Os signos da cidade

por Carlos Herculano Lopes 05/09/2012 09:35

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Jair Amaral/EM/D.A Press
Fabrício Marques está concluindo ensaio experimental que identifica imagens de BH construídas por poetas e escritores (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press )
 
Num misto de esforço jornalístico e pequenas pitadas de fantasia, o poeta e jornalista Fabrício Marques está em fase de conclusão de Cartógrafos da vida urbana – Versões de Belo Horizonte por seus escritores no período de 1946-2006. Com mais um mês de trabalho, o livro ficará pronto. O lançamento será no ano que vem. Trata-se, segundo ele, de ensaio experimental com o objetivo de identificar imagens que foram construídas pelos escritores e poetas que viveram na capital mineira do início dos anos 1940 à primeira década deste século. “O marco dessa história é o ano de 1943, com a inauguração, pelo então prefeito Juscelino Kubitschek, do Conjunto Arquitetônico Modernista da Pampulha, formado pelo Cassino, a Casa do Baile, o Iate Golfe Clube e a Igreja de São Francisco”, diz.

Mas se o ponto de partida é esse, para melhor situar seu trabalho Fabrício retrocedeu alguns anos na história, sobretudo às décadas de 1920 e de 1930, quando chegaram, ou já viviam em Belo Horizonte, jovens escritores como Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Cyro dos Anjos, que depois se mudariam para o Rio de Janeiro. Nesse processo, também foram importantes nomes como Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Emílio Moura e outros. “Foram eles que lançaram as bases para a fixação e, ao mesmo tempo, a renovação de determinados signos da cidade. Eles ajudaram a multiplicar as leituras de BH, que é vária e contraditória. Na verdade, estou começando o projeto pela parte final”, diz o autor. 

Desses signos, um dos mais emblemáticos, na visão de Fabrício Marques, é o Viaduto de Santa Tereza, cuja pedra fundamental de construção foi lançada em 1926. Os famosos arcos só ficariam prontos dois anos depois e, em 1929, a obra foi entregue à cidade. Foi também na época que um jovem poeta, Carlos Drummond de Andrade, desceu a Rua da Bahia e seguiu resoluto até o viaduto. Mas não era uma caminhada convencional porque, em determinado momento, desviou-se do passeio e começou a escalar, passo a passo, o arco do lado direito de quem vai para a Floresta e Santa Tereza. Conta-se que ele se deteve no ponto mais alto, para depois descer sem pestanejar, indiferente aos olhares curiosos dos transeuntes.

Aventura De acordo com Fabrício Marques, se hoje esse gesto do poeta, então com 27 anos, pode parecer pouco rebelde aos padrões contemporâneos, no entanto imprimiu de forma definitiva o Viaduto de Santa Tereza no imaginário e na cartografia afetiva e literária da cidade, ligando-o, em Belo Horizonte, à própria história do modernismo, cujos primeiros sinais surgiram já no início da década de 1920. “Depois dessa aventura de Carlos Drummond de Andrade, diversos escritores, de muitas gerações, repetiram ou criticaram o ato, mas não foram indiferentes a ele. Atualmente, o viaduto está depredado e esquecido. E os escritores não o sobem mais. Ao contrário, tornaram-se eles mesmos nomes de viadutos na Avenida Cristiano Machado, legitimados pelo poder público”, comenta Fabrício. Assim como o Viaduto de Santa Tereza, diversos outros pontos, na então Belo Horizonte antes dos anos 1940, foram frequentados pelos seus escritores e poetas, ou ganharam vida por meio de sua imaginação.

Da década de 1940 em diante, quando Drummond, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e outros já haviam se mudado de BH, as novas safras de escritores mineiros que foram surgindo, cada uma com seu olhar, como atesta Fabrício Marques, têm ajudado a fixar a cidade no mapa literário de Minas e do país. A essa conclusão ele chegou depois de ter ido a campo, lido dezenas de livros sobre a cidade e realizado várias entrevistas. “Estive em São Paulo, conversando com Ivan Angelo; semana que vem irei ao Rio ver Wilson Figueiredo. Só preciso conversar com mais algumas pessoas para fechar o texto”, diz. 
 
Novas gerações 
 
Se o Viaduto Santa Tereza, o Bar do Ponto, na Rua da Bahia, e outros locais foram emblemáticos para Drummond e sua turma, já a partir dos anos de 1960, os bares do Edifício Maletta, na Avenida Augusto de Lima, e o Suplemento literário do Minas Gerais, criado por Murilo Rubião, também cumpriram seus papéis.
 
Para Humberto Werneck, um dos pupilos de Rubião, o suplemento era, antes de tudo, ponto de encontro. “Encontro literário, nas páginas do jornal, e encontro humano, riquíssimo, na pequena redação, no prédio da Imprensa Oficial, como janela aberta para o mundo, ou melhor, para a Avenida Augusto de Lima”, lembra Werneck. Os escritores Sebastião Nunes e Jaime Prado Gouvêa, que também fizeram parte da chamada Geração Suplemento, concordam com ele, assim como Paulinho Assunção. 
 
Nascido em São Gotardo, no Triângulo Mineiro, Paulinho Assunção conta que, certa vez, na redação do suplemento, o poeta Joaquim Branco, de Cataguases (Zona da Mata), teria dito que a palavra havia acabado. Ao que Adão Ventura, que também era cria da casa, respondeu: “Uai, Joaquim, se a palavra acabou, então você poderia me dar de presente sua máquina de escrever”. Se Ventura ganhou ou não a máquina, Paulinho não sabe. Mas, depois, todos foram tomar cerveja no Maletta, que ficava próximo do jornal, atualmente na Avenida João Pinheiro. 
 
Fabrício Marques diz que, se até a geração de Drummond, BH só era retratada literariamente no seu miolo – com exceção para Cyro dos Anjos, em Amanuense Belmiro, que falou da Rua Erê, no Prado e poucos outros –, da década de 1960 pra cá esse olhar começou a mudar.
 
Para isso contribuíram muito cronistas dos jornais da cidade como Roberto Drummond, com sua “paixão” pela Savassi, e alguns mais – como Alécio Cunha –, que passaram a retratar bairros e outros lugares além Centro.
 
“Manoel Lobato falando do Sagrada Família; Libério Neves de Santa Tereza; e Wander Piroli da Lagoinha também contribuíram para essa descentralização literária de BH”, diz.  
Tradição esta, segundo Fabrício, que prossegue com a nova geração, que com frequência, sobretudo em lançamentos de livros, vem se reunindo não mais nos bares do Maletta, mas sobretudo nas livrarias da Savassi, como a Ouvidor, a Quixote, a Mineiriana e a Scriptum. Nelas, é possível encontrar, nos sábados pela manhã, autores como Ana Martins Marques, Bruno Brum, Claudio Nunes de Morais, Jovino Machado, Mônica de Aquino, Mário Allex Rosa e Simone Andrade Neves, que, com os olhos de hoje, vêm deixando seus testemunhos sobre BH.
 
Como o poeta Ricardo Aleixo, que escreveu, talvez num momento de desencanto: “Cidade grande-sertão/ arrisco uma profecia: /mais dia/ ou menos dia/ sumirás dentro do chão”. 


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