Antônio Dias, um dos nomes de maior destaque da arte contemporânea brasileira, reúne trabalhos realizados nos anos 1980

Exposição será aberta nesta segunda-feira na Celma Albuquerque Galeria de Arte

por Walter Sebastião 22/04/2013 08:18

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Marcos Vieira/EM/D.A Press
(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
A volta a Milão em 2009, depois de viver em Berlim desde 1988, fez com que o artista plástico Antônio Dias tivesse de reabrir caixas em que, por muito tempo, guardou trabalhos dos anos 1980. E acabou redescobrindo trabalhos feitos em momento que o mercado de arte europeu, sobretudo o italiano, está parado. “O que deixa o artista na condição de trabalhar para si mesmo e ir guardando o que fez. O que, aliás, sempre fiz”, observa. Eram colagens, desenhos e pinturas, continua o artista, feitos sem nenhum objetivo, cada uma de um momento, valendo-se de diversos materiais – restos de papelão, jornais, grafite, óxido de ferro etc. “Que tem a característica de serem despretensiosos. Me reconheci neles exatamente por terem o necessário para a existência”, observa.

Convidado ano passado a fazer exposição na Art Rio, por Lúcio Albuquerque, resgatou as peças. E a mostra carioca fez sucesso. Mais trabalhos vindos do acervo do artista, realizados entre 1983 e 1991, estão na exposição que Antônio Dias abre hoje na Celma Albuquerque Galeria de Arte. Juntos com os mostrados no Rio de Janeiro, vão se tornar livro. A distância no tempo entre realização e apresentação, suspeita o artista, vem ajudando na empatia do público com as obras. “Às vezes você inventa umas coisinhas que podem não ter comunicação imediata”, especula, saboreando exposição com material completamente inédito. Desconfiado, avisa que, apesar de ter mais obras de outros momentos da carreira, o momento é de dedicação a novas empreitadas.

Todas as obras da exposição são sobre papel ou construídas com o material. Antônio Dias não esconde que tem paixão por papéis, texturas e diversidade de formato deles. “Papel é mais resistente do que tela. Se você vê a coleção Uffizi, vai observar que restaram mais obras sobre papel do que sobre tela. É a vingança da fragilidade”, afirma com a ironia que é muito dele. Os trabalhos têm linguagem direta: são superfícies ásperas e sinais recorrentes na obra do artista – martelos, armas, ossos, falos, recipientes, retângulos. Sedutores pela explícita materialidade das obras, ainda mais diante da rarefação física da cultura virtual. Dimensões pequenas, modestas, não só trazem sentido intimista como a sensação de que ver estes trabalhos é adentrar no “laboratório” do artista.

“Não sou de ir ao ateliê todo dia, passo temporadas sem trabalhar. É pausa para a cabeça”, conta Antônio Dias. “Não tenho necessidade de ficar produzindo o tempo todo, preciso de estar pensando no que quero fazer”, acrescenta. Conta que a arte dele é um espelho. “É que fiz o que gosto ou o que prefiro, minha surpresa com o que saiu me joga para a frente”, observa. Conta que a arte dele carrega sempre uma experiência. Que, quando enjoa, se esgota ou não dá certo, leva à mudança de atitude. O momento da exposição, por sua vez, é de compartilhamento e de ouvir o que as pessoas sentem diante das imagens que apresenta.

Marcos Vieira/EM/D.A Press
Todas as obras da exposição têm como base o papel, sejam pinturas, colagens ou desenhos, que trazem signos que fazem parte do repertório estético e filosófico do artista (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Trajetória internacional


Antônio Dias tem 69 anos e nasceu em Campina Grande, Paraíba. Mudou-se em 1957 para o Rio de Janeiro, onde estudou gravura com Oswaldo Goeldi (1895-1961), no ateliê livre de gravura da Escola Nacional de Belas Artes. Integrou grupo de jovens artistas da época (Rubens Gerschmann, Roberto Magalhães e Carlos Vergara, entre outros) que articulando expressionismo, arte geométrica e pop art criam ambiente que vai ser berço do tropicalismo. Já expôs em museus de todo o mundo e tem obras em acervos do Museu de Arte Moderna de Nova York (EUA) e no Ludwig de Colônia (Alemanha).

O artista morou em Paris, Milão, Nova York, Londres, Colônia e Berlim e já participou de bienais representando o Brasil, França e Itália. As andanças mundo afora foram movidas por necessidades de trabalho. Começaram aos 21 anos, quando ganhou prêmio de pintura na IV Bienal de Paris, onde morou de 1966 a 1968, mudando-se em seguida para Milão. “Sem poder voltar ao Brasil, decidi por Milão, que me parecia um grande laboratório internacional das artes. Encontrei lá caldeirão de experiências que existia no Brasil do fim dos anos 1960, mas não em outros países europeus”, recorda. Um convite para ir a Berlim, em 1988, fez com que o artista se fixasse na Alemanha até 2009.

Com relação às reverências, hoje internacionais, da movimentação brasileira dos anos 1960, Antônio Dias considera que se deve ao fato de o realizado na época ganhar grande repercussão mais tarde. Lembra que exposições como Opinião 1965 e Opinião 1966, no Rio, trouxeram de volta artistas como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Aluísio Carvão, entre outros, que depois de participarem do movimento neoconcreto foram marginalizados. “Há muito interesse comercial pelas obras realizadas, que são poucas. Ouço pessoas falando em formar coleção dos anos 1960. Não acho necessária essa autocastração”, provoca.

Mérito da movimentação artística afirmada a partir da metade dos anos 1960, para Antônio Dias, é ter criado a possibilidade de coexistirem diferentes linguagens ao mesmo tempo. “A arte brasileira vive hoje momento importante. O motor de tudo é o mercado, o que é positivo. Mas é preciso atenção para que vender não seja o único objetivo de se fazer arte”, alerta.

Antônio Dias
Colagens, objetos e pinturas. Celma Albuquerque Galeria de Arte, Rua Antônio de Albuquerque, 885, Savassi, (31) 3227-6494. Segunda a sexta, das 9h às 19h; sábados, das 9h30 às 13h. Até 25 de maio. Entrada franca.

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