Paulo Leminski volta às prateleiras com compilação de poemas quase-inéditos

Lançamento de seis livros do poeta paranaense resgata a elegância dos versos loucos e sóbrios de um escritor que renovou a poesia brasileira

por Nahima Maciel 25/02/2013 16:05

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Joao Urban/Paulo Leminski
'Toda poesia' é compilação de seis livros do escritor, entre 1976 e 1994 (foto: Joao Urban/Paulo Leminski)
Samurai malandro, caipira cabotino, Rimbaud curitibano, caboclo polaco-paranaense, concreto beatnik, Paulo Leminski inspirava tantos apelidos que até ele mesmo chegou a se autointitular com alcunhas tão engraçadas quanto contraditórias. Dependendo do interlocutor, ele se dizia um dadaísta clássico ou um punk parnasiano. Provinciano, isso Leminski tinha certeza de que era. Mas o melhor mesmo era sua capacidade de “samurai preciso”, definição da crítica Leyla Perrone-Moisés para a habilidade de ser elegante, sóbrio, limpo, sem graçolas, apesar dos jogos de palavras, e adepto do silêncio, da distância segura da verborragia desatada. Seja nos haicais, ou haikais, seja nos poemas mais longos. Para isso a publicação Toda poesia, publicado pela Companhia das Letras, é bastante útil.

O volume reúne os seis livros publicados entre 1976 e 1994, e uma compilação de poemas quase-inéditos, que ficaram de fora de edições oficiais depois de serem publicados em pequenos livrinhos independentes e de baixa tiragem. Entre as obras selecionadas pela editora, muita coisa fora de catálogo volta agora a circular, caso do raríssimo Quarenta clics em Curitiba, a estreia do poeta. Colocados lado a lado, os livros aparecem em uma sequência que permitirá ao leitor descobrir o “polilingue paroquiano cósmico” que Haroldo de Campos identificou no prefácio de Caprichos & relaxos.

 

 

Poemas do livro Toda Poesia, de Paulo Leminski:

A Lua no Cinema

A lua foi ao cinema,

passava um filme engraçado,

a história de uma estrela

que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas

uma estrela bem pequena,

dessas que, quando apagam,

ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,

ninguém olhava para ela,

e toda a luz que ela tinha

cabia numa janela.

A lua ficou tão triste

com aquela história de amor,

que até hoje a lua insiste:

Amanheça, por favor!

Datilografando Este Texto

ler se lê nos dedos

não nos olhos

que olhos são mais dados

a segredos

Mil e uma Noites até Babel

Torre

cujo tombo

virou lenda

até hoje,

a sombra,

como um membro, lembra

Como Pode?

Soa estranho, esta manhã,

tudo o que sempre foi meu, como pode?

Como pode que esse som lá for a,

os sons da vida, a voz de todo dia,

pareça ficção científica?

Como pode que esta palavra,

que já vi mil vezes e mil vezes disse,

não signifique mais nada,

a não ser que o dia, a noite, a madrugada,

a não ser que tudo não é nada disso?

Pode que eu já não seja mais o mesmo.

Pode qa luz, pode ser, pode céu e pode quanto.

Pode tudo o que puder poder.

Só não pode ser tanto.

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