Alcione Araújo deixa o legado da coragem à cultura brasileira

Homem dedicado ao teatro, à literatura, à TV e ao cinema, sua morte surpreendeu amigos e colegas

por Ailton Magioli 16/11/2012 07:56

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Cristina Lacerda/Divulgação
Filósofo formado em engenharia, Alcione Araújo era apaixonado por teatro, cinema e literatura (foto: Cristina Lacerda/Divulgação)
O escritor e dramaturgo Alcione Araújo, de 67 anos, morreu na madrugada de ontem, em Belo Horizonte, vítima de parada cardíaca. Ele passou mal no hotel, na Savassi, onde estava hospedado com a mulher, Dulce Lobo. Não houve tempo para chamar o médico. Segunda-feira, o casal havia visitado Ouro Preto. Familiares informaram que o corpo será velado hoje, a partir das 11h, no Memorial do Carmo, no Caju, na zona portuária carioca. A cremação ocorrerá no fim da tarde.

Mineiro de Januária e radicado no Rio de Janeiro desde a década de 1970, Alcione era cronista do caderno EM Cultura, do Estado de Minas, às segundas-feiras. Autor de peças como Há vagas para moças de fino trato, Sob neblina use luz baixa e Muitos anos de vida, ele assinou também roteiros para cinema e televisão.

O dramaturgo tinha uma filha, a professora de filosofia Carolina Araújo, de 37 anos, e dois netos: Joaquim, de 5, e Flora, de 10. Ontem, Carolina viajou às pressas do Canadá para o Brasil.

Como diretor de teatro, Alcione foi um dos responsáveis pelo sucesso da peça Doce deleite, na década de 1980. A colagem de 12 esquetes cômicos – oito de sua autoria – era estrelada pela dupla Marília Pêra e Marco Nanini. Ultimamente, ele vinha se dedicando ao romance. Ventania, o terceiro e último deles, foi lançado na capital mineira, no ano passado.

Conheça mais sobre a face literária de Alcione

Síntese Alcione Araújo foi, sobretudo, um homem do palco: escreveu peças, dirigiu, adaptou texto de Shakespeare, produziu e chegou até mesmo a atuar, embora isso tenha ocorrido poucas vezes. Foi professor de teatro em Belo Horizonte (PUC Minas) e no Rio de Janeiro (Uni-Rio e Casa de Artes das Laranjeiras). Sua dramaturgia vai da comédia rasgada – Doce deleite foi um dos maiores sucessos de público do teatro brasileiro contemporâneo – a dramas psicológicos e sociais. Suas peças sempre perseguiram a difícil síntese entre a dimensão subjetiva dos personagens e o contexto político da época.

Dono de grande arsenal técnico e mestre no domínio do diálogo, ele era capaz de mesclar o clima de realismo exigido pelo período – o palco era uma das frentes mais destacadas de oposição ao ambiente de censura e repressão – com elementos vindos do teatro do absurdo e do teatro engajado de influência existencialista.

De forma alegórica, mas sempre corajosa, Alcione pôs em cena temas como a questão dos desaparecidos e do autoritarismo, seja no âmbito da política ou do grupo familiar. Sempre com habilidade, o dramaturgo mostrava que o cotidiano era político e as grandes questões sociais figuradas a partir dos dramas individuais.

O mineiro escreveu 14 peças, reunidas em três volumes editados pela Civilização Brasileira no fim dos anos 1990. Entre elas estão Doce guerra da passarela, A raiz do grito, Comunhão de bens, Em nome do pai e A caravana da ilusão. Como roteirista de cinema, trabalhou para diretores como Pedro Bial (Outras estórias), Murilo Salles (Faca de dois gumes) e Paulo Thiago (Jorge, um brasileiro e Policarpo Quaresma, herói do Brasil).

Pelo roteiro de Nunca fomos tão felizes, dirigido pelo cineasta Murilo Salles, Alcione foi destacado com os prêmios de melhor roteirista nos festivais de Brasília e Gramado, em 1984.

REPERCUSSÃO

“Meu Deus, é tão triste ver as pessoas indo embora! Gostaria que tanta gente ficasse, não desencarnasse nunca. Nossa relação é profundamente ligada pela história. Dirigi Há vagas para moças de fino trato, na década de 1970, espetáculo muito imporante para nós dois. Na época, o Alcione não aparecia nos ensaios. Foi só ao ensaio geral e à estreia. Depois de assistir, ele me contou que ficou envergonhado, porque a alma dele estava ali. ‘Me senti inteiramente exposto’, revelou. A partir de então, em meus espetáculos nunca procuro chegar ao personagem, só ao autor. A obra só é boa quando o autor se reconhece nela, não na história que contou. Sinto orgulho em levar Alcione ao teatro brasileiro.”

Amir Haddad,
diretor de teatro


“Recebo essa notícia com muita tristeza. Alcione Araújo foi uma figura notável no desenvolvimento do teatro brasileiro, do qual sempre participou com muita intensidade. Ele é uma pessoa que não pode ser esquecida. Estou muito chocada.”

 Bárbara Heliodora,
crítica de teatro


“Alcione reuniu uma série de qualidades, que fizeram dele uma de nossas lideranças no universo das artes cênicas. Além de dramaturgo de altíssima qualidade, ele se interessou por várias questões que envolvem o teatro, como as dificuldades de exercer a profissão, as leis de incentivo e a liberdade
de expressão.”

 Jota D’Ângelo,
diretor de teatro


“Tive o privilégio de trabalhar com ele, que foi meu conselheiro em várias ocasiões, sobretudo durante a realização da Coleção Teatro Brasileiro, coordenada por mim aqui em Belo Horizonte. Alcione era dramaturgo de grande experiência e escreveu romances geniais. Trabalhando com a palavra, ele tinha a capacidade de também transitar entre o cinema, o teatro e a literatura.”
Soraya Handam,
atriz e produtora cultural


“Nos anos 1970, fizemos juntos a peça A cantora careca, de Ionesco. Alcione fazia o papel do bombeiro. Deve ter sido a única vez em que ele atuou como ator. Do elenco também faziam parte João Ettiene Filho, Regina Reis, Joyce e João Marcos. Ele era ótima pessoa, além de um dos dramaturgos mais importantes da nossa geração.”

Mamélia Dorneles,
atriz


“Alcione me surpreendia, porque sempre chegava com notícias novas. Tivemos uma grande ligação aqui em Belo Horizonte, no início da década de 1970, quando criamos um grupo de teatro com Eid Ribeiro, José Mayer e Antônio Grassi. Foi uma época muito produtiva, de grandes descobertas para a nossa geração.”
Nelly Rosa,  atriz e produtora cultural

 

Surpresa e dor

 

Os amigos foram surpreendidos pela má notícia. Em Portugal, onde acompanha a ministra da Cultura, Marta Suplicy, o ator mineiro Antônio Grassi, presidente da Fundação Nacional de Arte (Funarte), afirmou que, independentemente da carreira de escritor e dramaturgo, o companheiro de palco era cidadão atento e de posições instigantes.


“Praticamente saímos juntos de Belo Horizonte, na década de 1970. Graças a alguns de seus textos, eu, ele e o José Mayer trocamos BH pelo Rio. Primeiro, encenamos A doce guerra da passarela, depois fizemos Bente-altas: licença para dois, com a qual partimos para o Rio”, relembrou Grassi.


De acordo com o presidente da Funarte, o amigo era, antes de tudo, “um pensador”. “Sempre muito atento, Alcione estava além do ofício teatral. Não por acaso, sua casa, no Rio de Janeiro, tornou-se ponto de encontro e de debate acerca de outros temas, com a presença de acadêmicos e políticos. Para mim, a morte dele – a segunda esta semana, depois da de Marcos Paulo – é um abalo”.

Filósofo Formado em engenharia, Alcione Araújo fez mestrado em filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais. O teatro era parte de sua vida desde a juventude, quando participou de curso de formação de atores em Belo Horizonte.
A capital mineira foi o palco de suas primeiras peças. Em 1974, estreou Há vagas para moça de fino trato, dirigida por Eid Ribeiro. Naquele mesmo ano, o texto ganhou nova montagem, com direção de Amir Haddad. O elenco reunia Glória Menezes, Yoná Magalhães e Renata Sorrah.


Em 1976, a segunda peça de Alcione, Bente-altas: licença para dois, foi encenada na capital mineira, com direção de Aderbal Freire-Filho. O trabalho ganhou prêmio no concurso de dramaturgia promovido pelo Grupo Opinião, no Rio de Janeiro. Naquele mesmo ano e também dirigido por Aderbal, estreou em BH Sob neblina use luz baixa, texto premiado pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT). A partir de então, Alcione foi para o Rio de Janeiro, onde suas montagens passaram a estrear. (Colaboraram João Paulo e Carlos Herculano Lopes)

 

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