Três mostras em cartaz em Belo Horizonte reúnem precioso acervo audiovisual

São obras de grandes artistas, dos anos 1960 aos dias atuais

por Walter Sebastião 03/12/2012 10:29

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Alexandre C. Mota/Aldeia
A montagem de Black&White, no Oi Futuro, exibe os vídeos simultaneamente, o que permite identificar traços comuns (foto: Alexandre C. Mota/Aldeia)
 

Um panorama da produção de arte que se vale dos meios audiovisuais, dos anos 1960 aos dias atuais, está à disposição do público em três exposições: Fluxus e Black&White, no Oi Futuro, e Filmes e vídeos de artistas, que está no Palácio das Artes. Com meia centena de trabalhos, incluindo obras raras, está sendo mostrado desde o uso pioneiro (pelos artistas visuais) do Super-8 e do vídeo como meios para questionar as ideias convencionais de arte até o momento atual, em que as imagens em movimento têm presença massiva em todas as grandes mostras dedicadas à arte contemporânea. As exposições têm curadoria do mineiro, radicado em São Paulo, Roberto Moreira, de 50 anos, pesquisador da área há três décadas. Leia também: Mostra em NY revela complexo método criativo de Matisse

As mostras são preciosas, trazem material impactante, de grande valor histórico, bem selecionado e bem apresentado. São exposições para serem vistas com calma, como se fossem uma sessão de curtas. Tem de tudo: de filmes em alta velocidade e amadores a obras pausadas e muito elaboradas. Há peças cômicas, dramáticas ou trabalhando apenas efeitos visuais. É surpreendente o diálogo entre os antigos e os novos, uns e outros definindo não só a videoarte, mas muito do que se vê na TV contemporânea. Poucos conhecidos e com obras impressionantes são Mako Idemitsu, Denis Oppenhein, Letícia Parente (uma brasileira, pioneira da videoarte, que está nos dois endereços). E, entre os contemporâneos, Luiz Roque. Vanguarda e feminismo Black&White traz trabalhos de quatro mulheres e cinco homens, realizados entre 1970 e 1974, selecionados por Francesca Azzi e Roberto Moreira. Buscaram-se obras características de momento em que experimentos com tecnologia estão incorporados ao contexto de arte, mas são, ainda, sinônimo de vanguarda. Os trabalhos são projetados, simultaneamente, em 12 telas, para permitir observação de motivos comuns a todos. Seja o uso do preto e branco, a linguagem direta ou a relação corpo/câmara. “À medida que o vídeo permitia o registro da performance, ela deixa de ser pública e passa a ser realizada em locais privados”, observa Moreira, sinalizando impacto da nova mídia sobre o processo de criação. Se os homens, como explica Francesca Azzi, valem-se do vídeo para ampliar escopo de experimentação, as mulheres se apropriam dele como instrumento feminista. “São obras com postura de afirmação de gênero. As artistas vão para a frente das câmaras, ‘afirmam sou eu que estou fazendo esse vídeo, sou mulher, minha arte tem a ver com o meu corpo’”, explica. “É arte engajada, que expõe o lugar dado à mulher apresentado como forma de fragilizar certa lógica opressiva”, afirma. A curadora recorda que, nos anos 1960 e 70, o mundo vive a afirmação do feminismo, que leva a mulher a se posicionar na política, mas também nas artes. E, desde então, o número de criadores, no audiovisual, só se expandiu. Duas vertentes Filmes e vídeos de artistas, observa Roberto Moreira, sinaliza momento de institucionalização de arte feita com meios audiovisuais: traz obras que integram a Coleção Itaú, que, desde 2011, decidiu formar acervo no setor. Ação em duas vertentes: comprando obras de artistas contemporâneos reconhecidos, “com valor estético constituído”; adquirindo e restaurando obras históricas dos anos 1960 e 70. “Há trabalhos que já não existem e outros em estado precário de conservação”, observa o curador. Está na mostra, já recuperado e remasterizado, Super-8 do paulista Nelson Leirner que estava na geladeira do artista. Estão na exposição as duas vertentes. “Comum a todos é a poesia, sejam aqueles que apontam mais para a imagem ou que se voltam mais para questões conceituais”, conta Moreira. Ele avisa que não tem explicações para a onipresença dos mineiros na videoarte, já há quase três décadas. “Talvez seja produto de movimento desencadeado por ação de jovens que começaram a se interessar pelo vídeo, mas pode estar em curso a subjetividade que se interessa por esse tipo de imagem”, especula. Lembra que é caminho anterior aos anos 1980 (com audiovisuais nos anos 1970). Que continua ativo com o trabalho “do pessoal da produtora Teia”. História, em todos os casos, no Brasil e no exterior, ainda a ser bem mais conhecida. Com relação ao futuro das manifestações, Roberto Moreira observa que a internet abre muitos horizontes para o que foi e vem sendo produzido. FLUXUS | BLACK&WHITE Obras de Joan Jonas, Dennis Oppenheim, Martha Rosler, Woody Vasulka, Letícia Parente, Ivens Machado, Nam June Paik e Jud Yalkut, Mako Idemitsu. Galeria de Artes Visuais do Oi Futuro, Av. Afonso Pena, 4.001, Mangabeiras, (31) 3229-3131. Terça a sábado, das 11h às 21h; domingo, das 11h às 19h. Até dia 16. Entrada franca. FILMES E VÍDEOS DE ARTISTAS NA COLEÇÃO ITAÚ Obras de Éder Santos, Rivane Neuenschwander, Cao Guimarães, Sara Ramo, Thiago Rocha Pitta, Brígida Baltar, Luiz Roque, Letícia Parente, Anna Bella Geiger, Regina Silveira, Nelson Leiner. Galeria Alberto da Veiga Guignard do Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Terça a sábado, das 9h30 às 21h; domingo, das 16h às 21h. Até dia 6. Entrada franca. Limbo Roberto Moreira lançou, há 30 dias, a Duplo Galeria (www.duplogaleria.com.br), voltada para a difusão e comercialização do cinema de artista. “O mercado de arte é para poucos eleitos e existem centenas de artistas que, por trabalhar com vídeo, não encontram local para mostrar o que fazem, além dos festivais. É nossa proposta tirar trabalhos importantes do injusto limbo histórico em que se encontram”, afirma. A proposta é vender cópias (tiragens entre oito e 10 exemplares) com certificado de autenticidade e procedência. Saiba mais Grupo Fluxus Black&White traz também antologia de 36 trabalhos de artistas do grupo Fluxus. Agrupamento internacional, ativo entre 1962 e 70, que é um dos berços da arte que se faz hoje. Mostra obras de Yoko Ono, John Cale, Ben Vautier, George Maciunas, Wolf Vostell, Paul Sharits, entre outros. Que revelam característica do primeiro cinema de artista: a mistura de poesia, música, performance, tecnologia e várias estéticas (conceitual, pop art, minimalismo, cinetismo etc.). Quem tem duas obras nas mostras da Oi Futuro é Nam June Paik (1932-2006), considerado o criador da videoarte. Formado em música e artes, no início dos anos 1960, realiza TV magnet, distorcendo imagens de televisão com ímãs.



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