Grupos de teatro de Belo Horizonte dizem que a cidade não tem estrutura para temporadas de espetáculos

Depois de muita preparação, peças ficam em cartaz durante poucos fins de semana

por Carolina Braga 04/06/2013 08:10

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Emir Hoshi/Divulgação
A peça 'Prazer', da Cia. Luna Lunera, já foi apresentada em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas ainda não foi vista pelo público mineiro (foto: Emir Hoshi/Divulgação)
O plano era estrear em Belo Horizonte e só depois partir para temporadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mas as coisas não saíram como a Luna Lunera planejou e, até agora, o público mineiro ainda não viu 'Prazer', a nova montagem da companhia. A ideia era inaugurar o Centro Cultural Banco do Brasil, em construção na Praça da Liberdade. Com o atraso da obra, o grupo teve que procurar outros palcos. Na capital paulista foram dois meses em cartaz. A temporada carioca – com a mesma duração – se aproxima do fim e até Brasília passou na frente. Será um mês de apresentações na Capital Federal. Aqui, por enquanto, só negociações. “Tudo aponta para o fim de setembro”, adianta o ator Odilon Esteves.


O exemplo da Cia. Luna Lunera ilustra uma realidade local. Cada vez mais temporadas teatrais não têm vez por aqui. Um fim de semana aqui, dois ali, quando muito. “Belo Horizonte é uma cidade de eventos”, constata o diretor Pedro Paulo Cava. Com pesar na voz, ele anuncia que 'Morte e vida severina', a montagem mais recente dirigida por ele, será a última a permanecer meses em cartaz. E Pedro Paulo tem casa própria, o Teatro da Cidade. “Houve uma política perversa que acabou com as temporadas. Por outro lado, a classe se desinteressou”, avalia o diretor.


Guto Muniz/Divulgação
Pedro Paulo Cava garantiu mais de um ano para 'Morte e vida...' em seu Teatro da Cidade (foto: Guto Muniz/Divulgação)
'Morte e vida severina' é caso raro. O espetáculo esteve no Teatro da Cidade durante um ano e quatro meses. Apesar de ter atraído 50 mil espectadores, Pedro Paulo Cava afirma que não havia constância de público. E é exatamente esse o problema que intimida os grupos independentes a bancar mais de uma semana de apresentações. Sobretudo pelo fato de os teatros municipais estarem fechados, restando às produções o pagamento das taxas mínimas das casas de espetáculo particulares. Os valores das diárias podem partir de R$ 1,5 mil e ultrapassar os R$ 10 mil, dependendo do tamanho da sala.


Foi exatamente esse valor que assustou o ator Ílvio Amaral, sócio da Cangaral Produções. Acostumado a apresentar 'Acredite, um espírito baixou em mim' no Minascentro durante os dois meses da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, para o ano que vem já planeja mudança de casa. “Querem cobrar R$ 10 mil por sessão e que a gente coloque ambulância, segurança, papel e toalha. É uma coisa que não se paga. Existem teatros em Belo Horizonte que estão praticando preços de uma realidade para ator de televisão”, critica.


Assim como Pedro Paulo Cava, Ílvio Amaral também aponta a tradição de BH para eventos, tais como a Campanha de Popularização e festivais como o FIT como fator condicionante para o público. “Não estamos lidando com a venda de um produto da moda. Não vendemos um imaginário com o desejo de que seja descartável. Trabalhamos com a construção da identidade de um povo”, frisa Odilon Esteves, da Luna Lunera. A divulgação de eventos massivos é naturalmente maior do que aquela feita de maneira isolada. “Se você faz uma divulgação na casa dos R$ 10 mil ou R$ 20 mil, esse dinheiro não retorna pela bilheteria. Se fica só dois fins de semana em cartaz, não tem como diluir o custo”, completa Odilon

 

“Para você saber se um espetáculo deu certo ou não precisa ficar pelo menos quatro semanas em cartaz”, garante Ílvio Amaral. Ele e Maurício Canguçu preparam para setembro a estreia de 'La nona'. Mesmo sendo recordista de público há anos, a dupla não conseguiu mais do que um fim de semana nas agendas do Teatro Alterosa e do Teatro Bradesco. De acordo com Marcelo Veronez, produtor do Teatro Alterosa, embora o espaço prime por uma política de diversidade, as curtas temporadas são escolhas inevitáveis para os artistas. “Nos pautamos por essa diversidade, mas não sei se temporadas em teatros com 300 lugares se sustentam. Será que tem público suficiente? Os custos são muito altos e por isso optam por fazer períodos de apresentação mais concentrados”, analisa.

Netun Lima/Divulgação
'Entre nebulosas e girassóis', da Companhia de Teatro Adulto: muitos meses de ensaios para apenas sete apresentações, quatro delas em Curitiba (foto: Netun Lima/Divulgação)
Ato de coragem O exemplo da Companhia Teatro Adulto é parecido com o da Cangaral. 'Entre nebulosas e girassóis' estreou em janeiro, durante o Verão Arte Contemporânea. Foram três apresentações no evento e depois outras quatro em Curitiba, durante o Festival de Teatro da capital paranaense, um dos mais prestigiados do país. Na ponta do lápis: foram meses de trabalho para apenas sete apresentações.


A participação no festival rendeu convite para quatro semanas no Sesc, em São Paulo. Por aqui, a partir de quinta-feira, a peça volta a cartaz da Sala João Ceschiatti do Palácio das Artes para três semanas, de quinta a domingo. De acordo com os produtores, na atual conjuntura, encarar uma quinta-feira passou a ser um ato de coragem. No Galpão Cine Horto, por exemplo, as quintas-feiras foram abolidas do calendário. “Resistimos bastante. Criamos a campanha Público de quinta para ver se atraía mais espectadores. Não tem procura”, explica o coordenador do espaço, Leonardo Lessa, também integrante do Grupo Teatro Invertido.


O ator Luiz Arthur Oliveira, fundador da Cia de Teatro Adulto, também acha que o sumiço do público é sintomático da vocação da cidade. “As pessoas estão adestradas para os eventos. Será porque os preços são populares? Não necessariamente”, defende. Para o ator, o teatro necessita reencontrar sua singularidade. “Acredito mesmo que o público ficou condicionado a ir ao teatro para assistir a uma reprodução do cotidiano. Para mim, o teatro precisa atingir uma singularidade que o distinga da TV e do cinema”, observa.


Atualmente em cartaz com 'Prazer' no Centro do Rio de Janeiro, Odilon Esteves defende alternância de lógica nas políticas de incentivo à cultura. “A questão é que conseguimos produzir objetos artísticos, mas não conseguimos fazer sua distribuição. Isso porque entra em uma roda-viva que é o mercado. Em BH, por exemplo, não tem um teatro municipal para abarcar a produção”, cobra. Para Odilon, as temporadas longas são muito importantes para a maturidade dos espetáculos, para a prática de quem os faz e para se construir o boca a boca que faz girar a roda do teatro.

Tiago Penna/Divulgação
Esquyna Espaço Coletivo Teatral (foto: Tiago Penna/Divulgação)
Com casa própria


A dificuldade em atrair o público somada às taxas de manutenção dos teatros pode ter incentivado a recente proliferação de espaços alternativos mantidos por grupos em Belo Horizonte. Com programação mensal fixa desde o ano passado, em 2013, o Esquyna – Espaço Coletivo Teatral, por exemplo, já abrigou temporadas de estreias dos grupos Teatro Invertido e Mayombe, cada uma de um mês.


“O fato de ter um espaço próprio facilita muito. O problema que percebo é que as temporadas longas não se pagam”, comenta Leonardo Lessa. Segundo ele, no período em que 'Klássico com K' e 'Os ancestrais' estiveram em cartaz, cerca de mil espectadores passaram pelo Esquyna. “Foi a metade do que tivemos no ano passado inteiro”, ressalta. “Isso facilita que a informação chegue às pessoas. A questão é que até o boca a boca pegar, os custos já são muito altos. É duro passar por dois fins de semana com casa vazia até pegar”, diz.

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