Descoberta peça de teatro inédita escrita por Renato Russo

Correio Braziliense teve acesso exclusivo à obra 'A verdadeira desorganização do desespero', de 1982

por Diego Ponce de Leon 19/02/2013 17:07

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Arquivo CB / DA Press
"Era um artista completo, natural que tenha produzido esse material", disse o herdeiro de Renato (foto: Arquivo CB / DA Press)
“Qual o seu signo?” A pergunta era um cumprimento. Seja quem fosse. Renato não deixava de inquirir sobre os astros, os ascendentes e os descendentes daqueles que estavam ao seu redor. E não fugiu à regra quando conheceu o adolescente de 14 anos que aparecia na Colina (residência dos professores da UnB) pela primeira vez. “Capricórnio”, respondeu o garoto. Era o bastante para o ariano Renato ter certeza que o menino gostava de música e, sendo assim, recebê-lo no grupo.

Apesar da tenra idade, o jovem desfrutava de passe livre entre os círculos sociais que se formavam na púbere Brasília de 1979. “Fui apresentado ao pessoal da Colina por meio do namorado da Helena, irmã do Fê e Flávio Lemos (do Capital Inicial e ex-integrantes do Aborto Elétrico)”. A impressão inicial se perpetuou. O rapaz e Renato Manfredini Jr. (que ainda não era Russo) se tornaram melhores amigos. Da relação veio a intimidade, a confiança e a peça A verdadeira desorganização do desespero. Escrita em 1982, Renato presenteou o amigo com uma única cópia.


Três décadas depois, por meio de uma extensa e persistente apuração, a reportagem do Correio Braziliense teve acesso ao material — inédito para o grande público — ao encontrar o parceiro de outrora de um dos principais ícones da música brasileira. A aparição da peça amplia os ofícios do poeta, cantor e compositor, que morreu desejando ser cineasta e que, por um instante, foi dramaturgo e quase ninguém soube.

A incursão não surpreendeu nem a irmã, Carmem Manfredini, nem o filho, Giuliano. “Era um artista completo, natural que tenha produzido esse material”, disse o herdeiro de Renato. Carmem, que recebeu uma cópia das mãos do antigo afeiçoado de Renato, conhece o teor desde os primórdios: “(Ele) Escreveu ainda no apartamento em Brasília. Eu não entendia nada de teatro e achei uma loucura”, brincou. Mas a irmã faz uma ressalva: “Quem quiser montar, deve antes procurar a família”, advertiu.

A dois

“Não éramos namorados. Mas, tiramos proveito da sexualidade compartilhada”, revelou o antigo amigo. A orientação atípica, pelo menos aos olhos da sociedade censurada e patriarcal da década de 1980, foi principal motivo da aproximação entre eles. “Renato não tinha com quem conversar. Não podia elogiar os meninos, nem expressar os desejos. Quando nos conhecemos, foi muito gratificante para ambos”. O Trovador Solitário (alcunha que Renato adquiriu na fase transitória entre o Aborto Elétrico e a Legião) não estava tão sozinho como o epíteto sugere. “Acampamos várias vezes. Aprontamos muito juntos”, garante.

Nem só de prazeres mundanos e descobertas da carne vivia a dupla de amigos. “Discutíamos MPB (Chico Buarque e Milton Nascimento, principalmente), já que não era cool ele falar sobre o gênero com a galera do rock. Também foi Renato quem me apresentou Fernando Pessoa”. E o parceiro de agito soube retribuir. Não imaginava a grandiosidade do gesto quando apresentou Marcelo Bonfá ao Aborto Elétrico e, de alguma maneira, contribui para formação da Legião Urbana como a conhecemos.

Lembranças

A intensidade da relação entre eles esbarrou em percalços quando a Legião ganhou o país e Renato foi morar no Rio de Janeiro. “Fui ao primeiro show deles no Circo Voador. Vendi sanduíche natural em entrada de vestibular em Brasília para conseguir chegar lá”, contou. Apesar da distância, o elo entre eles já era bastante sólido: “Em alguns momentos decisivos, ele se perguntava qual seria minha opinião antes de dar o próximo passo”, como, por exemplo, antes de gravar 'Geração Coca-Cola' (inicialmente uma música country). Cumplicidade construída a partir de inúmeras lembranças, ainda na capital.

“Teve um dia que saí às pressas do apartamento do Renato e ele veio pelo corredor com a letra de 'Soldados' na mão, dizendo que tinha escrito para mim. Pedindo para eu ficar”. O amigo nem lembra o motivo da correria, mas o apelo não funcionou. “Fui embora do mesmo jeito. Até porque eu e ele sabíamos que não era verdade. Foi apenas uma tentativa de sedução”, comentou, com um inegável sorriso.

Talvez 'Soldados' não se refira ao amigo (talvez sim), mas um dos versos de 'Quase sem querer' (“Me disseram que você / Estava chorando”) parece não deixar dúvidas: “Foi quando ele me ligou perguntando pelo Beto (Roberto Zanettini) que eu vi andando e chorando pela rua”. Tanto Renato quanto o amigo achavam Beto detentor de uma beleza ímpar.

“Era uma alma libertária. Renato foi preso uma vez, flagrado cheirando loló e passou a noite na delegacia do Lago Sul, cantando blues”, diverte-se o companheiro. “Ele podia tudo. Por isso escreveu a peça. Por pura pretensão. Para mostrar que era capaz. ‘Duvida? Escrevo’. E fez. Só na intimidade não conseguiu ser pleno. E, talvez, tenha morrido por isso”. Quando soube da notícia, o amigo de outrora já vivia no exterior. Desligou o telefone e chorou. O trovador estava, enfim, solitário.

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