Envoltas em mistério, personagens de presépio criado por Aleijadinho encantam pelo sabor popular

Quatro obras-primas do escultor mineiro estão expostas no Museu da Inconfidência

por Walter Sebastião 18/12/2012 09:30

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 Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
Tradicional personagem de presépios, o pastor remete à vida rural (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
O pastor, o aristocrata, o pescador e o pajem real. Esses são os personagens de um presépio, obras-primas de Aleijadinho expostas no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Encontrado num dos armários da Igreja de São Francisco, o quarteto permanece envolto em mistério. Não se sabe, por exemplo, se o escultor fez o conjunto completo ou se as demais peças se perderam. Myriam Ribeiro, especialista na obra de Aleijadinho, explica que as esculturas foram criadas provavelmente entre 1755 e 1790, pouco antes de o artista mergulhar no projeto da via-sacra de Congonhas. “Mais informações sobre a obra, inclusive como seria o Menino Jesus, só se pode imaginar, especular”, provoca a pesquisadora. Para “ajudar a imaginação”, Myriam recomenda observar como funciona o conjunto e visitar outros presépios do século 18 expostos no Museu da Inconfidência. Os trabalhos retratam o momento realista do escultor. “A imagem que chamamos de pescador é tão elaborada, tão envolvente que parece estar conversando com a gente”, observa Myriam Ribeiro, admirada. “O pastor ajoelhado é uma joia”, reforça ela, lembrando que ele foi criado para ser visto de perfil. Negro O pajem é uma raridade. De acordo com a pesquisadora, Aleijadinho praticamente não esculpia negros. Um deles está no presépio do Museu da Inconfidência; o outro é São Jeremias no cárcere, que se encontra no altar lateral da Igreja do Carmo, também em Ouro Preto. Recentemente, a pesquisadora descobriu de onde vem o gesto enigmático do pajem: provavelmente, ele segurava a corda do camelo do rei mago. Pode ter sido inspirado em alguém que Aleijadinho conhecia em Ouro Preto. O aristocrata, por sua vez, faz imaginar um presépio que integra todas as classes sociais. “Ninguém tem cara de rei. Todos são figuras populares”, observa Myriam Ribeiro. O conjunto mineiro traz cenas rurais e urbanas não citadas no texto bíblico, fruto da influência do presépio napolitano. Os personagens vestem roupas da época de Aleijadinho – e não túnicas usadas na época do nascimento de Jesus Cristo. O modelo napolitano, explica a especialista, se afirmou por volta do século 16 e demarcou a criação do presépio moderno. Para Myriam, o conjunto original de Aleijadinho possivelmente reunia a família sagrada, com direito a boizinho, burrico e a dois ou três pastores. O tamanho das peças – em grandes formatos – indica que, provavelmente, o presépio foi criado para uma igreja. A pesquisadora avisa: “É tudo mistério”. Não há resposta para várias questões. Por que o artista iniciou o presépio pelas figuras secundárias? Ele realmente fez os outros personagens? Trata-se de obra inacabada? “Minha impressão é de que se trata de um projeto interrompido”, diz a pesquisadora, presumindo que Aleijadinho teve dificuldade de encontrar oficiais que o ajudassem. Afinal, o artista era muito requisitado, com obras em diversas cidades. Não foi supresa encontrar a obra-prima de Aleijadinho numa igreja franciscana, pois deve-se a São Francisco a criação do presépio. Esses conjuntos eram comuns em templos e residências, inclusive mais modestas. “Toda a vida litúrgica do período colonial girava em torno de duas datas: o nascimento de Jesus e a Páscoa”, lembra Myriam Ribeiro. Atribui-se o fato de poucos presépios dos anos 1700 terem sobrevivido à deterioração causada pelo manuseio das peças. Celebração oitocentista Publicado em 24 de dezembro de 1880 no jornal Arauto de Minas, de São João del-Rei, o texto de Severiano de Rezende revela como era a celebração natalina. Mães, filhas e escravas preparavam a comida com antecedência. Vestido novo enfeitado com fitas era o figurino das moças para ir à Missa do Galo, “mas também para agradar ao bigodão que não sai da porta do Rosário”, anota o repórter. E acrescenta: o “sexo feio” saía às pressas em busca de terno, gravata e chapéus elegantes. “Outros, mais exigentes, mandavam vir da corte fatiota de apurado gosto.” Véspera de Natal era dia de rua cheia de pescadores e quitandeiras. A bom preço, podiam-se conseguir pratos de doces enfeitados com pombinhos, cobras e tatus, vindos em cestas com belas toalhas. “À noite, na casa de gente remediada ou de haveres, reunia-se a seleta sociedade, tocava-se piano, cantava-se uma modinha brasileira, um romance francês, trecho do trovador, da Traviata, formavam-se pares, dançava-se”. As classes “menos favorecidas pela fortuna”, informa Rezende, divertiam-se com música “da faceira viola, em harmonia com afinada rebeca, a pandeiros misturando-se às vozes dos cantores e ao arruído de forte sapateado dos mestres batuqueiros”. A cidade ficava iluminada: “As casinhas semeadas pela serra têm aspecto encantador”. Às 23h, registra o repórter, “retinem os campanários” com alegres repiques, chamando os fiéis para a Missa do Galo. “Todos vão ver o presépio e beijar os pés do Menino Jesus”. No dia 25, a festa continua no almoço de Natal. “Vê-se à mesa gordo capão, o peru de papo recheado e o leitão enfeitadinho com rodelas de limão, guarnecidos com franjas de papel de cor. (…) Quem não pode oferecer uma bandeja dos mais esquisitos manjares e dos mais delicados confeitos arranja o seu doce de cidra, copinhos de doce de chocolate, aletria e arroz de leite.” A “mão da morte” – anota o jornalista – fez desaparecer “grande parte dos devotados armadores de presépios”. Os poucos existentes atestam “a simplicidade dos bons tempos de nossos avós”. Memória A origem O presépio foi criado por São Francisco no século 13. A princípio, as próprias pessoas representavam as figuras bíblicas. Mais tarde, passou-se a usar imagens em tamanho natural. Aos poucos, chegou-se às miniaturas montadas em cenário com pedras, musgos e papéis imitando a natureza. Em Portugal, tornaram-se comuns os conjuntos com influência napolitana, com cenas do dia a dia e personagens variados não citados no texto bíblico.

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