Concursos literários se tornam selos de qualidade para novos escritores

Escritores e especialistas avaliam a importância dos prêmios literários brasileiros

por Carolina Braga 02/09/2012 09:52

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Moises Silva/EM
(foto: Moises Silva/EM)

Quem vive na pele as agruras do mundo editorial não nega que a distribuição continua sendo um problema no mercado brasileiro. Mas, convenhamos, dar vida a uma obra literária, nos dias de hoje, é incomparavelmente mais fácil do que no século passado. Porém, as possibilidades dilatadas têm suas consequências. Como saber o que é bom ou ruim diante de tanta oferta? Há quem diga que os prêmios funcionam como cartão de visitas, mas, ainda assim, surgem questões. Afinal, em um tempo em que todo mundo publica, para que serve um concurso literário?

“A vantagem é ser uma ferramenta com a qual podemos tentar distinguir o joio do trigo, na medida em que o mercado editorial brasileiro cresceu muito”, afirma João Pombo Barile, coordenador do Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura. “O prêmio ajuda a qualificar esse conjunto de informações. São pessoas renomadas que se debruçam para selecionar aqueles textos. São trabalhos que, de certa forma, são singulares”, completa Adriana Cybele Ferrari, coordenadora do Prêmio São Paulo de Literatura, um dos mais cobiçados do país.

Para quem está do outro lado da linha, mais que ser considerado trigo em meio ao joio, a vitória em um concurso pode ser um empurrão. “Estamos, sim, em um tempo em que todo mundo publica. Melhor: em que tudo se publica, exatamente ‘tudo’, entretanto, literatura de proposta, literatura de inquietação, literatura de ‘desassossego’, essa não encontra boa acolhida. Grandes autores só conseguem publicar por meio de parcerias, isto é, pondo alguma grana na edição do livro. Concursos literários servem para divulgar nomes novos ou remunerar um tempo de produção para quem já não é novo”, resume Jeter Jaci Neves.

O escritor e professor venceu com o romance Vila vermelho o Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura no ano passado. Além do montante de R$ 25 mil para a conclusão da obra, graças ao reconhecimento pôde avaliar propostas para publicação. “Finalmente tenho o aceite de um grande editor, espero ver o romance editado no próximo ano. Neste caso, o prêmio teve um peso significativo na decisão da editora”, revela.

Se não tivesse vencido a categoria reservada aos jovens escritores no ano passado, André Zambaldi provavelmente já teria cortado a literatura da vida dele. “Estava praticamente desistindo. Levei três anos para ganhar e foi no limite da minha idade”, conta André Zambaldi, selecionado com o romance O sono de Morpheu. O prêmio, no valor de R$ 42 mil, garantiu a ele seis meses de dedicação exclusiva ao projeto.

“Mudou tudo para mim. Literatura requer investimento. Tem que fazer todos os dias. Agora sei que posso investir nisso o resto da minha vida”, diz. E o jovem de 27 anos não perde mais tempo. “Depois que ganhei comecei a prestar atenção nesse mercado da literatura. Sempre estou olhando outros concursos. Vou investir meu tempo e criatividade nisso”, revela.

Para André, além da quantia em dinheiro, as disputas servem de motivação. “Depois que terminei O sono de Morpheu já comecei a escrever alguns contos para um concurso no Nordeste”, adianta. Os números comprovam o hábito criado pelo escritor. Em quatro edições (2008, 2009, 2010 e 2011), o Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura teve 3.682 inscritos em três categorias. “Tudo no Brasil cresceu, mas isso não quer dizer que o aumento quantitativo tenha alguma implicação na qualidade”, observa João Barile.

Vez dos pequenos

Para aqueles que procuram concursos literários de menor porte, uma dica é consultar o site www.concursosliterarios.com.br. Mantido pelo portal Amigos do Livro, traz uma lista atualizada com inscrições abertas para prêmios no país inteiro. Outra opção é o blog concursos-literarios.blogspot.com.br, que traz informações filtradas por ano e também por mês.

FIQUE LIGADO

» Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura
Inscrições abertas até 30 de setembro. Serão distribuídos R$ 212 mil para as categorias conjunto da obra; poesia; ficção e jovem escritor mineiro. Foi criado em 2007 e destina-se somente para autores nascidos ou residentes em Minas Gerais há pelo menos cinco anos. www.cultura.mg.gov.br/premio-governo-de-minas-gerais-de-literatura

» Prêmio Cidade Belo Horizonte e João de Barro
Criados em 1947 e 1974, os concursos literários João de Barro e Cidade de Belo Horizonte foram realizados até 2009. Em 2010, passaram por um processo de revisão e modernização. Em 2011, foi retomado o João de Barro, já em nova fase, e, em 2012, de acordo com a Fundação Municipal de Cultura, será retomado o Prêmio Cidade de Belo Horizonte.

» Prêmio SESC de Literatura
Inscrições abertas até 30 de setembro. Vai premiar textos inéditos nas categorias conto e romance de escritores brasileiros ou estrangeiros residentes no país. Os vencedores terão as obras publicadas e distribuídas pela Editora Record, com uma tiragem inicial de 2 mil exemplares. Informações: www.sesc.com.br/premiosesc/
edital.html

» Prêmio São Paulo de Literatura
Criado em 2008, está entre os prêmios literários de maior visibilidade no país graças ao valor concedido. São apenas duas categorias, melhor livro do ano e melhor livro do ano de autor estreante. Cada um recebe o montante de R$ 200 mil. O anúncio dos vencedores será em setembro. Informações: www.premiosaopaulodeliteratura.org.br

» Prêmio Portugal Telecom de Literatura
Inscrições encerradas em março. Com prêmios de até R$ 100 mil, é destinado a livros já publicados no Brasil no ano anterior. São agraciadas obras nas categorias romance, conto, poesia, crônica, dramaturgia e autobiografia. Informações: www.premioportugaltelecom.com.br

» Prêmio Jabuti
Inscrições encerradas em maio. Promovido pela Câmara Brasileira do Livro desde 1959, é o mais antigo e o mais polêmico da área. Inclui categorias como ilustração, capa, além de diversos gêneros literários e técnicos. Também destinado a obras publicadas no ano anterior. Informações: www.cbl.org.br/jabuti/telas/regulamento

Bússola subjetiva

Veterano em premiações, o escritor mineiro Luiz Ruffato já perdeu o romantismo em relação a distinções, envolvam dinheiro ou não. “Concursos e prêmios são importantes, porque fazem parte da vida literária. Esse tipo de evento acaba fomentando a circulação de pessoas e ideias. Agora, achar que prêmio é garantidor de qualidade é uma bobagem”, afirma.

Finalista este ano dos prêmios São Paulo de Literatura e Portugal Telecom com o romance Domingos sem Deus (Record), Ruffato prefere acreditar em equação bem mais banal. “Premiação significa apenas o seguinte: naquele momento, as pessoas do júri acharam que seu livro é legal. São prêmios do mercado e não fomentam qualidade”, observa ele, que, aliás, já foi jurado diversas vezes.

No fim das contas, a aposta em um ou outro escritor passa pela subjetividade. Mas a tarefa de julgar é árdua. “Sempre fica a dúvida: será que esse resultado é justo? Há um embate interno desgastante. Não sei até que ponto temos condições de sempre eleger o melhor”, afirma outra jurada, a escritora Maria Esther Maciel, professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

Para minimizar conflitos pessoais, ela procura se reger por parâmetros relacionados à qualidade literária, ao trabalho com a linguagem e à originalidade. “Arrolo alguns critérios para poder me nortear, mas eles acabam entrando nesse registro da subjetividade”, explica. Em prêmios e concursos, tornou-se comum a reunião final de jurados para cada um defender seu ponto de vista.

Luiz Ruffato acha que o objetivo de eleger o melhor não passa de utopia. “Ao ler uma quantidade grande de livros, não é possível dizer que esse é melhor do que aquele, mesmo cientificamente. Você pode dizer que gosta mais de um por tais razões, e outra pessoa argumentar que prefere outro”, lembra.

Coordenador do Prêmio Governo Minas Gerais de Literatura, o jornalista João Barile avisa: “Por mais que se diga que há critérios objetivos, o gosto tem sempre imensa variável subjetiva. Procuro convidar pessoas que não adotem aquele comportamento de ‘panela’”. Apesar de frisar o papel da subjetividade, ele não tem dúvidas: “A principal função desse tipo de prêmio é tentar ser uma bússola”.

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