'Domésticas', em cartaz nesta sexta em BH e domingo em Betim, derruba preconceitos com humor

Clichês do mundo do trabalho doméstico ficam longe de cena

por Carolina Braga 05/04/2013 08:00

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Janderson Pires/Divulgação
(foto: Janderson Pires/Divulgação)
Esqueça espanadores, vassouras, baldes, uniformes. Não é porque se trata de uma peça sobre o universo das secretárias do lar que esses elementos estarão necessariamente em cena. No caso de 'Domésticas', comédia em cartaz somente nesta sexta-feira, no Sesc Palladium, e domingo, em Betim, o clichê passa, propositalmente, bem longe do palco. Ainda bem.


Dirigida por Bianca Byington e encenada por Cacau Protásio, Ticiana Passos, Ana Paula Sant’Anna, Alexandre Lino e Hossen Minussi a montagem estreou em outubro passado no Rio de Janeiro. Desde então, atraiu mais de 15 mil espectadores com uma fórmula essencial do teatro: combinação de bom texto com sincero trabalho de ator.

 

“A montagem é muito simples e arriscada. Colocamos o texto em primeiro plano, não construímos personagens, nem tem ação”, explica a diretora. A dramaturgia de Renata Melo e José Rubens Siqueira parte de depoimentos reais de empregadas domésticas de todas as regiões do país. A pesquisa feita em 1998 deu origem à peça, e também ao filme homônimo, dirigido por Fernando Meirelles, em 2001.


Exemplar do gênero documentário cênico, o que a nova montagem faz é ressaltar essa característica. Entre as inúmeras referências a mais forte é a experiência do cineasta Eduardo Coutinho com o longa 'Jogo de cena' – ele inclusive frequentou os ensaios. Como os atores interpretam casos reais – assim como no filme –, a ação é muito contida. Diante da plateia, cada um em um banco, os intérpretes dão voz a experiências alheias sobre sonhos, frustrações e muitas peripécias de algumas empregadas domésticas.


“Tentei deixar espaços, para criar a possibilidade de ouvir e refletir sobre o que é dito. O espetáculo tem pausas. Acho muito delicado”, diz Bianca Byington. 'Domésticas' é a terceira direção assinada por ela. Como é atriz, centrou fogo no trabalho com os colegas para alcançar seus objetivos. Entre eles, fugir do estereótipo e tratar a profissão de empregada doméstica da maneira mais humanizada possível. Pelo mesmo caminho não convencional vão o cenário de Ney Madeira, Dani Vidal Pati Faedo; o figurino de Kika Lopes; e a iluminação de Maneco Quinderé. Tudo orquestrado para o que realmente interessa: o discurso.


“Os atores ficaram com muito medo no início, por que o ator sempre quer se proteger com tipos, sobretudo aquele com instinto cômico. Queriam fazer tipos, trejeitos, sotaques, gracinhas e eu realmente tentei tirar isso tudo”, lembra a diretora. “É a mesma coisa de me deixar na Central do Brasil, no Rio, e falar ‘tira a roupa’”, compara, bem-humorada, a atriz Cacau Protásio.


DOMÉSTICAS

Em Belo Horizonte
Nesta sexta-feira, às 21h, no Grande Teatro do Sesc Palladium, Av. Augusto de Lima, 420, Centro. Ingressos: Plateia 1: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia); plateia 2: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia); plateia 3: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). Informações: (31) 3279-1500.

Em Betim
Domingo, às 19h, na Casa de Cultura Josephina Bento, Rua Padre Osório Braga, 18, Centro, Betim. Entrada franca. Informações: (31) 3532-2530.

 

 

Sem caricaturas

Quando recebeu o convite para a peça, ela vivia a espevitada 'Zezé de Avenida Brasil'. Lá sim, era a empregada padrão, com uniforme, espanador, vassouras e direito a performance no aspirador de pó ao som de “eu quero ver tu me chamar de amendoim”. Os ensaios para a peça praticamente mudaram uma chave na cabeça dela.


Cacau garante que nada da novela influenciou a experiência no palco. Não só porque a proposta era fugir ao máximo do estereótipo mas sobretudo porque a dramaturgia versa sobre fatos reais e aí não há muito espaço para pura brincadeira. “Zezé é uma personagem e ali eu poderia criar qualquer coisa. Na peça é o depoimento de alguém e tenho que respeitar aquilo que é dito”, afirma. Para a atriz, ainda que seja uma comédia, as situações que rondam a vida das empregadas são tratadas de maneira correta. “Tem muito humor, muito mesmo. Mas é carinhoso, afetuoso”, ressalta Bianca.

 

“Independentemente da profissão, as pessoas são muito preconceituosas. Se você é doméstica, gari, pedreiro, não importa. Acho que 'Domésticas' ensina o respeito. Não existe profissão melhor. Escolhi ser atriz e não foi fácil chegar aqui”, continua Cacau.

 

'Domésticas' estreou em um momento em que a função de empregada se via em meio a um boom midiático, que inclusive se mantém. Além de uma novela inteira dedicada ao tema, 'Cheias de charme', as funcionárias da casa de Carminha e Tufão contribuíam para colocar a função nas rodas de conversa. A questão continua despertando discussões acaloradas, principalmente depois da mudança na lei que garante mais direitos aos trabalhadores domésticos.


Apesar disso, não é aquele tipo de peça em que cabem intervenções, improvisações, mudanças no texto, o que, aliás, costuma ser frequente nas comédias. Independentemente do que se passa no universo sobre o qual se debruça, 'Domésticas' é fiel à originalidade de sua proposta. O desejo é muito simples: sem caricaturas, falar sobre pessoas especiais, que, por incrível que pareça, ainda passam despercebidas pelas casas de muita gente.


Ricardo Cabaca/Divulgação
(foto: Ricardo Cabaca/Divulgação)
Comédia musical


No mesmo fim de semana em que comparece na agenda local como diretora, Bianca Byington estará em cena em 'A farsa da boa preguiça' (foto). Há quatro anos em cartaz, o espetáculo dirigido por João das Neves encerrará a trajetória sábado em Betim. Trata-se de comédia musical, baseada na obra de Ariano Suassuna. “Esse espetáculo foi um grande divisor de águas para mim. É o mais importante da minha carreira porque faço uma personagem muito forte, muito bem escrita, sofisticada em termos de dramaturgia e que fiz em um momento estratégico”, reconhece Bianca. Com Alexandre Dantas, Jackson Costa, Daniela Fontan, Leandro Castilho, Vilma Melo, Flavio Pardal e Francisco Salgado a peça faturou o Prêmio Shell de Melhor Figurino e também o Prêmio Contigo de Melhor Musical.

 

Apresentação nesta sexta-feira, às 20h30, no Teatro Municipal Manoel Franzen de Lima, Praça Bernardino de Lima, s/nº, Centro, em Nova Lima. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Informações: (31) 3541-5649. E amanhã, ás 20h30, na Casa de Cultura Josephina Bento, Rua Padre Osório Braga, 18, Centro, em Betim. Entrada franca. Informações: (31) 3532-2530.

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