Zacarias, o trapalhão mineiro, é lembrado em Sete Lagoas e pode ganhar memorial

Artista nascido em Sete Lagoas completaria 79 anos nesta sexta-feira, 18. Família quer tirar do papel projeto de memorial dedicado ao artista, que foi também ator dramático

por Ana Clara Brant 18/01/2013 08:56

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Beto Novaes/EM/D.A Press/Reprodução do Memorial Zacarias
O trapalhão mais ingênuo é lembrado com carinho em Sete Lagoas (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press/Reprodução do Memorial Zacarias)
Janeiro de 1990. A aposentada Wilma Faccio Gonçalves Guiscem estava em casa, em Sete Lagoas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, quando recebeu o telefonema do irmão Mauro, que morava no Rio: “Minha irmã, vamos passar nosso aniversário juntos, já que o meu é dia 18 e o seu 19. Pode comprar o bolo que eu pago”, brincou.

 

A festa reuniu todo o clã Faccio Gonçalves, incluindo os 11 irmãos e a matriarca, dona Virgínia. “Foi um encontro bem animado e a última vez que o vi com vida”, lembra Wilma, hoje com 75 anos.

Mauro Faccio Gonçalves era o mais velho dos irmãos e se estivesse vivo estaria completando 79 anos nesta sexta-feira, 18. Para quem não conseguiu identificar pelo nome, o primogênito dos Gonçalves ficou conhecido como o eterno trapalhão Zacarias, ou Zacaria, como gostava de ser chamado.

 

Já pensando nas comemorações dos 80 anos do ator, locutor e humorista mineiro, no ano que vem, a família, os amigos e a Prefeitura de Sete Lagoas, onde ele nasceu, começam a se mobilizar para não deixar a data passar em branco.

“Desde que ele morreu, há 23 anos, prometem várias coisas, como museu e comenda Zacarias. Mas as coisas nunca saíram do papel. Tem muito pouca coisa na cidade. A gente ainda espera algum reconhecimento, porque ele merece”, defende outra irmã, Marly Faccio Gonçalves Diniz, de 68 anos.

Beto Novaes/EM/D.A Press
Em memorial improvisado no anfiteatro que leva o nome do ator, fãs e cidadãos setelagoanos podem conferir de perto parte do material relacionado à carreira de Zacarias (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
A nova administração do município, que assumiu há 20 dias, revela que uma das propostas para a área cultural é o tão sonhado Memorial Zacarias. O secretário de Cultura de Sete Lagoas, Márcio Vicente, conta que apesar de ainda não ter definido nada com os familiares, a intenção é concluir o projeto. “O Zacarias é o embaixador da cidade até hoje. Temos o desejo de fazer um memorial à altura dele e da cultura brasileira. É um compromisso não só da prefeitura, mas de toda a sociedade sete-lagoana. Acho que devemos isso a ele”, defende.

Márcio diz que há alguns anos chegou-se a esboçar uma planta para a iniciativa, mas que não foi para a frente e que entre as propostas em estudo estão a criação de um festival de cinema ou teatro homenageando Mauro e a confecção de uma nova placa para ser instalada no anfiteatro (a placa original foi roubada) que leva o nome do artista. O espaço foi inaugurado em 1988, com a presença de Zacarias, e fica localizado no Centro Cultural Nhô-Quim Drumond, conhecido como Casarão.

É lá também que funciona o memorial improvisado de Zacarias. Numa pequena sala está uma parte do acervo do artista, doada pela família e pela TV Globo, com roupas de uso particular e cênico, retratos, reportagens, discos, as certidões de nascimento e de óbito e até as famosas perucas do personagem. “Ainda temos mais coisas guardadas, mas não cabem aqui. Essa sala não é o espaço ideal, mas é para que a imagem dele não seja esquecida. As pessoas ainda têm um grande carinho pelo Mauro. Os pais costumam trazer seus filhos para que lembrem um pouco do ídolo da infância. Apesar de ele não ser a celebridade de Sete Lagoas mais em evidência no momento, como a Paula Fernandes ou o Franck Caldeira, o Zacarias é inesquecível”, afirma o diretor do Casarão, Leandro Lupiano.

O homem por trás do sorriso
Beto Novaes/EM/D.A Press/Reprodução do Memorial Zacarias
O artista, ainda na década de 50, em foto de acervo do memorial montado pela família na cidade natal (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press/Reprodução do Memorial Zacarias)
Mauro Faccio Gonçalves, o Zacarias, nasceu em Sete Lagoas em 18 de janeiro de 1934 e foi ator, comediante, humorista e locutor de rádio. Chegou a trabalhar como vendedor de sapatos e numa fábrica de café. Começou a carreira no rádio em 1954, na Rádio Cultura de Sete Lagoas, no humorístico Em Babozal é assim. Em 1957, mudou-se para Belo Horizonte para estudar arquitetura, mas não concluiu o curso. Foi trabalhar na Rádio Inconfidência e TV Itacolomi, quando foi descoberto pelo diretor Wilton Franco, do Rio, que o convidou para ir para a TV Excelsior em 1963.

 

Apesar da timidez – que inicialmente o impedia de trabalhar na televisão –, Mauro estreou em programa de calouros, em que criou cinco personagens, incluindo o garçom Moranguinho. Também fez parte do elenco de A Praça da Alegria, com o personagem Caticó, e em 1974 foi chamado para integrar Os Trapalhões, a convite de Renato Aragão.

 

Mauro morreu em 18 de março de 1990, aos 56 anos, de insuficiência respiratória em consequência de infecção pulmonar. Foi casado com a atriz Selma Lopes e deixou uma filha (que na verdade era filha de Selma e foi registrada por ele) e três netos.

 

Com pinta de galã

Realmente muita gente não se esquece do trapalhão, cantado até em Jeito de corpo, de Caetano Veloso: “Sou Zacarias carinho, pássaro no ninho”. A prima e amiga Mariza da Conceição Pereira, de 72 anos, é uma dos que mais lutam pela preservação da memória de Zaca. Ela guarda gratas recordações de Bidu, como era conhecido entre os parentes e amigos mais próximos. Chegou a contracenar com ele em vários espetáculos e ressalta a generosidade de Mauro. “Mesmo criança, quando ele fazia seus teatrinhos, ele cobrava ingresso, mas só para poder doar aos pobres. E mesmo famoso continuou com essa prática”, recorda.

Beto Novaes/EM/D.A Press
A prima Mariza da Conceição, as irmãs do artista, Marly e Wilma, e a amiga e "ex-namorada" de Zaca, Mara de Souza Lopes (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
Outra que o conheceu nos palcos e na intimidade é a comerciante e atriz aposentada Mara de Souza Lopes, de 83 anos. A simpática senhora é apontada pelas irmãs e pela prima como um dos namoricos do comediante. Ela não nega nem confirma. “A gente era muito novo e ele queria ir para o Rio de Janeiro e eu queria continuar minha vida em Sete Lagoas. Mas ele sempre foi atencioso. Numa das últimas vezes em   que estive com ele, eu e meus filhos o convidamos para tomar café conosco em Sete Lagoas. Ele foi e relembramos um monte de histórias. O Mauro era uma pessoa de um espírito muito profundo”, filosofa.

Mara não esquece a primeira vez que o viu em cena. Ela e os demais integrantes do grupo de teatro amador se impressionaram tanto com a performance de Mauro Gonçalves que o convidaram para atuar com eles. “Ele foi muito bonito na juventude, era galã e tinha uma veia dramática fantástica. Muita gente está acostumada a vê-lo na comédia e não imagina seu talento para o drama. É uma pena que ele não teve mais oportunidade para mostrar esse lado. Sem falar que fazia cenários, maquiava. Era polivalente e sempre nos surpreendia”, salienta.

Quem via Zacarias em cena com seu jeito de palhaço não tem ideia de como era Mauro na intimidade. Tímido, reservado e sério, costumava brincar só com os conhecidos e a família. “Ele se transformava completamente no palco. O interessante é que desde menino já gostava dessa coisa de artista. Lá em casa, pegava as roupas da minha mãe e ficava imitando, interpretando. E olhe que na nossa família não tinha ninguém que mexia com isso. Era talento mesmo. Ele nasceu com esse dom”, acredita a irmã Marly, que guarda uma pasta com reportagens e recortes sobre irmão, feita pela mãe, dona Virgínia, que morreu 10 anos depois do filho mais velho.

Assista a vídeos do Trapalhão Zacarias:





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