Filme de Paulo Morelli sobre Pedro Malasartes estreia em 340 salas

'Malasartes - E o duelo com a Morte' conta com efeitos especiais e elenco de estrelas; cineasta aposta no anti-herói espertalhão e de bom coração

por Helvécio Carlos 10/08/2017 08:30

O2 play/Divulgação
O ator Jesuíta Barbosa nem tinha nascido quando o projeto do filme começou a ser realizado. (foto: O2 play/Divulgação)

Tudo em Malasartes – E o duelo com a Morte, que estreia nesta quinta-feira, 10, é superlativo. Dirigido por Paulo Morelli, o longa demorou 30 anos para sair do papel, custou R$ 13 milhões (R$ 4,5 milhões investidos na pós-produção), tem 600 cenas com algum efeito especial e chega a 340 salas. ''É um lançamento ousado neste momento do cinema brasileiro, em que nenhuma produção atingiu 1 milhão de espectadores. Por isso, não tenho expectativa em relação à bilheteria'', afirma Morelli.

Fã confesso de Pedro Malasartes, o diretor descobriu o personagem nos anos 1980, ao pesquisar o folclore brasileiro. Na mesma época, deparou-se com a história do espertalhão que engana a morte girando a cama de um moribundo, tradição do Leste Europeu. Não deu outra: juntou os dois em uma comédia só.

''Malasartes é um cara extremamente brasileiro, tem esse improviso do dia a dia. Dá golpes e engana, mas tem bom coração. Ele é enganador, mas não é um canalha'', pondera Morelli. Nos anos 1980, em sua produtora Olhar Eletrônico, o diretor chegou a escrever um episódio para um programa de TV, mas o projeto não saiu do papel. ''Minha vontade, mesmo, era fazer um longa com ele'', afirma.

Dez anos depois, Morelli voltou ao projeto. Reescreveu o roteiro para cinema, mas as filmagens só foram realizadas em 2015, entre Jaguariúna, interior de São Paulo, e os estúdios da produtora 02, na capital paulista. Foram necessários dois anos de pós-produção até o longa ficar pronto.

''Fico feliz por essa demora. Por dois motivos: surgiu a tecnologia e esperei o Jesuíta (Barbosa) nascer. Ele é um Malasartes perfeito'', elogia o cineasta, referindo-se ao ator pernambucano nascido em 1991. ''Já tinha visto Jesuíta em papéis dramáticos, nunca em comédia. Como um bom ator é um bom ator, apostamos nele, que acertou no papel. Ele inventou até um jeito de andar'', diz.

BABAYA Não foi só o talento do ator que deu vida a Malasartes. Morelli destaca a participação da mineira Babaya, cantora e preparadora vocal. ''Ela fez um trabalho sensacional com o elenco, treinando todos no registro vocal do caipira de Minas. O Jesuíta, que nasceu em Pernambuco e morou em Fortaleza, conseguiu mudar o sotaque para alcançar o registro proposto por Babaya'', diz Morelli.

Usar a tecnologia não estava nos planos. Até porque, quando a ideia do filme surgiu não existia o aparato disponível atualmente. Na década de 1980, Morelli via a cena das velas (uma das que mais exigiram pós-produção) como algo simples, mais teatral. ''Agora, com toda essa tecnologia, por que não mergulhar a fundo?'', comenta, satisfeito com o resultado. ''Porém, gosto mesmo é do personagem, das nuances brasileiras que ele tem'', reforça.

Malasartes tem que driblar Morte (Julio Andrade). Cansado do ''ofício'', ele quer passar para o anti-herói a função de despachar as pessoas para o além. No meio da confusão, Malasartes dá pequenos golpes e precisa se virar para pagar a dívida com Próspero (Milhem Cortaz), irmão de sua amada Áurea (Isis Valverde).

''A liberdade é o tema principal dessa história, que tem o aprisionamento como oposto dramático. Todos os elementos da história lidam com liberdade e aprisionamento físico, seja emocional ou do destino'', conclui Morelli.

DA EUROPA AO BRASIL Presença rara no audiovisual, a cultura popular serve de fonte de inspiração para Malasartes – E o duelo com a Morte. O longa resgata a tradicional figura da literatura ibero-americana caracterizada pela esperteza e sagacidade, atributos nem sempre utilizados de forma escrupulosa. As primeiras menções ao personagem datam do século 13, em contos populares de Portugal e da Europa. Pedro Malasartes foi assimilado no Brasil via tradição oral e por outros meios. Na música, inspirou óperas escritas por Graça Aranha e Mario de Andrade. Na literatura, chamou a atenção de Luís da Câmara Cascudo e Maria Clara Machado, entre outros autores. No cinema, a incursão mais conhecida se deve a Mazzaropi, no longa As aventuras de Pedro Malazartes (foto), lançado em 1960.

 

''BRIGO PELO MEU SOTAQUE''A figura do palhaço inspirou o pernambucano Jesuíta Barbosa, de 26 anos, a construir o seu Malasartes. Outras personagens do imaginário popular brasileiro, como os brincantes papangus e caretas, também influenciaram o ator. Ele critica a neutralização de sotaques, principalmente na TV.


Mazzaropi foi uma inspiração?
Assisti ao filme de Mazzaropi, mas não me detive a imitá-lo. Ele é uma grande referência, claro, em todos os sentidos. É um homem que fez cinema, produzia e atuava. Acho que (o novo filme) se assemelha ao de Mazzaropi, porque nos dois o Malasartes tem uma doçura, enquanto na literatura ele aparece de forma mais diabólica.

Você está habituado a papéis dramáticos. Como se preparou para uma comédia? Houve preocupação em não ser caricato?
A caricatura é um lugar interessante, em que você transborda as possibilidades de atuação. A comédia está no ridículo e a caricatura é uma referência. Então, não nego esse lugar caricato – ele, às vezes, pode entrar. O drama tem um tempo muito diferente. Para mim, foi mais difícil, por vir experimentado o cinema no drama, com tempo de silêncio muito maior, de pausa, de pensamento.

Quais foram as outras referências para compor o personagem?
Esse Malasartes é uma experimentação. Existem vários, não é o único. Teve o de Mazzaropi e vão vir outros. É um Malasartes que tem lugar (na figura) do palhaço. Ele é grande, é ridículo, e não tem medo de colocar para fora as expressões. Figuras do folclore são referência para Malasartes: Mateus, o nosso palhaço tradicional, que aparece no cavalo-marinho e no reisado; os caretas e os papangus, que são brincantes.


Visualmente, o filme parece ambientado no interior do Sudeste, mas há variedade de sotaques. Em alguns momentos, a trilha remete a ritmos nordestinos. Houve a tentativa de universalizar esse cenário? 
Malasartes tinha que se ambientar no Brasil, já que é uma figura ibero-americana tão icônica. A gente entendeu que o sotaque tinha que ser misturado. Não é problema. A gente criou uma cultura de defesa, cada estado se defende. Ou também a cultura de negar o sotaque, principalmente na TV, ou de neutralizar o sotaque. Isso é uma bobagem, pois essa é a nossa característica. Prezo e brigo pelo meu sotaque. É o que tenho, trabalho com isso. A minha constituição é esta: de fala, de expressão. Se vem uma pessoa pedindo para falar mais neutro, eu digo não. Seria diminuir a minha potência de expressão.


O cinema deveria abordar mais a cultura popular? 

Existe a massificação, a globalização se coloca de forma imperialista. A gente endeusa o cinema norte-americano, cheio de efeitos especiais. Embora tenha efeitos, Malasartes trata de cultura popular. Uma história que, falando francamente, estava sendo esquecida. O que é a cultura sem a memória? O que é um povo sem memória? A gente tem que fazer cada vez mais. Um filme sobre Mateus e Catirina, como seria? Existe essa cultura de colocar o cinema de Hollywood, industrial, em um lugar muito benquisto e as pessoas começam a negar o cinema brasileiro. São, principalmente, as pessoas que não assistem e não vivem o cinema nacional as que falam mal dele. Elas não entendem o que a gente faz. 

 

Abaixo, confira o trailer:

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