Caso de restauração sem qualidade feita na Espanha chama a atenção para as exigências que cercam o ofício

Profissão ainda não é regulamentada no Brasil

por Sérgio Rodrigo Reis 12/09/2012 09:28

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Reprodução
Como era e como ficou o Ecce Homo (foto: Reprodução)
A história rodou o mundo nos últimos dias: uma senhora espanhola, Cecília Gimenez, de 81 anos, na melhor das intenções, foi restaurar a pintura do século 19 Ecce Homo, atribuída a Elías García Martínez, artista espanhol com poucas obras conhecidas. Pincelada vai, pincelada vem e não demorou para a fisionomia do Cristo retratada na tela mudar. Os cabelos cresceram, ficaram mais crespos e a barba sumiu do rosto. Tanto o nariz quanto os olhos ganharam outros formatos e as vestes foram tingidas com cores intensas. O caso extremo de intervenção equivocada ocorreu na cidade de Borja, na província de Saragoça, ganhou machetes de jornais, virou motivo de piada nas redes sociais – só no Facebook há uma comunidade com mais de 26 mil seguidores – e revelou que restauração é coisa séria.
O conceito de conservação e restauração de obras de arte mudou com o tempo. No passado, cabia a artistas e práticos a função de “reformar” as pinturas, esculturas e objetos que sofriam danos do tempo, do mau uso e até de acidentes. “O sentido de reforma e recomposição era meio aleatório e, no final do século 20, tomou outro significado. Hoje, há várias linhas de atuação”, explica Adriano Ramos, do grupo Oficina de Restauro. A preservação de um bem cultural pode se dar preventivamente, atuando no entorno da obra ou no âmbito da conservação/restauração. Esta última frente de pesquisa busca interferir diretamente nas peças e nela há um grupo que defende a mínima intervenção. Nem sempre foi assim.
Não é difícil encontrar casos na história de quem tentou recuperar obras de arte e acabou realizando intervenções equivocadas. Em 1755, o pintor português Antônio Rodrigues Belo criou uma obra no teto da capela-mor da Matriz de Nossa Senhora de Nazareth, em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto. Com o tempo, a pintura se deteriorou e, em 1880, o também pintor Onório Esteves foi convidado a repintá-la. Virou outra coisa. Há 30 anos, quando o templo passou por uma nova intervenção, coordenada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), houve discussões sobre se deveria ou não removê-la. A opção foi por manter a repintura, sinalizando que, embaixo, existe outra pintura.
A difusão das técnicas e conhecimentos ligados à restauração nas últimas décadas tem contribuído para a diminuição dos equívocos. Mas a situação ainda é preocupante, já que a profissão não é regulamentada no Brasil. Atualmente, o projeto encontra-se na Câmara dos Deputados. A lacuna na legislação permite que qualquer pessoa possa exercer um ofício que, segundo especialistas, exige vasto conhecimento. “O conservador-restaurador, para atuar à frente do projeto de recuperação de um bem cultural, não pode ser só um prático. Tem que ter informação em áreas como a história da arte, teoria da restauração, física, química, biologia e técnicas empregadas pelos artistas, adquiridas por meio de uma formação acadêmica”, pondera a conservadora do Museu de Arte da Pampulha, Luciana Bonadio.
Marcos Michelin/EM/D.A Press
A restauradora Maria Regina Ramos, da Oficina de Restauro, em ação: trabalho exige conhecimentos de história da arte, física e química (foto: Marcos Michelin/EM/D.A Press)
INSUBSTITUÍVEL
A diretora do Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis (Cecor), da UFMG, Bethânia Reis Veloso, defende a regulamentação para se diminuírem os equívocos na área. “Aqui no Cecor não chegam muitos casos, mas, pelo Brasil, sei que há vários”, diz. Para a especialista, a formação uniforme dos profissionais poderia contribuir para dirimir os equívocos. “As obras que trabalhamos no patrimônio são únicas, insubstituíveis. Portanto, alguém para atuar nesses bens tem que saber o que está fazendo. Caso contrário, há riscos. Os bens são únicos. Não tem jeito de substituir história”, alerta. Apesar dos problemas, ela é otimista. “Há 30 anos, ninguém falava em preservação. Hoje, a situação mudou.”
A melhoria da conscientização de parte da população ainda esbarra na burocracia. No fim da semana passada, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) teve que anular sete licitações para escolha de profissionais para trabalhos de restauração. Elas exigiam graduação dos profissionais. Como a legislação que vigora no país não prevê isso, alguns profissionais, sentindo-se prejudicados, pediram e conseguiram a impugnação do processo. O Iepha informa que atualmente os técnicos buscam alternativas para reestruturar a licitação. A intenção é que se encontrem maneiras para garantir a qualidade dos serviços prestados, por se tratar de intervenções delicadas em bens históricos.
 
Equívoco e sucesso
A restauração equivocada de Cecília Gimenez da pintura Ecce Homo, feita pelo pintor Elías García Martínez, na parede do santuário espanhol de Nossa Senhora da Misericórdia, em Borja, fez o que ninguém havia conseguido até então: colocou a pequena cidade do interior espanhol no centro do noticiário mundial. Nos últimos dias, aumentou em proporção espantosa o número de turistas para conferir a restauração e tirar foto do Cristo. A senhora teria agido com boa vontade, segundo a secretaria local de cultura, mas acabou transformando a pintura em algo, no mínimo, inusitado.  


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