 (a peça ficou em cartaz entre 1997 e 1999), quando Marcelo Andrade circulou com a peça de Minas Gerais a São Paulo, passando também pelo Espírito Santo. “Estreamos antes da minissérie”, orgulha-se o diretor, que reuniu Mariane Vicentini (que abandonou a carreira artística, depois das novelas O mapa da mina e Pátria minha) e Cláudio Lins nos papéis de Hilda e Maltus, respectivamente.

“É uma personagem maravilhosa que, ressurgida agora na era dos musicais, tem tudo para se tornar um sucesso”, aposta Marcelo, lembrando que a trama da prostituta apaixonada por um religioso não tem como deixar de atrair público. “As pessoas gostam de histórias assim”, acredita o diretor, que aposta no potencial de personagens como Maria Tomba-Homem e Cintura Fina, além da protagonista. “As tias também são hilárias”, acrescenta Marcelo Andrade, cuja adaptação incumbiu as personagens tipicamente mineiras da narrativa do espetáculo.

Personagem universal

Françoise Imbroisi/EM/D.A Press - 28/1/98
Gravação da série de TV "Hilda Furacão", com Ana Paula Arósio, em BH (foto: Françoise Imbroisi/EM/D.A Press - 28/1/98 )
Hilda Furacão é o que o mercado editorial chama de long-seller, um livro que vende constantemente, ao longo dos anos. Originalmente publicado pela Editora Siciliano, o romance ficou durante meses nas listas de mais vendidos, contabilizando mais de 300 mil exemplares em época em que 10 mil definiam um best-seller.

Com mais de 30 edições na Siciliano, o livro foi adquirido pela Geração Editorial, de Luiz Fernando Emediato, amigo de Roberto Drummond. “Estamos comprando os direitos de todos os livros dele, um a um. Já temos Hilda Furacão, Inês é morta, Sangue de Coca-Cola, Dia de São Nunca à tarde, Hitler manda lembranças e Quando fui morto em Cuba”, lista o editor, diretamente da Coreia do Sul, onde participa da Feira Internacional do Livro de Seul.

De acordo com Emediato, a exemplo do ocorrido com a série de TV, o musical deverá alavancar as vendas do livro, cujos direitos estão sendo negociados na Coreia, depois de traduções para o inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e catalão. “Hilda Furacão está em nosso catálogo e estará sempre. Quando a peça estrear, poderemos fazer inclusive ações de marketing sobre a obra”, anuncia Luiz Fernando Emediato, comemorando a chance de as novas gerações conhecerem essa “linda história” nos palcos.

Biscoito Fino/Divulgação
Geraldinho aposta na força revolucionária das mulheres de Minas (foto: Biscoito Fino/Divulgação)
Liberdade, seu nome é mulher

Literalmente desenhada no papel – planejada para o controle das pessoas, como teorizou em outro contexto o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) ao falar dos presídios europeus –, Belo Horizonte, na opinião de Geraldinho Carneiro, provavelmente espelha a mudança de mentalidade da sociedade do século 18, quando havia certa frouxidão dos laços patriarcais, para a do século 20, em que, além de assumidamente patriarcal, a sociedade brasileira passaria a ser repressiva. Neste cenário surge Hilda Furacão, que, curiosamente, encontra na conservadora Minas Gerais terreno fértil para exercer sua liberdade. O estado, lembra o roteirista, viu florescer mulheres libertárias como dona Beja, Xica da Silva, dona Maria da Cruz, Tiburtina e Ângela Diniz.

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