Curador de Inhotim será responsável por espaço da Serpentine Gallery em Londres

por Walter Sebastião 19/08/2012 10:23

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Daniela Paoliello/Divulgação
Para Jochen Volz, alemão radicado em Belo Horizonte, o Centro de Arte Inhotim quebra preconceito sobre arte contemporânea, considerada elitista (foto: Daniela Paoliello/Divulgação)

Um alemão radicado em Belo Horizonte vai dirigir a nova galeria dedicada à arte do século 21 em Londres: Jochen Volz, de 41 anos. Um dos curadores do Centro de Arte Inhotim, ele foi convidado para ser o curador chefe do espaço da Serpentine Gallery, local dedicado à arte moderna e contemporânea, que recebe, por ano, cerca de 800 mil visitantes. Avisa que não vai se afastar da casa que o consagrou e fala com carinho de Belo Horizonte. “Morei mais anos aqui do em qualquer outro lugar na minha vida”, observa. “Foi na cidade que me casei, tive dois filhos maravilhosos, fiz amigos muito especiais e consegui ajudar na construção de uma instituição que ganhou importância mundial”, acrescenta o marido da artista plástica Rivane Neueschenwander.

“O Brasil é um país com muitos artistas contemporâneos com os quais tive o privilégio de aprender muito”, afirma Jochen Volz, que vive e trabalha em BH desde 2004. Começou suas atividades profissionais em 2001, em galeria praticamente alternativa de Frankfurt, Alemanha: a Portikus, que se tornou espaço respeitado pelo trabalho com artistas novos e programação ousada. Foi diretor-geral, entre 2005 e 2007, de Inhotim e da equipe de curadores (com Allan Schwartzman, Rodrigo Moura, Júlia Rebouças), além de cocurador da Bienal de Veneza (2009). “A qualidade da arte não tem a ver com escala”, afirma, falando do que aprendeu atuando em espaços minúsculos e gigantescos.

Sobre Inhotim, Jochen recorda que é ideia do empresário Bernardo Paz que surgiu de conversa com artistas (“Tunga, no fim dos anos 1990, e Olafur Eliasson, a partir de 2005, entre outros”) a qual os curadores deram forma, estabelecendo conceitos, estratégias e um modo de trabalhar com arte. Que responde “ao maior desafio”, continua, posto aos museus: as limitações espaciais. “Espaço físico nas cidades é muito caro. E isso torna inviável a montagem permanente de grande quantidade de obras. Em Inhotim, criamos condições que permitem que obras complexas possam ser exibidas em salas e galerias especialmente desenhadas, em caráter permanente ou pelo menos com outra temporalidade”, orgulha-se. Confira trechos da entrevista do curador ao Estado de Minas.

O que faz a força e a beleza da arte contemporânea brasileira?
O motivo da minha aproximação com a arte brasileira sempre foi a arte em si, para além de questões de nacionalidade. Bons trabalhos são aqueles nos quais você reconhece uma questão, uma investigação com a qual compartilha. Admiro o pensamento menos linear ou menos quadrado, mais espiral. Gosto de arte e acredito na sua força transformadora. Acho que o estúdio do artista é um lugar de experimentação e reflexão crítica, da falha e da aprendizagem, de inovação. E de resistência. É lugar longe do pragmatismo que, cada vez mais, domina nosso mundo.

Qual é o papel do curador?
Arte é feita por artistas, e não por curadores. É atividade que se tornou complexa com a crescente profissionalização do mundo da arte, o número ascendente de bienais, as galerias comerciais assumindo responsabilidades que foram missões de museus e o poder dominante do patrocínio cultural corporativo. Curadoria hoje não significa apenas reunir obras em mostra, mas definir e defender um campo de expressão da liberdade artística. Isso inclui, às vezes, angariar fundos, identificar a localização ideal para um projeto dentro ou fora da instituição. Gosto de pensar que um curador ideal atua como um cúmplice, mas, essencialmente, o papel-chave continua com o artista.

Como vê o contexto de arte hoje no mundo?

Nos últimos 20 anos, artistas, obras, público e informações viajaram mais e mais rápido pelo mundo. Isso fez com que a divisão bipolar centro e periferia se dissolvesse. Embora cidades como Nova York, Londres ou Berlim ainda sejam atualmente centros ultraconcentrados de produção artística, a história eurocêntrica ou norte-americana da arte não se sustenta da mesma forma que há algumas décadas. Hoje, não é mais possível contar a história da arte de maneira simplista e linear. Em Inhotim, por exemplo, estamos interessados em diálogos entre obras e autores distintos, não numa narrativa cronológica.

Você tem alguma definição de arte?
A arte contemporânea é sempre concebida e realizada a partir de uma série de questões e incertezas do próprio artista. Como espectadores, experimentamos, por meio de algumas obras, a fabulosa sensação de reconhecer essas questões dentro de nós. Em outros casos, temos uma sensação tardia ou inexistente. Um ponto interessante é: se acreditamos verdadeiramente na arte, não devemos pensar também em novas formas de multiplicar métodos de aplicar a arte na vida das pessoas?

O que, no projeto Inhotim, lhe dá muita satisfação?
É ter participado na criação de instituição que, de fato, modificou a vida e as perspectivas de vida dos jovens da nossa vizinhança. Observar isso, depois de oito anos de trabalho educativo a partir dos acervos, me dá muita alegria. Meu papel, quando fui diretor, foi trabalhar na formação de corpo técnico e administrativo que desenvolve programas e atua na sociedade. Inhotim é um projeto de vida, sei que ainda tenho muito mais a dar. Mas entendo também que é importante ganhar outras experiências fora da instituição e do Brasil, que futuramente podem ajudar Inhotim a fortalecer seu lugar único no cenário internacional de instituições de cultura, educação e ciências.
 
Como vê o encanto do público por obras consideradas difíceis?
Inhotim quebra preconceito sobre arte contemporânea, que diz que ela é elitista, por cobrar leitura para ser entendida. Nosso público demonstra o contrário. Encontramos e desenvolvemos forma de expor arte que vive da experiência do espectador. Subindo e descendo morros, caminhando por mata e em volta de lagos, entrando e tocando em obras, se perdendo no parque, ele encontra caminhos e obras por conta própria. Isso torna o espectador parte ativa na construção da obra. Todos os sentidos são envolvidos. Não há necessidade de saber muito sobre trajetória de um artista para viver experiência frente à obra exposta em floresta de eucaliptos. Sensibilizado pelo passeio, quase todo visitante encontra aspecto na obra que se torna relevante num sentido muito pessoal.

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Nova diretora

Quem assume a Diretoria de Arte e Programação de Inhotim é a coreana Eungie Joo. Ela atuou como diretora de programas educativos e públicos do New Museum, casa dedicada à arte contemporânea de Nova York (EUA). Para Allan Schwartzman, curador chefe de Inhotim, a experiência organizacional e “a singular perspectiva curatorial de Eungie” fazem dela colaboradora ideal para instituição que tem forma muito específica de colecionar e apresentar a arte. A curadora tem doutorado em estudos étnicos, na Universidade da Califórnia, de Berkeley (EUA).

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