Nélida Piñon relembra fatos marcantes de sua vida em Livro das horas

No volume de memórias marcado por sóbria simplicidade, ela conta casos de amigos, das famílias e do cão, Gravetinho

por Carlos Herculano Lopes 03/08/2012 10:27

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Victor Fraile/Reuters
A romancista Nélida Piñon tem orgulho de relembrar sua participação na luta contra a ditadura militar na década de 1970 (foto: Victor Fraile/Reuters )
 
Desde a estreia na literatura com o romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, em 1961, a carioca Nélida Piñon foi construindo a carreira que fez dela uma das mais celebradas escritoras do país. Com livros publicados em diversas línguas, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual foi presidente, e conferencista brilhante, ela costuma arrebatar o público pela elegância e erudição de sua fala. Nélida tem histórias para contar. Muitas delas – como se estivesse tomando o famoso chá com seus pares na ABL, batendo papo com os amigos ou em alguma de suas palestras pelo país – podem ser conhecidas em Livro das horas, que acaba de chegar às lojas. 
Longe de ser um volume de memórias convencional, desses que o escritor costuma lançar quando a veia ficcional ou poética dá sinais de esgotamento, Livro das horas nos leva a percorrer caminhos nos quais a erudição, aliada à simplicidade sóbria e ao tom confessional, tem o poder de encantar. Logo no primeiro capítulo, com sinceridade desconcertante, Nélida avisa: “Não sou forte nem poderosa. Tampouco estou na flor dos 20 anos. Não faz falta enaltecer o meu retrato que a mãe Carmem outrora pendurou em seu quarto antes de morrer, com a intenção de eternizar a juventude da filha na sua retina... A cada dia aprendo a amar. A família, os amigos, as línguas, as instâncias da vida e da arte”.
 Do seu apartamento na Lagoa, no Rio de Janeiro – onde mora há muitos anos com Gravetinho, cão esperto ao qual dedica grande carinho, como deixa transparecer nas memórias, e a garantia de sobrevida confortável, expressa em testamento –, Nélida Piñon vai nos abrindo as portas da casa e do coração. Chama de “galante e misterioso” o pai, o imigrante galego Lino Piñon Muiños, que teve papel fundamental em sua formação. A mãe, Carmem, “regia o cotidiano com harmonia”. Com ela, a romancista aprendeu a ser sóbria. 
DITADURA Sem citar muitos nomes e se atendo sobretudo aos fatos, Nélida conta as viagens que fez nos anos 1970, em plena ditadura militar, para lançar livros e falar em universidades. Era uma forma de dizer não ao regime. “Levava mochila nas costas, dormia em pensão paga pelos estudantes”, escreve. Ela recorda o Manifesto dos Intelectuais, o primeiro documento da sociedade civil a reclamar da censura e reivindicar liberdades democráticas. 
Redigido no Rio de Janeiro, em 1977, nas casas de Laura e Cícero Sandroni e de Ednalva e José Louzeiro, o documento foi entregue no Ministério da Justiça, em Brasília, com a presença de Nélida. Daquele momento histórico também participaram Lygia Fagundes Telles, Hélio Silva e o mineiro Jeferson de Andrade – substituto de Murilo Rubião, obrigado a cancelar o compromisso na última hora.
 Também são narradas com carinho as viagens à Galícia, de onde veio a família de Nélida, e a Nova York, cidade da qual ela fala com grande intimidade. A autora relembra visitas a São Lourenço, no Sul de Minas, a convite do avô Daniel, e à casa em Teresópolis. Descreve de maneira hilariante um passeio pelo Rio Araguaia: os anfitriões, só por diversão, “instalaram” um pequeno jacaré à frente de seu bangalô. Mas a escritora, armando-se de coragem, não se fez de rogada. Deu meia volta, pegou a máquina fotográfica e clicou o “vizinho”. 
Se Nélida abre o coração para falar das viagens, fecha-se ao relembrar casos amorosos. “Não vim ao mundo para expor a natureza do meu amor e a quem amei. Sou zelosa guardando nomes e circunstâncias, enaltecendo a imorredoura liberdade”, avisa. Diz que os amigos devem confiar nela, pois sabe dar-lhes provas de lealdade e não trair segredos: “Burlo com eles dizendo que sei muito, e de muitos, porque não conto”. 
CLARICE Viagens e amores à parte, a autora de Vozes do deserto recebeu o Prêmio Príncipe de Astúrias, em 2005, na Espanha. Em suas memórias, Nélida Piñon não é muito de falar dos outros escritores, talvez por conhecer segredos e estranhamentos dos colegas. No entanto, abriu duas exceções especiais: ao poeta Bruno Tolentino, “belo na juventude, brilhante e atrevido”, e a Clarice Lispector, de quem se tornou amiga para a vida toda, a partir de 1961, quando lançou Guia-mapa de Gabriel Arcanjo. Naquela época, também começou sua amizade com a romancista Maria Alice Barroso.
Da autora de A maçã do escuro, Nélida conta muitas histórias. Às vezes, as duas iam a um subúrbio carioca consultar a cartomante Nadir, em quem Clarice Lispector acreditava muito. Mesmo de família judia, a amiga se interessava pelo Novo Testamento e pela religião católica. Inclusive, revelou a Olga Borelli que gostaria de ser enterrada como cristã, dando provas de sua conversão.
Depois da morte de Clarice, em 9 de dezembro de 1977, Nélida ouviu a revelação da própria Olga. Criou-se certo impasse. “O tom grave convocava-me a falarmos com a família sobre delicado tema... Custei a recuperar-me. Firme, exigi silêncio a respeito, o assunto devia ficar entre nós. Argumentei ainda que se Clarice pretendesse sepultura e cerimônias cristãs, teria registrado sua vontade em algum documento válido”. Como isso não ocorreu, Nélida observa que sua ponderação acabou prevalecendo. 
Depois da morte de Clarice, a amiga se recusou, durante anos, a falar sobre ela, “embora constate os equívocos biográficos cometidos sobre essa genial escritora”. Com carinho, guarda o quadro Madeira feita cruz, que Clarice pintou em homenagem a seu romance publicado em 1963. “Tenho-o em minha casa e a pintura esmaeceu com os anos. Ao passar por ele no corredor, entristeço-me com sua morte. Clarice me faz falta, dói-me falar nela. Sua amizade me fez crescer”, confessa a autora de Livro das horas.
 
Terminada a leitura das memórias, fica a sensação de que se em vários momentos Nélida foi pródiga em compartilhar sua intimidade, em outros dá aula de erudição e conhecimento. O leitor sai engrandecido dessa experiência.
 
Pouco sei do outro, mesmo tratando-se de um membro da família. Como reles testemunha da realidade, mal distingo quem chora de quem simula falsa alegria.”
“Às vezes, sou estrangeira, chegada de longe. Vítima de um estranhamento que devo à família de imigrante, de quem herdei, mesmo contra a vontade deles, destino errante.”
“Envelheço. Acompanham-me esparsas memórias e certa nostalgia provinda da dificuldade de me enamorar. A vida, no campo afetivo, é atualmente um mero esboço povoado de agruras e regozijos.”
“Jamais procurei um escritor no meu período de formação. Sabia onde moravam, mas respeitava-lhes a carne e os ossos. Preferia-os distantes de mim, da imaginação 
que seus livros 
me suscitavam.”
“Gravetinho é uma alegria. Admito em público meu amor por ele. Temo que, se não fora eu, talvez estivesse destinado a sofrer os horrores que os humanos reservam 
aos animais. 
 
Livro das horas
. De Nélida Piñon
. Editora Record, 208 páginas, 
. R$ 39,90.


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