Peça Luís Antônio - Gabriela vira livro

Llivro reconta de forma densa drama do irmão do diretor da produção, rejeitado pela família por ser travesti

por Agência Estado 17/09/2012 11:06

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(foto: Divulgação)
A premiada peça de Nelson Baskerville, Luís Antônio - Gabriela ganhou edição em livro, lançado nesta segunda-feira, em São Paulo. O livro reconta de forma densa o drama do irmão do diretor Baskerville, Luís Antônio, que, rejeitado pela família por ser travesti, vai parar nos piores muquifos perto do cais do porto de Santos, vira prostituto, é espancado por um soldado, perde todos os dentes e segue finalmente para a Espanha, onde assume a persona de Gabriela, fica viciado em cocaína e é atingido pelo vírus da aids, sendo abrigado num convento de freiras, em Bilbao onde morreu, em 2006.

O autor e diretor da peça, como quase todos os integrantes de sua família, respiraram aliviados quando Luís Antônio sumiu. Sua irmã Maria Cristina foi a única capaz de um gesto piedoso. Foi atrás dele em Bilbao, onde o irmão se apresentava em boates, antes de ficar doente. São as cartas de "Gabriela" para Maria que guiam o leitor pela via-crúcis do travesti, nascido em 1953 numa família conservadora de Santos, definida pelo autor como "tipicamente rodriguiana" - referência à reprodução arquetípica dos personagens de Nelson Rodrigues no clã dos Baskerville, a começar pelo patriarca, como observa o autor. "Ele temia que eu também fosse homossexual e era extremamente repressor", lembra o dramaturgo, que começou a carreira teatral com total desaprovação familiar.

"Nelson Rodrigues fala que a família é a fonte de todo conforto, mas também a de todas as doenças", diz Baskerville. "Eu concordo", arremata. Quando Luís Antônio resolveu, aos 16 anos, morar com o avô materno - um inglês, que passou 20 anos sem falar com a esposa -, sua família encarou a deserção do garoto como um incômodo a menos. Conflitos, lembra o autor, não faltavam, a começar pela própria história de Nelson, que nasceu no mesmo dia em que sua mãe morreu, sentindo-se, de certa forma, culpado por isso. Viúvo aos 32 anos, seu pai, com cinco filhos, casou de novo e aceitou não só os outros três filhos da nova mulher, igualmente viúva, como adotou Luís Antônio, em circunstâncias nunca esclarecidas.

Acontece que Luís Antônio gostava de se vestir de mulher e dormia de bruços. O pai não suportava. "Não quero um pederasta dentro de casa", gritava, enquanto chicoteava as costas do garoto com a fivela do cinto, conforme relato do autor no livro, que se lê em estado de tensão.

Nelson refere-se a esse "documentário cênico" como uma reencontro com a figura do irmão proscrito. De certa maneira, é um drama que se aproxima da literatura neorrealista italiana, especialmente do protagonista do livro "Cronaca Familiare de Vasco Pratolini", também separado do irmão mais novo na infância que só vai reencontrar adulto, pobre e abandonado pela mulher, sentindo-se na obrigação de cuidar dele, embora também levasse uma vida miserável. Nelson não teve essa oportunidade. O irmão morreu antes. Sua peça, mais que tributo, foi sua maneira de corrigir esse desencontro.

"Exato como nessas famílias italianas, tudo era passional na família Baskerville, a começar por meu pai, movido pela paixão", diz Nelson. "Cada um se defendeu como conseguiu e posso dizer que todos nós, os irmãos, somos sobreviventes." Depois de "Luís Antônio - Gabriela", que já recebeu duas propostas para virar filme, Nelson deixa a família de lado para tratar da neurose alheia. Em novembro, estreia "Os Credores", de Strindberg, sobre o eterno conflito entre o mundo masculino e feminino. E também a peça "As Estrelas Cadentes", baseada no livro "Vozes Roubadas".

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