Poeta Lêdo Ivo morre na Espanha e deixa como legado o apreço pelo apuro formal

Academia Brasileira de Letras decretou luto pelo dono de sua cadeira nº 10

24/12/2012 13:33

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TV Cultura / Divulgação
(foto: TV Cultura / Divulgação)
O escritor alagoano Lêdo Ivo, de 88 anos, morreu ontem de madrugada, na Espanha. O poeta estava em Sevilha a passeio com a família e passou mal depois do jantar. Faleceu nos braços do filho, o pintor Gonçalo Ivo. Domício Proença, primeiro-secretário da Academia Brasileira de Letras (ABL), informou que o colega sofreu um infarto. Segundo ele, o corpo será cremado na Europa e as cinzas trazidas para o Brasil. Ivo ocupava a cadeira nº 10 da instituição. A presidente da ABL, Ana Maria Machado, informou que Ivo – sempre com discrição – lutou, por muitos anos, contra um câncer de próstata. “Ele costumava dizer que a poesia é uma forma de ocultar a vida pessoal em palavras”, relembrou a escritora. A ABL decretou luto de três dias. “Ele era um colega muito assíduo, grande contador de casos. Tinha uma vitalidade espantosa, falava alto, gostava de comer bem”, afirmou Ana Maria Machado. Jornalista, Lêdo Ivo se formou em direito mas não exerceu a profissão. A partir da década de 1940, colaborou com suplementos culturais de periódicos cariocas. Em 1944, lançou seu livro de estreia, o volume de poemas As imaginações. No ano seguinte, publicou Ode e elegia, que ganhou o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras. O alagoano também escreveu romances, contos, crônicas e ensaios. Alguns de seus textos foram traduzidos para o inglês, o espanhol e o dinamarquês. Ganhou prêmios importantes, como os brasileiros Jabuti e Juca Pato, o cubano Casa de Las Americas e os espanhóis PEN Clube da Galícia e Leteo – esse último conferido a autores de destaque como Paul Auster, Martin Amis e Fernando Arrabal. OBRAS As alianças – romance As imaginações – poemas A história da tartaruga – infantil A cidade e os dias – crônicas Confissões de um poeta – memórias Curral de peixe – poesia Finisterra – poesia Ninho de cobras – romance O aluno relapso – memórias Ode e elegia – poesia Poeta indignado

Lêdo Ivo é nome de ponta da Geração de 45, formada por autores que reagiram à estética propagada pelo modernismo de 1922 e defenderam maior rigor na elaboração poética. Vinte e três anos depois da Semana de Arte Moderna, o alagoano e seus companheiros – entre eles João Cabral de Melo Neto – ficaram conhecidos como a terceira geração de modernistas.

De acordo com o crítico Afrânio Coutinho, por meio desse grupo “a poesia aprofunda a apuração formal, regressando a certas disciplinas quebradas pela revolta de 22, restaurando a dignidade e severidade dos temas, policiando a emoção por um esforço de objetivismo e intelectualismo, restabelecendo gêneros como o soneto e a ode”.

O alagoano se autoproclamava “poeta indignado”. E advertiu, em entrevista à imprensa espanhola: “Há excesso de atenção ao eu próprio. Parece que a indignação acabou, que os problemas sociais e de coletividade não são mais dos criadores. Hoje em dia, os poetas acabam prestando mais atenção aos assuntos amorosos e sentimentais do seu próprio eu”.

Preocupado com os destinos de seu país, Ivo ponderou que, apesar de profundas mudanças observadas recentemente, ainda há grande desigualdade no Brasil. “Nosso futuro depende de melhor educação e de melhor formação. Esse é nosso grande desafio”, avisou. Minúsculo Lêdo Ivo morreu reivindicando uma poesia “mais humana”, que reafirme o indivíduo no mundo globalizado. Revelou que se sentia melhor poeta na velhice: “Agora posso refletir mais, tenho mais sentimento de conciliação metafísica e vejo mais o minúsculo, o cotidiano. Além disso, estou mais marcado pelas emoções”.



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