Blog Eu te dedico reúne histórias que estão por trás das dedicatórias estampadas em livros

Recados de próprio punho de autores consagrados valorizam volumes à venda nos sebos

por Flávia Ayer 18/09/2012 08:29

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"A dedicatória dá um caráter único ao livro, registra sentimento e intenção e é um dos presentes mais duradouros que pode se dar para alguém" (foto: Divulgação)
 
A paixão de Tadeu e Nara está registrada na folha de rosto de Insônia e, ao contrário da ficção dos contos de Graciliano Ramos, o romance foi pura realidade vivida em dois dias. Assim como a história do casal, outras tantas estão guardadas dentro de livros que repousam em estantes, gavetas, bibliotecas e sebos. A publicitária mineira Mariana Guglielmelli, de 33 anos, resolveu abrir as páginas desses enredos íntimos e, há seis meses, criou o blog Eu te dedico. A cada post, uma nova dedicatória revela relações de amor, reconciliação ou afeto e homenageia anônimos, por um momento promovidos a protagonistas da sua narrativa particular.
Sucesso na internet, o blog, que faz parte da plataforma Tumblr, já teve mais de 80 mil visitas, recebeu cerca de 400 dedicatórias de leitores e atraiu a atenção de internautas da Suécia, Portugal e Espanha. Os primeiros posts foram resultado do trabalho de garimpo de Mariana nos sebos de Belo Horizonte. Rapidamente, eles foram perdendo espaço para textos do acervo pessoal dos colaboradores. “A dedicatória dá um caráter único ao livro, registra sentimento e intenção e é um dos presentes mais duradouros que pode se dar para alguém”, define a idealizadora do blog, que sonha transformar o projeto em livro.
Além das fotos de inscrições gravadas nas folhas de rosto e da capa dos livros, o Eu te dedico apresenta os fatos por trás das dedicatórias. A iniciativa partiu dos próprios colaboradores e, certamente, dá tom ainda mais especial aos textos. Nara, por exemplo, mostra a intimidade ao falar sobre o presente de Tadeu. “É recente, mas, toda vez que leio essa dedicatória, sinto uma saudade imensa do que poderia ter sido. E a certeza de que vivi em dois dias um sentimento tão bom que não existem palavras para explicar”, relata.
Outro colaborador conta que, há dois anos, havia se mudado para o novo apartamento e, ao vasculhar o imóvel vazio, encontrou no canto falso da estante exemplar de Dom Casmurro, de Machado de Assis. A surpresa veio das palavras escritas num papel que caiu do livro. “Para os olhos de ressaca do século 21, com carinho. Amo você.” A mensagem fez a imaginação do leitor florescer. “A dedicatória realmente me deixou surpreso com as palavras carinhosas, comparando a ex-dona de meu apartamento à figura excêntrica e esperta de Capitu”, conta.
FAMOSOS E ANÔNIMOS
Algumas mensagens trazem assinaturas célebres, como as de Cora Coralina, Adélia Prado, Millôr Fernandes, entre outros escritores. Entre dedicatórias de famosos e anônimos há também as que fazem parte do acervo pessoal de Mariana, que ainda mantém algumas guardadas a sete chaves. A primeira revelada foi mensagem recebida da madrinha, num exemplar do livro infantil Nossos melhores amigos, de Gyo Fujikawa. O texto foi escrito ao lado da ilustração de uma menina junto de um gato e, 30 anos depois de ganhar o presente, a autora também explica os bastidores. “O incentivo à leitura funcionou, e desconfio que o livro também tenha incentivado minha paixão por gatos e dedicatórias. Freud explica”, diz a publicitária, que tem três gatos e outro blog sobre felinos.
Com tantos acessos e colaboradores, o Eu te dedico já serviu também para inspirar dedicatórias bastante criativas, como a recebida por uma das leitoras no livro A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, depois de ela apresentar o blog a um amigo. “Mariana, eu acho que não consigo escrever uma dedicatória digna de sair naquele Tumblr, mas você merecia, desculpa, um beijo”. Nem precisa dizer que a mensagem originalíssima foi parar rapidinho nas páginas do blog.
 
ACERTO DE CONTAS
 
Um livro assinado de próprio punho por João Guimarães Rosa pode valer até R$ 3 mil. O prestígio de autores como o gênio que contou em prosa a alma do sertão mineiro garante ao exemplar lugar especial na estante de obras raras, ao contrário daqueles com dedicatórias de um autor qualquer. No comércio de livros, assinaturas anônimas levam os preços para o chão. Esse é o motivo pelo qual o livreiro Marco Antônio Meyer, de 67 anos, dono há 30 anos de um sebo na Savassi, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, costuma retirar as inscrições dos volumes antes de colocá-los à venda.
 
“Geralmente, sou obrigado a retirá-la. As mais frequentes são de filhos dedicando aos pais, recados charmosos a namoradas”, conta Meyer, que sempre se surpreende por exemplares que chegam a seu sebo. “Tenho vários volumes com dedicatórias de autores que gosto, como Cyro dos Anjos, Jorge Amado e Autran Dourado. Outro dia, peguei um livro com uma dedicatória do Carlos Drummond de Andrade e fiquei até emocionado”, conta. Mas uma dessas mensagens, em particular, o livreiro faz questão de repetir: “Ao iminente general Almeida Mattos, como forma de amor à educação, coragem cívica e tenacidade”.
 
O exemplar do Acordo MEC-Usaid, reforma do ensino brasileiro com base no modelo norte-americano, era dedicado ao homem que, no auge da ditadura civil-militar, dirigia o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e prendeu Meyer, militante e presidente do diretório estudantil do Instituto de Educação no fim dos anos 1960. O volume foi retirado de venda e compõe o acervo pessoal do livreiro. “Para mim, esse livro mostra que nossa luta era correta e os militares estavam subordinados a uma potência de fora”, afirma.  
 
Palavra de especialista 
 
Maria Zilda Ferreira Cury
Professora de literatura da UFMG 
 
Estética da recepção 
 
Depois da década de 1980, uma importante corrente da literatura, a estética da recepção, passa a considerar cartas, rascunhos, dedicatórias e todo material extratextual como crucial para estudar o processo de criação de uma obra. Dedicatórias escritas pelos autores, assim como epígrafes, notas e glossários, fazem parte da estrutura significativa do texto. Quando ela é feita, por exemplo, a um companheiro de geração ou a um personagem, outro escritor ou obra são postos no horizonte de leitura daquele livro. Há também dedicatórias escritas de próprio punho. Murilo Mendes (1901-1975) faz em um de seus livros dedicatória para Antonio Candido. O texto acaba revelando não apenas a amizade entre os dois, mas também uma relação entre a concepção de literatura de ambos.
 
Na rede
Leia mais dedicatórias e saiba como colaborar no endereço http://eutededico.tumblr.com 


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