Galeristas Flávia e Lúcio Alburquerque são referência no circuito nacional de artes

Dupla expõe em Belo Horizonte trabalhos dos principais artistas brasileiros

por Walter Sebastião 20/01/2013 09:34

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Leandro Couri/EM/DA Press
Flávia e Lúcio Albuquerque se orgulham de viver exclusivamente do trabalho que fazem na Celma Albuquerque Galeria de Arte (foto: Leandro Couri/EM/DA Press)


Uma galeria de arte mineira está completando 25 anos de existência: a Celma Albuquerque Galeria de Arte. O local já abrigou mostras de alguns dos mais importantes artistas contemporâneos brasileiros – Waltércio Caldas, Eduardo Sued, Nelson Leirner, Carmela Gross, Nuno Ramos, Éder Santos e José Bento, para ficar nos nomes mais conhecidos. Acrescente-se acervo próprio de mais de 1 mil obras, que se expande para diversas estéticas com obras e autores significativos. Rumorosas participações, nos últimos anos, em feiras de arte brasileiras, mostrando apenas um artista (e obra importante dele), em contexto em que a norma são coletivas ecléticas, consolidaram ainda mais o prestígio da casa. A Celma Albuquerque é, hoje, reconhecidamente, uma das mais importantes e respeitadas galerias do Brasil.

A história da galeria começou em 1988, quando foi aberta a Cromos, por Celma Albuquerque, em conjunto de duas lojas, na Rua Pernambuco, dando forma à antiga e cultivada paixão dela pelas artes visuais. Em 1998, a galeria mudou-se para amplo espaço na Rua Antônio de Albuquerque e ganhou o nome da criadora. Desde 2005 à frente da empreitada, estão Flávia e Lúcio Albuquerque, filhos de Celma, os auxiliares mais diretos da mãe desde que a galeria foi criada. Eles contam que se tornar donos foi natural, já que, desde adolescentes, estão às voltas com atividades do espaço. Mas recordam que, ao assumirem o local ainda muito novos, enfrentaram olhar desconfiado do mercado de arte. E tiveram de provar que eram sérios, mesmo sendo jovens.

Apoio geral

A primeira atitude, ao receber grande acervo (e também grandes despesas), recorda a dupla, foi conversar com os artistas com quem a mãe trabalhava. Receberam o apoio de todos. Em especial de Antônio Dias, reconhecido pintor, que topou fazer exposição no local sem exigências ou contrapartidas. “Ele mostrou que tinha confiança em nós. Sentimos que dava para continuar o trabalho”, recorda Flávia. Desafio foi desenvolver atividade de venda de arte sem contar com os clientes da mãe. “Tivemos que criar outro público. Fomos, então, atrás de clientes da nossa idade, inclusive porque estávamos apresentando outra proposta”, conta Lúcio. Conjuntura que os levou a aprofundar diálogo com a arte contemporânea. O olhar arrojado, avisa a dupla, é herança recebida de Celma.

A galeria, explica Lúcio, trabalha com três eixos. Um deles é a atenção a autores dos anos 1960 e 1970, com obras de valor para a história da arte brasileira e também de mercado. “Se uma galeria tem artistas com esse perfil, tem também de prestar atenção ao que estão fazendo os jovens”, defende, apontando o segundo segmento. O terceiro são os criadores dos anos 1980, com exposições importantes, obras em processo de formação de preço, e que estão começando carreira internacional. “É a nossa geração”, ele observa, contando que é a turma de quem mais vende, e para público que tem a mesma idade dos artistas. Lúcio vai longe na defesa da arte de seus contemporâneos: “Daqui a 15 anos, vão ter preços próximos aos que têm hoje os nomes históricos”, garante, explicando que são criadores que ainda não atingiram o potencial máximo de mercado.

A ênfase no contemporâneo, quando tal estética “não era assunto do dia”, veio acompanhando transformações da arte e frequentando ateliês. O que levou, conta Flávia, a conhecimento e envolvimento, cada vez maior, com os projetos dos artistas. E a produções complexas, como recente mostra de Nuno Ramos, que fez revolução no local. “Gosto do modo como Nuno lida com o caos, as referências à poesia, literatura, música. Enriquece o trabalho”, observa. “Obra arrojada não é projeto só para instituição, pode ser realizada por galeria”, acrescenta Lúcio. “Víamos obras assim em galerias dos Estados Unidos, da Alemanha, da Inglaterra e pensamos: por que não fazê-las no Brasil?”, explica o admirador do trabalho de Waltércio Caldas. “É obra pensada, planejada, nada afoita, com excelência no fazer e muito original”, elogia.

Perfil

Lúcio Albuquerque é formado em economia e Flávia tem curso de comunicação visual. “Lúcio é mais voltado para o mercado, eu para o trabalho artístico. Então, nos complementamos”, conta Flávia. Exigência com relação aos artistas é de que sejam profissionais, maduros, “que valham o investimento de tempo neles”. A dupla teve, entre 2007 e 2011, uma galeria em Lisboa (Portugal), que foi fechada devido à crise europeia “e ao aquecimento do mercado brasileiro”. A programação deste ano da galeria será aberta com exposição da paulista Leda Catunda. E prevê, ainda, exposição de desenhos de Antônio Dias e de fotos do mineiro Pedro Motta.

Leandro Couri/EM/DA Press
(foto: Leandro Couri/EM/DA Press)


O mercado hoje
Lúcio Albuquerque

“Pesquisa feita pela Associação Brasileira de Galerias de Arte Contemporânea, em 2011, aponta que São Paulo tem 67% do mercado; o Rio 17%; e Belo Horizonte 6%. As próximas cidades a se expandir serão Salvador e Porto Alegre. O que mostra que temos mercado significativo, só que precisa chegar a mais cidades. Mas quem pode fazer isso são as instituições. São espaços que ajudam a aproximar o público da arte. Estar em um bom museu mostra a qualidade do artista, frisa os méritos e não soa apenas como discursos de galerista. Exemplo pode ser o Inhotim. A abertura do centro de arte influenciou as galerias e o público. Acho, ainda, que as feiras de arte têm se mostrado forma importante de a arte alcançar novos públicos.”

Leandro Couri/EM/DA Press
(foto: Leandro Couri/EM/DA Press)




Momento aquecido
Flávia Albuquerque


“O mercado, tanto de artistas quanto de galerias, profissionalizou-se. Vivemos momento aquecido. As galerias internacionais estão chegando em busca do mercado e acredito que vão acabar levando nossos artistas para outros contextos. Acho positivo. Temos ótimos artistas, com o mesmo percurso de criadores europeus ou norte-americanos, mas cujas obras não alcançam os preços dos estrangeiros. A experiência em Lisboa, e trabalhando na Espanha, me mostrou que não há restrição ao artista brasileiro. O que encontramos foi público para o qual podíamos apresentar autores que eles não conheciam, já que o interesse é por arte de qualidade e não por grifes. Tudo isso mostra que temos espaço para crescer no Brasil e no exterior.”

Palavra de mãe
Celma Albuquerque

“Fico orgulhosa com o trabalho de Flávia e do Lúcio à frente da galeria. A gente prepara os filhos para ser nossa extensão. Eles estão fazendo trabalho arrojado. Mais realização de um sonho do que financeiro. Se estivesse à frente da galeria, não teria peito para destruí-la para fazer a instalação do Nuno Ramos. Mas quando você vê o trabalho pronto, vê que é exposição de arrepiar. Ouvi, em São Paulo, que foi a mais importante da América Latina. Quando criei a Cromos, em 1988, o projeto era fazer espaço voltado para a arte contemporânea. Vinte e cinco anos tocando galeria de arte não é brincadeira, é trabalho árduo. Mas nunca desisti. É sonho de filha de fazendeiro, que via arte em tudo, na árvore torta, na porteira da fazenda, que sentia que tinha um olhar diferente. Depois, estudei, viajei em alguns momentos três, quatro vezes por ano, para ver galerias e museus. Não foi só sorte, mas trabalho, suor, correção, honestidade com os artistas e clientes, o que vejo também nos meus filhos”.

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