Neta de Dorival Caymmi lança livro sobre a participação do avô na era do rádio no Brasil

Família programa celebração do centenário do artista, com lançamentos de disco e livro

por Ailton Magioli 19/05/2013 07:00

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Acervo EM
Dorival Caymmi, Carmen Miranda e Assis Valente: sucesso internacional da era do rádio no Brasil que conquistou público em todo o mundo (foto: Acervo EM)
Foi durante a pesquisa para escrever a biografia do avô, 'Dorival Caymmi – O mar e o tempo' (Editora 34, 2001), quando se aprofundou especialmente na chamada era do rádio, que a neta Stella Caymmi se apaixonou pelo período, compreendido entre 1930 até meados de 1950, para escrever também 'O que é que a baiana tem? Dorival Caymmi na era do rádio', que está lançando agora, pela Civilização Brasileira. 

“Como é a época em que meu avô aparece na cena, aprofundei-me muito no período”, recorda Stella, autora, também, de 'Caymmi e a bossa nova' (Íbis Libris, 2008), cujo projeto ainda prevê um quarto livro sobre o avô, reunindo as mais de 80 entrevistas que fez com o cantor e compositor baiano. Filha da cantora Nana Caymmi com o médico venezuelano Gilberto Jose Aponte Paoli, a escritora, também jornalista, lembra que o rádio sempre foi presença marcante na família Caymmi. 

“Nas férias e feriados em que ia para o Sítio Maracangalha, na Baixada Fluminense, acordava cedo ao som do rádio que meus avós já estavam ouvindo na cozinha”, afirma a neta, orgulhosa da formação que teve. Depois de se debruçar sobre a bossa nova, tema de sua dissertação de mestrado, a escritora se dedicou à era do rádio em doutorado na PUC Rio, cuja tese defendeu sob orientação do professor Júlio César Valladão Diniz.

Ed. Civilização Brasileira/reprodução
(foto: Ed. Civilização Brasileira/reprodução)
Agora publicada em livro. a pesquisa resultou em “ensaio quase de história, de recuperação de uma época”, enquanto na dissertação ela se enveredou por uma análise estética do movimento liderado por João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. “Na época, a ideia me foi dada por Chico Buarque, sob o argumento de que enquanto nomes como Noel Rosa e Ataulfo Alves eram recusados pela bossa nova, Dorival Caymmi era absorvido por ela”, salienta Stella, ao lembrar que o avô foi um dos que sobreviveram ao então novíssimo movimento musical que se estabeleceu na década de 1960, no Rio de Janeiro.

Já a chamada época de ouro da MPB é classificada por Stella Caymmi como “período muito artificial”, por se integrar à ideologia ligada ao governo do presidente Getúlio Vargas. “A era do rádio”,  recorda a escritora e jornalista , “vem à tona em 1930, com a liberação da publicidade no veículo, quando a MPB viveu um de seus maiores períodos. O advento da televisão, no final da década de 1950 e início da de 1960, seria o primeiro sinal do fim da era do rádio, que até hoje não conseguiu recuperar força diante da televisão.

Pura inveja Além do preconceito, como bom baiano que era, Dorival Caymmi teria sido vítima de tentativas de sabotagem a seu trabalho, informa a neta Stella Caymmi. Um dos principais suspeitos de espalhar falsas notícias a respeito do cantor e compositor teria sido o jornalista David Nasser. “Dorival foi muito invejado e combatido”, garante Stella, que ouviu do próprio avô histórias a respeito da turma que o cercava, que tinha por objetivo diminuir o seu sucesso. De acordo com a neta, além do fato de ser compositor, Dorival Caymmi despertava ciúmes por ser letrista e ainda violonista e intérprete da própria obra. “Nesse sentido, ele era um artista único. Era só ele e o violão, enquanto outros dependiam dos intérpretes para trazer sua obra à cena. “Fora o fato de a própria temática de sua música ser muito imagética, ao abordar a figura da baiana e cenários como a praia”, acrescenta Stella Caymmi.

Como faz questão lembrar, depois de Carmen Miranda Dorival Caymmi foi o primeiro cantor a se apresentar em cassino no Brasil. “Até então eles só contratavam estrangeiros”, recorda a autora de 'O que é que a baiana tem? Dorival Caymmi na era do rádio'. Originalmente gravada para o filme Banana da terra, de 1938, O que é que a baiana tem? foi o grande sucesso do artista no ano seguinte, ao ser gravada por Carmen Miranda. “Quando a música estourou no rádio, ela ligou para meu avô propondo: ‘Vamos gravá-la?’, proposta imediatamente aceita por Dorival, que acabou levando-o à Broadway, graças ao sucesso que levou também Carmen Miranda aos Estados Unidos.

Com 40 caixas de arquivo morto guardadas em seu escritório, Stella Caymmi anuncia que o próximo projeto sobre o avô deverá ser um livro de entrevistas, por meio do qual pretende revelar o retrato do século 20, da história cultural do país. “Meu avô conviveu com os maiores compositores, escritores, cronistas e artistas plásticos da época”, ressalta. Das cerca de 80 entrevistas gravadas para o primeiro livro sobre Dorival Caymmi (a biografia), a neta ainda pretende tirar algo, com direito a muitas fotografias para ilustração do novo livro.

 “É o testemunho vivo de uma época que ele protagonizou”, conclui, orgulhosa, Stella Caymmi, que está agendando data para vir a Belo Horizonte lançar o trabalho na programação do projeto Sempre um Papo. Terra da avó Stella Maris, Pequeri, na Zona da Mata, deverá ter um lançamento da obra, assim como a vizinha Juiz de Fora. De acordo com a neta de Dorival e dona Stella, apesar do desejo da municipalidade de festejar o centenário do compositor baiano, que deixou casa na pequena cidade, ainda não há nada definido.

Festa começa este ano

O advento da Copa do Mundo e mais um ano eleitoral, em 2014, fizeram com que a família decidisse antecipar as comemorações do centenário de Dorival Caymmi (1914–2008). Além do lançamento, ainda este ano, de um disco reunindo os filhos Dori, Nana e Danilo Caymmi, com direito à inédita 'Cantiga de cego', que o compositor fez em parceria com o amigo e escritor Jorge Amado, em 1945.

“A música foi feita especialmente para a adaptação para os palcos de 'Terras do sem fim', que teve a participação de Cacilda Becker, Maria Dela Costa, Jardel Filho e Ziembinski. A ideia dos Caymmis é iniciar as comemorações dos 100 anos do compositor ainda este ano, estendendo os eventos até abril de 2014. 

Já está programada a edição de livro de arte com ensaios e fotografias de Dorival. Enquanto a neta assina o perfil de Dorival Caymmi, escritores como João Ubaldo Ribeiro escrevem os ensaios da obra. “A ideia da família é apoiar e incentivar todas as homenagens ele”, garante a neta, consciente da importância da celebração para a sobrevivência da obra de Caymmi.

Três perguntas para...
Stella Caymmi pesquisadora

Qual foi a principal contribuição de Dorival Caymmi para a chamada era do rádio?
Ele foi um dos pilares da geração fundadora da música popular brasileira. Foi um dos artistas fundamentais dessa geração, ao lado de Pixinguinha, Noel Rosa e Ary Barroso. Essa foi uma geração incrível.

Qual foi a importância do compositor para o sucesso de Carmen Miranda?
Lembro-me de meu avô contando, durante as entrevistas que fiz com ele, do quanto ele e Carmen se tornaram amigos. Ela chegou a desabafar com ele que iria parar de cantar para se casar com o músico Aloysio de Oliveira. O sucesso de O que é que a baiana tem?, no entanto, foi tão avassalador que a levou direto para Hollywood e a Broadway.
 
Até que ponto o Estado Novo, do presidente Getúlio Vargas, interferiu na criação musical?
Muito mais do que interferir, o Estado Novo se utilizou a música para fazer uma ode, uma glorificação do trabalhador. O DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), de certa forma, procurou regular as letras e desviá-las de acordo com os interesses do Estado Novo. Caymmi não sofreu esse tipo de interferência, mas a maioria dos compositores cariocas ou os que estavam no Rio naquele período passaram por isso. Já a censura fez com que meu avô trocasse a cor da saia do Vestido de bolero – originalmente verde e amarelo – para verde, azul e branco, sob o argumento de que o vermelho (a cor do Partido Comunista) não combinava com as cores nacionais.

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