Remanescente do grupo Dzi Croquettes, Ciro Barcellos retoma o fio da meada com montagem em cartaz no Rio de Janeiro

Ator, bailarino e coreógrafo participou do grupo que causou furor na década de 1970

por Mariana Peixoto 08/04/2013 08:10

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ANDRÉ ROLA/DIVULGAÇÃO
"A experiência de convivência foi o mais importante de tudo. Vivíamos dentro do mesmo ideal" (foto: ANDRÉ ROLA/DIVULGAÇÃO)
Morando no primeiro andar de um prédio em Porto Alegre, era fácil fugir de casa. E Ciro Barcellos realmente o fez. Pegou seus pertences, colocou numa bolsa e saiu pela janela. Do lado de fora, Sônia Braga (na época apenas a Soninha) e Armando Bógus o esperavam num fusquinha. De lá pegaram estrada, chegando a Curitiba, onde finalmente ele fez o que queria: um teste para 'Hair', para substituir Buza Ferraz. Quando conseguiu o papel, ouviu do produtor Altair Lima que teria que voltar para casa. Era menor de idade. Pois Ciro convenceu os pais a emancipá-lo. Um ano mais tarde, após a experiência na antológica montagem (e ainda sem completar 18 anos), entrou para o grupo que iria definir sua carreira: os Dzi Croquettes.

Estamos no início da década de 1970, quando Ciro se tornou o caçula da recém-criada companhia de Lennie Dale (1934–1994). O coreógrafo norte-americano, radicado no Brasil, andava revolucionando a cultura do espetáculo – teria inclusive orientado Elis Regina a balançar os braços em 'Arrastão', anos antes. Sua maior cartada no Brasil, os Dzi Croquettes, durou efetivamente quatro anos (1972 a 1976), marcando a contracultura gay em período da ditadura militar entre os anos de chumbo do governo Médici e a gestão Geisel.

Com a dissolução do grupo, cada um dos 13 integrantes foi para um canto. Somente em 2009, com o documentário 'Dzi Croquettes', de Raphael Alvarez e Tatiana Issa, a história veio à tona para as novas gerações. A repercussão acabou motivando a criação do espetáculo 'Dzi Croquettes' em bandália, criado e dirigido por Ciro Barcellos, em cartaz no Rio de Janeiro. Há contatos com produtores de Belo Horizonte, cidade que o diretor, coreógrafo e ator espera vir até o fim deste semestre.

ANDRÉ ROLA/DIVULGAÇÃO
O musical Dzi Croquettes em bandália mistura a arte com a vida (foto: ANDRÉ ROLA/DIVULGAÇÃO)
Quatro décadas

Na montagem, jovens atores decidem reviver a experiência cênica depois de assistir ao documentário 'Dzi Croquettes'. Eles se reúnem a um integrante da formação original (o próprio Ciro Barcellos) para montar um espetáculo do chamado teatro musical. Na garagem onde moram acontece de tudo: os ensaios, a vida pessoal, o espetáculo em si e a vida noutro palco, um cabaré clandestino onde os meninos se prostituem para se sustentar. Todos os atores são chamados pelo próprio nome, levando a arte a se misturar com a vida mais uma vez.

Aos 59 anos, Ciro Barcellos admite que, depois de viajar por um ano acompanhando exibições do documentário (um dos mais premiados do país), decidiu que era hora de voltar na história. “Antes do filme, era uma coisa fora de cogitação na minha cabeça. O projeto veio ainda de uma necessidade maior de levar para o palco o momento que estou vivendo, de insatisfação com a política de exclusivismo do que se chama de teatro musical brasileiro. Há um estrangeirismo exacerbado no palco. É bacana assistir aos musicais americanos, que passaram a exigir mais da juventude, já que os atores têm que cantar, dançar e atuar de verdade. Por outro lado, eles também estão condicionando jovens artistas a ter um emprego. O garoto estuda teatro para entrar em 'Malhação' ou ser contratado para grandes musicais e ter um salário de R$ 7 mil por mês.”

Com o elenco de 'Dzi Croquettes' a realidade é outra. Os jovens atores selecionados de um total de 600 inscritos têm atuado com base na própria bilheteria, já que a montagem não conta com patrocínio. “Esbarrei na homofobia empresarial, mas fui conseguindo pequenos apoios de alimentação e sala de ensaio. Resolvemos fazer”, continua Ciro. No processo, outros dois ex-Dzi Croquettes se reuniram à velha trupe: Cláudio Tovar, responsável pelos figurinos (“quem assiste acha que é superprodução, mas o figurino é reciclado, com coisas que ele tinha em casa”) e Bayard Tonelli, que faz uma participação (a maior parte dos integrantes já morreu).

A ousadia vem colhendo frutos. Inicialmente, o espetáculo, que estreou em outubro, ficaria em cartaz somente até dezembro, no Teatro Leblon. A produção conseguiu novo teatro (Clara Nunes), com reserva até o fim de maio. “Como estamos em cartaz sem patrocinador, vemos ao fim de cada mês se continuamos”, explica Ciro. Por ora, a garantia é até 28 deste mês.

DZI CROQUETTES EM BANDÁLIA
O espetáculo cumpre temporada até dia 28 no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea (Rua Marquês de São Vicente, 52, Gávea, Rio de Janeiro). De quinta-feira a sábado, às 21h30, e domingo, às 20h. Ingressos a R$ 80 e R$ 40 (meia-entrada). Informações: (21) 2274-9696.

Canal Brasil/Divulgação
O norte-americano Lennie Dale era o principal nome do grupo, que estreou em 1972 (foto: Canal Brasil/Divulgação)
Liberou geral

Um grupo de homens peludos, maquiados e de salto alto. Em 1972, os Dzi Croquettes estrearam no Rio de Janeiro. Na época, Lennie Dale, oriundo da Broadway, já era referência no teatro musical – antes de montar seu próprio grupo, havia feito uma performance em que, vestido de mulher, estalava um chicote. Sempre impecáveis, misturavam música, dança e comédia de costumes, faziam um deboche à ditadura vigente e à realidade brasileira. A androginia era a marca, como explicitado na canção 'Tá boa, santa?': “Não sou dama nem valete/ Eu sou um Dzi Croquette”. As principais bandeiras eram revolução de comportamento e libertação sexual.

Fora do palco, os 13 integrantes do grupo viviam juntos e se relacionavam na chamada Embaixada de Marte, uma casa no Bairro de Santa Tereza. “A experiência de convivência foi o mais importante de tudo. Vivíamos dentro do mesmo ideal”, conta Ciro que, como caçula da trupe, admite ter sido o mais mimado. “Aos 18 anos eu já dançava ao lado do Lennie. É preciso muita confiança para isso.” Logicamente, o deboche das montagens não demorou a ser perseguido. “Tomamos muita paulada e fomos exilados.”

Os artistas acabaram indo para a Europa. Na França ocorreu o maior reconhecimento: “Dancei para meus maiores ídolos: Mick Jagger, Liza Minelli e David Bowie”, conta Ciro. Depois da temporada no exterior, o grupo se dissolveu. Ciro resolveu ficar: foram dois anos lá fora, atuando ao lado dos grupos de Maurice Béjart e Pina Bausch. Em 1981, de volta ao Rio de Janeiro, fundou o Balé do Terceiro Mundo – quem não se lembra da abertura do Fantástico com Isadora Ribeiro?. Ciro não só coreografou como também participou do vídeo. Mais tarde, radicalizou. Viveu São Francisco de Assis em musical. Durante 12 anos, o ex-Dzi dos saltos altos ficou no teatro de pés descalços.

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