O olhar crítico de Márcio Sampaio sobre a arte, a vanguarda e o mercado

por Carlos Herculano Lopes 17/02/2013 09:20

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Todos os sábados pela manhã, de preferência com o dia bem bonito, o poeta e artista plástico Márcio Sampaio deixa a sua casa, no Santo Antônio, e, cheio de disposição, caminha até a Quixote Livraria, na Savassi, onde tem encontro marcado com os amigos. Por ali, tomando um cafezinho ou uma cerveja gelada, provavelmente já estarão o cantor e compositor Tavinho Moura com sua mulher, Cica, as artistas plásticas Ana Amélia Camargo, Liliane Dardot e Marina Nazareth, os poetas João Paulo Gonçalves, Régis Gonçalves e Marcos Pedroso, entre outros, com os quais Sampaio, até o início da tarde, passará horas agradáveis.

Esse ritual ele já acontece há alguns anos e, de volta para casa, depois de almoçar, tomar um cafezinho e fazer uma pequena siesta para recuperar as energias, Márcio Sampaio retoma projetos que está desenvolvendo e sobre os quais, com disciplina, se debruçará o resto da semana. Dois deles, que lhe são particularmente caros, já estão quase finalizados: os livros Nelo Nuno: a poética do cotidiano e Eliana Rangel: construções afetivas. A previsão de lançamento é para o mês que vem e os livros serão publicados com recursos das leis de incentivo.

Artistas plásticos já falecidos, Nelo Nuno e Eliana Rangel, que nasceram em Viçosa, na Zona da Mata Mineira, eram cunhado e mulher de Márcio Sampaio. “Ao escrever esses livros quis, além de homenageá-los, fazer um resgate afetivo de dois artistas da maior importância para as artes plásticas brasileiras, e também para que as pessoas possam conhecer um pouco mais da obra de cada um. Fui casado com Eliana durante 36 anos e tivemos dois filhos, Alberto e Gustavo. Já o Nelo morreu muito novo, com apenas 34 anos, de botulismo, depois de ter comido um patê estragado em Lagoa Santa”, conta Márcio. Nessa linha de ensaios críticos e biografias, na qual se especializou, ele já escreveu sobre outros artistas plásticos, como Mário Bhering, Jorge dos Anjos e Álvaro Apocalipse, criador do Grupo Giramundo.

Mas a história desse homem de estatura mediana, fala mansa e muito gentil, começou em 1941, quando nasceu em Santa Maria do Itabira, no Vale do Rio Doce. Como todos os meninos da sua geração, cresceu jogando bola e brincando de empinar pipa nas ruas sem calçamento da pequena cidade, até chegar a hora de sair para continuar os estudos, como milhares de outros garotos. Estava com 12 anos, já mostrava inclinação para o desenho e foi viver na casa da avó, na vizinha Itabira.

Terra de forte tradição artística, ali pôde dar asas à vocação. Na Escola Normal Oficial, teve as primeiras aulas de pinturas com a professora Emília de Cause, filha de um francês que morava na cidade. “Quando ela viu que eu gostava de desenhar, me incentivou, me levava para a casa dela depois das aulas. Foi com ela que conheci as primeiras técnicas de pintura e história da arte, por meio de uma coleção de livros sobre os museus da Europa, que a família possuía. Eu os folheava encantado, eles abriram um novo universo para mim ”, lembra Márcio. Nessa época, trabalhou ainda na oficina de placas de um primo, Cássio Sampaio, que lhe deu de presente um estojo de tintas e pincéis. Foi quando começou a pintar, por encomenda, cortinas de sacrário para as igrejas da região e também a ganhar um pouco de dinheiro.

Com essa pequena bagagem, mas sobretudo com vontade de vencer e ampliar os seus horizontes, Márcio Sampaio desembarcou em Belo Horizonte em 1958 e foi morar na casa de uma irmã, no Bairro Santo Antônio. Como a professora Emília de Cause e o primo Cássio Sampaio, em Itabira, também aqui, na capital, teve um incentivador, do qual se recorda com muito carinho: o cunhado Hilário Figueiredo, que já conhecia a vocação do rapaz para as artes plásticas. “Ele me dava tintas, cavaletes e telas. Íamos a óperas e exposições. Belo Horizonte, para mim, foi um deslumbramento, e a primeira mostra que vi aqui foi uma individual de Sara Ávila, no Automóvel Clube”, recorda-se.

Em busca da poesia

Se a tendência para as artes plásticas já era visível desde a adolescência, a literatura também, aos poucos, foi se tornando importante para Márcio Sampaio. Na Livraria Itatiaia, que funcionava na Rua da Bahia, dirigida por Edson Moreira, ele conheceu não só gente da pintura – o futuro cunhado Nelo Nuno, Chanina, Ildeu Moreira e Herculano Campos –, como também os poetas Affonso Ávila e sua mulher, Laís Corrêa de Araújo, dos quais se tornou amigo. Aires da Mata Machado e Eduardo Frieiro também costumavam passar por lá. Daí, para se entrosar com a turma do Suplemento Literário do Minas Gerais, que havia sido criado por Murilo Rubião em 1966 e funcionava numa salinha da Imprensa Oficial, foi um pulo. “A vontade de escrever também era muito latente em mim, desde Itabira”, confessa.

No Suplemento, no qual trabalhou durante dois anos, Márcio conheceu os escritores Rui Mourão, Adão Ventura, Libério Neves, Bueno de Rivera, Emílio Moura e tantos outros. “Ali fazia de tudo, desde revisão de textos sobre artes plásticas e literatura até ajudar Murilo Rubião a fazer o pagamento dos colaboradores. O Suplemento, antes de tudo, foi um estado de espírito, principalmente naquele conturbado período da vida política brasileira. Era o ponto de convergência de jovens escritores em início de carreira, como eu. Se os textos tivessem qualidade, Murilo dava oportunidade para todos”, diz.

Jornalista bissexto, com passagens também pelas redações do Diário de Minas e do Estado de Minas, no final dos anos 1960, além de ter colaborado no Jornal do Brasil e na revista Manchete, Márcio Sampaio conta ainda que sempre conviveu bem com as artes plásticas e a literatura. “Uma nunca chegou a atrapalhar a outra, pelo contrário, pelo menos no meu caso, sempre se complementaram”, diz. Sua primeira exposição individual, que abriria as portas para centenas de outras país afora, ocorreu em 1962, em Itabira, ocasião em que também foi selecionado para o 17º Salão Municipal da PBH. O mesmo se deu com os livros: como a pintura, também eles lhe trouxeram prêmios e reconhecimento.

Aposentado desde 1999 como professor da Escola de Belas-Artes da UFMG, entre os próximos projetos de Márcio Sampaio, que no decorrer da sua carreira ocupou vários postos, como coordenador de artes plásticas do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, e diretor da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, em Itabira, estão – além do lançamento dos livros sobre Nelo Nuno e Eliana – a publicação de um romance experimental, que escreveu 1968, e a reedição de algumas obras suas . “Tudo isso, obviamente, sem abrir mão dos encontros com os amigos, aos sábados, lá na Quixote”, completa.

OBRAS PUBLICADAS

Poesia
» Rubro apocalíptico, 1964
» O ciclo do barro, 1965
» O tempo de Minas, 1977
» Risco de vida (Submissão de Narciso), 2000

Teatro
» Máquina de germinar gardênia, 1964

Literatura infantojuvenil
» Esplendor e sombras, 1999
» Dr. Clorofila contra Rei Poluidor, 2008

PRINCIPAIS EXPOSIÇÕES

1962 – Primeira exposição individual em Itabira, com desenhos e pinturas

1967 – Participa da IX Bienal de São Paulo, com desenhos de conteúdo crítico
1976 – Realiza individual de séries como Galeria antropofágica e Caminhos de Minas
1979 – Apresenta Expoética (Poesia de Vanguarda no Brasil), no Palácio das Artes
1997 – Inaugura exposição Pintura & Pintura, com obras suas e da esposa, Eliana Rangel
2005 – Abre a retrospectiva Márcio Sampaio – Declaração de bens, no Palácio das Artes

“Márcio Sampaio
é um pensador.
Um poeta
Um pintor.

Antes planeja.
Desenha
o lugar firme para trocar o passo
depois vem a emoção.

Assim constrói o seu universo
com inteligência e seriedade. Vagarosamente.
Mas com sensibilidade. Indiscutível.”

Amilcar de Castro, catálogo de exposição de pinturas, Galeria Ipanema,
Rio de Janeiro, 1980.

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