Criador do grupo Tá na Rua, o diretor Amir Haddad volta a atuar, aos 75 anos

Nascido em Minas Gerais, ele defende a arte coletiva e a ocupação de espaços públicos

por Ailton Magioli 18/11/2012 09:07

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Murilo Meirelles/Divulgacao
No papel de Tirésias, Amir Haddad retorna ao palco em montagem em cartaz no Rio de Janeiro (foto: Murilo Meirelles/Divulgacao )
Aos 75 anos, Amir Haddad já havia aceitado tantos convites para voltar a atuar em palcos convencionais que, dois anos depois de participar de uma leitura dramatizada e topar viver Tirésias, em Édipo rei, de Sófocles, ele já nem acreditava que o projeto de montagem da tragédia grega vingasse. “O Gustavo Gasparini, que protagoniza e produz o espetáculo, foi meu aluno. Trata-se de um talento cada vez mais raro no meio, já que atualmente as pessoas são voltadas para o mercado”, justifica Amir, cujo argumento já vem carregado de potente crítica ao atual modelo cultural.

Em cartaz no Espaço Sesc Arena, de Copacabana, no Rio de Janeiro, Amir diz estar aprendendo novamente “as dores e delícias de ser ator”, lembrando que o teatro é uma eternidade, além de profundamente renovador. “O teatro precisa de gente como o Gustavo”, acredita o ator-diretor, que não atuava em palcos desde 1998, quando participou da montagem de Deus, de Woody Allen, ao lado de Murilo Benício, sob a direção de Mauro Mendonça Filho. “Depois fiz O castiçal, de Giordano Bruno, que também dirigi, além de A maconha de mamãe é a mais gostosa, de Dario Fo, sob a direção de Antônio Pedro”, recorda Amir, que, especializado em teatro em espaços públicos, fundou, há 32 anos, o Grupo Tá na Rua.

Mineiro de Guaxupé, que trocou o estado pelo Rio aos 5 anos, Amir Haddad diz que está cada vez mais voltado para a arte em espaço público, o que considera importante instrumento de inclusão social. “Essa é a natureza da arte, que não pode segregar e muito menos criar elites”, prega o diretor, salientando o envolvimento dele com o futuro e o encantamento com o presente. “O futuro só ocorre no presente”, defende Amir, lembrando que o Tá na Rua deu a ele uma grande liberdade. “Além de uma linguagem, o grupo me deu possibilidade de ser ilusionista. Ele me deu verdade”, sintetiza.

Ética das ruas
“Com a rua também aprendi a ética que estabelece com o espectador a horizontalidade, o que me dá muita liberdade em cena”, admite Amir Haddad, julgando-se um ator aberto. Como ele faz questão de lembrar, Tônia Carrero disse certa vez que ele era “a Dercy Gonçalves dos intelectuais”. “Dercy é um veio para o ator de todos os tempos, ela deu dignidade ao ofício”, reconhece o discípulo assumido.

O coletivo, para Amir, é o aspecto mais importante da arte. Como gosta de lembrar, personalidades do mundo do teatro como Constantin Stnaislavski, Bertolt Brecht, Eugenio Barba e Jerzy Grotowski viveram o teatro coletivamente. “Quando sou contratado para dirigir um espetáculo, levo a ciência que aprendi e a técnica de coletivização”, garante Amir.

Artista irrequieto, ele não se afasta nem mesmo da TV, em que fez pequena participação em Lado a lado, novela das 18h da Globo. “Participação é boa porque a gente vai um, dois dias, grava tudo e não volta”, diz ele, admitindo que gosta de aparecer. “Até porque a família, vendo TV, diz que a gente venceu na vida”, ironiza o ator, que tem familiares em Uberaba e Uberlândia, além da terra natal Guaxupé, onde admite ter raízes profundas. “Isso sem falar na relação que tenho com o pessoal do teatro no estado”, diz Amir, que é amigo do elenco do Grupo Galpão, também adepto do teatro de rua.

Teatro para todos e musical sobre Ary
Predecessor do grupo Tá na Rua, fundado em 1980, o Grupo de Niterói, que Amir Haddad ajudou a criar em 1977, em pleno governo do general Ernesto Geisel, ocupou o prédio da União Nacional dos Estudantes (UNE), que o Exército havia invadido pouco antes. “Ocupamos o espaço por três anos e restauramos o prédio, que estava todo queimado por dentro”, salienta o ator, que na mesma época chegou a fazer temporada de ensaios abertos em Belo Horizonte (no Teatro Francisco Nunes) do espetáculo Morrer pela pátria, de Carlos Cavaco, encenado por mais de três anos.

Para Amir, a longa sobrevivência do Grupo Tá na Rua é um acontecimento inusitado. “Até então, o Rio de Janeiro não tinha esse modelo de teatro”, justifica. Ele lembra que hoje o teatro de rua é praticado no Rio por grupos como a Cia. Brasileira de Mistérios e Novidades, além de companhias menores, como Boa Praça e Cia. Oficina de Teatro, adepta do circo-teatro de rua.

Em grupo O teatro de grupo, no entanto, há muito é feito na cidade, como faz questão de lembrar o ator-diretor. “O Tablado, de Maria Clara Machado, é uma instituição do Rio”, comemora o feito da autora, também mineira, um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro contemporâneo. “Há também a Cia. dos Atores, que trabalha em esquema empresarial”. Na verdade, o primeiro grupo em sua carreira foi o célebre Oficina, já antecipando a linha de trabalhos feitos sempre de forma coletiva.

No momento, Amir Haddad faz supervisão do musical sobre a vida de Ary Barroso, que Diogo Villela irá estrear ainda este ano. “Gostaria que o teatro não precisasse do diretor, com o qual fica o desgaste diário”, constata, admitindo que o melhor – a criação – fica com o supervisor.

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