Preciosidades protegidas

Responsável pelo restauro e conservação de obras do patrimônio, Silvio Luiz Rocha destaca a importância da conscientização em prol da preservação de bens históricos

por Walter Sebastião 28/10/2012 09:32

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Maria Tereza Correia/EM/DA Press
Restaurações como a que vem sendo realizada na Matriz de Nossa Senhora de Nazaré estão entre os trabalhos de Silvio Luiz Rocha Vianna de Oliveira (foto: Maria Tereza Correia/EM/DA Press)


É comum encontrar o conservador e restaurador Silvio Luiz Rocha Vianna de Oliveira, de 57 anos, nas cidades do interior de Minas. Ele sempre está envolvido em trabalhos voltados para a proteção de preciosidades. No momento, sem fugir à regra, ele está em Cachoeira do Campo (MG) à frente da equipe de cerca de 25 pessoas, entre marceneiros, operários e técnicos, executando projeto do Instituto Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Coordena a restauração de monumento pouco conhecido, mas de grande valor artístico: a Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, templo erguido por volta de 1720. É uma das primeiras matrizes construídas no estado. “É emocionante, uma igreja maravilhosa”, observa, destacando a qualidade da talha e das pinturas, além do fato de ser construção de fase “extremamente importante para a nossa história”.

“Pela beleza e riqueza ornamental, a matriz restaurada terá forte impacto sobre as pessoas”, garante Silvio Luiz. A previsão é de que o trabalho esteja pronto no fim de 2013. Ele conta que a restauração chegou “no limite” do tempo, a partir do qual haveria danos irreversíveis. O restaurador, calculadamente, evita tratar o trabalho na Matriz de Nossa Senhora de Nazaré como diferente ou mais importante que outros, apesar de reconhecer tratar-se de monumento muito expressivo. “Todo trabalho de restauração e conservação é importante. Independentemente de ser um imóvel maior ou menor, mais ou menos conhecido”, enfatiza. A satisfação em ver um patrimônio recebendo cuidados tem motivo. Já viu situações desoladoras. Como um templo de Conselheiro Lafaiete destruído e saqueado. “Tivemos de recompor tudo, pedaço por pedaço”, recorda.

A situação do patrimônio brasileiro em relação a outras épocas melhorou, afirma Silvio. “Há mais profissionais atuando, o Ministério Público tem cobrado ações e exigido responsabilidade. E assim vão surgindo mais projetos”, explica. “Muito se perdeu e continua se perdendo. No Brasil inteiro, veem-se monumentos desabando”, lamenta. “Para nós, restauradores, é muito desagradável ver essa situação e saber que não há nenhuma medida para enfrentar os problemas”, acrescenta, lembrando-se de noticiário recorrente sobre o assunto. “Minas, pela importância de seu acervo, tem situação melhor que a de outros estados. Mas temos situações pontuais graves. Caso da Catedral da Sé de Mariana, que precisa de intervenção imediata”, aponta, sem esconder preocupação com a situação desse imóvel.

“Nosso sonho, como restauradores, é ver mais monumentos protegidos, preservados, conservados e recebendo os tratamentos de que necessitam”, afirma, expressando o desejo da categoria. Silvio nasceu em Ouro Preto (cidade que abriga o primeiro curso técnico do Brasil de conservação e restauração). Começou estudando com Jair Inácio (1932-1982), nome reverenciado na área. “Ele é meu mestre. Nossa geração adquiriu consciência da importância da preservação com ele. Foi pioneiro, teve iniciativa de abrir uma escola. Isso é lucidez”, afirma. Formado em história, especializou-se em conservação e restauração de bens culturais móveis, restauração de pintura de cavalete e análise urbana. “É uma profissão bonita, multidisciplinar. Exige dedicação e tem de ter dom. Não basta ser técnico”, observa.

O restaurador já realizou trabalhos em Belo Horizonte, Ouro Preto, Santa Luzia, Nova Lima, Caeté, Curvelo, Uberlândia, Itapecerica e Itabira. É casado com a química Claudina Maria Dutra Moresi, também ligada ao setor. Ela é pesquisadora de técnicas e materiais relacionados a objetos de arte, com trabalho pioneiro sobre Guignard a partir desse enfoque. Alguns monumentos que Silvio adora: a Matriz de São Francisco e os museus da Inconfidência e do Oratório, em Ouro Preto; e o Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte. Motivo: pela proteção dos acervos, pelos trabalhos de conservação preventiva, obras de valor histórico e estético e inserção das comunidades nos projetos.

Três perguntas para Silvio Luiz Rocha, restaurador

Como você vê a conservação do patrimônio hoje?


Temos mais restauradores, há melhora na ação pública, progresso nas técnicas de intervenção, a mídia fala do tema, há ações do Ministério Público. Então, ganhou-se mais consciência da conservação. Mas a proteção do passado brasileiro ainda gera preocupação. Destruímos demais. Ouro Preto sofre com as pressões de crescimento. O Brasil não tem planejamento urbano, é um vexame. Temos de aprender a conciliar o antigo e o novo. Fico sonhando: já pensou se Aarão Reis tivesse protegido a região da Igreja da Boa Viagem? Belo Horizonte seria hoje cidade de outro nível, com crescimento mais ordenado, mais fácil de administrar do que ter de ficar pavimentando ruas não planejadas.

Como é ser restaurador?


É um trabalho técnico, delicado, difícil, mas que dá muita alegria. Quando você começa uma obra até imagina o resultado. Existem etapas que você tem que cumprir, parte por parte. Cada vitória sobre a degradação traz muita satisfação. Mas não adianta fazer restauração e deixar o monumento abandonado, sem política de conservação, de manutenção periódica, de monitoramento. A comunidade tem papel muito importante nesse sentido. Como está em contato direto com o imóvel, tem condição de detectar os problemas quando ainda estão em fase inicial. Às vezes, os problemas são simples, podem ser enfrentados logo que surgem, a custos baixos. É como o corpo humano: devemos enfrentar o problema antes de ele infeccionar.

Que balanço você faz da profissão?

Com a regulamentação da profissão em andamento, a formação superior e a técnica, temos profissionais competentes atuando em todas as áreas. A restauração se globalizou, temos acesso à tecnologia, há muita troca de experiências, temos muita informação, fazemos o mesmo que é feito em todo o mundo, ainda que existam países com mais experiência e mais recursos financeiros. A primeira geração de restauradores brasileiros – Edson Mota, Jair Inácio, em Minas; João José Rescala, na Bahia; Ado Malagoli, no Rio Grande do Sul, entre outros – foi de grandes heróis. Enfrentaram dificuldades enormes, inclusive a falta de iniciativa. Muita coisa foi salva devido à ação deles. A contribuição da minha geração é a busca por conhecimento mais científico, intervenções mais complexas, com objetivos maiores, usando técnicas reversíveis, para que outras restaurações possam ser feitas. E a luta pela regulamentação da profissão.

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