Espetáculo de Marcelo Serrado, Não existe mulher difícil , peca pela falta de delicadeza

Vendida como monólogo divertido, peça é stand up comedy de linguagem chula

por Gracie Santos 29/10/2012 08:57

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Rosangela Ribeiro/Divulgação
Marcelo Serrado "vende" monólogo e apresenta stand up comedy focado no sexo (foto: Rosangela Ribeiro/Divulgação)

 

Os agressivos que me perdoem, mas delicadeza é fundamental. Marcelo Serrado é excelente ator. Sem sombra de dúvida, um dos raros representantes da boa safra da dramaturgia nacional na faixa dos 30/40 anos. Por isso mesmo, pelo fato de ele já ter demonstrado competência (seus personagens cômico-caricatos Tonico Bastos, de Gabriela, e Crô, de Fina estampa, ambas da Globo, devem ter sido certamente os responsáveis pela lotação de algo em torno de 90% do Sesc Palladium – são cerca de 1,3 mil espectadores – na noite de sexta-feira), ele poderia ter a delicadeza de “vender” Não existe mulher difícil como stand up comedy de linguagem chula, grosseira, e não como um monólogo divertido sobre um homem separado que se esqueceu de como é paquerar. O personagem é um homem traído, com o moral baixo, se é que me entendem, e se sente humilhado

pelas mulheres. O texto de guerra dos sexos de Lúcio Mauro Filho (a direção também é dele) repete piadas de mau gosto que todo mundo já ouviu. Marcelo Serrado tem segurança, carisma e competência para segurar a onda – canta bem, já fez Tom Jobim em musical; toca piano e prende a plateia. Mas o texto passa. Passa dos limites, fere o bom gosto. É possível ser mais fino. E eles (tanto diretor quanto ator) sabem disso. Tanto que há momentos em que Serrado brinca de se desculpar pelos excessos com os grisalhos da plateia (e eram muitos). Passa a classificação etária para mais de 75 anos. Difícil saber se os grisalhos se incomodaram. Fácil perceber que muita gente adorou, deu risadas e aplaudiu (certamente, mais pelo talento do artista do que pelo texto – que texto?). Mas ver Serrado fazendo a guerrinha dos sexos de baixo nível deixa no ar a pergunta: ele não poderia discorrer sobre o mesmo tema com um pouco mais de elegância? É possível fazer humor com mais classe? Monólogos não são espetáculos com cenário, trilha sonora e trama inteligente, interessante, dramáticas e/ou divertidas? Pensei que fosse assim. Ver num fim de semana Zélia Duncan em Totatiando, espetáculo de bom gosto, humor cínico e sutil, e muita, muita delicadeza e ver Marcelo Serrado em Não existe mulher difícil no outro deixa claro que pode haver melhores escolhas. Não apenas para o público mas também para os intérpretes. É preciso se dar valor. Mas se há tantos excessos chulos no texto de Mauro Mendonça Filho, há na stand up dele algo que deve ser destacado. É a insistência da produção e do próprio Serrado em duas coisas, que, no caso, representam a falta de delicadeza das plateias. Primeiro o atraso: ele mantém a luz acesa durante bom tempo e “brinca” com o público cantarolando Amor, meu grande amor, de Ângela Rorô sem o “não” antes da frase: “Chegue na hora marcada...”. Antes disso, alguém da produção e o próprio ator pedem que não sejam feitas fotos nem filmagens de celular durante a apresentação. Hábito que vem tomando conta do público insano mundo afora (não importa ver o show, mas provar e registrar que estava lá). A plateia de Serrado obedeceu, ao contrário da de Zélia Duncan, que a forçou a estender o braço e tapar a luz de câmeras, duas ou mais vezes (o flash tira a concentração).



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