Gatos turcos ganham declaração de amor em forma de documentário

Filme da diretora Ceyda Torun sobre os felinos que vivem nas ruas de Istambul segue sete deles em suas perambulações pela capital da Turquia

por Silvana Arantes 20/07/2017 08:30

Espaço Filmes/Divulgação
Documentário chegou a ter 35 gatos selecionados como protagonistas. (foto: Espaço Filmes/Divulgação )

Há o aristocrata, que não perde a pose nem quando tem fome; o sedutor, que lança mão de seu charme para fazer com que portas se abram; a determinada, que assegura seu espaço, ao mesmo tempo em que mantém o companheiro em seu devido lugar – e as outras fêmeas distantes dele. E mais. No total, são sete os protagonistas de Gatos, primeiro documentário em longa-metragem dirigido pela turca radicada nos Estados Unidos Ceyda Torun, que estreia nesta quinta-feira, 20, em Belo Horizonte (na sala 2 do Cine Belas Artes).

Alternando seu ponto de vista entre os deslocamentos dos gatos que habitam as movimentadas ruas de Istambul, a capital da Turquia, e os depoimentos de pessoas que convivem rotineiramente com eles, sobretudo em seus locais de trabalho, nos quais recebem a ''visita'' dos animais, Gatos é o registro de um tipo singular de amor. Ou melhor, de vários tipos de amor, correspondidos em diferentes medidas, entre humanos e bichanos.

Na entrevista a seguir, feita por e-mail, a diretora Ceyda Torun fala sobre gatos e o seu filme. 

 

Como foi feita a pesquisa para definir que gatos seriam os ''personagens principais'' de seu filme e que critérios usou para selecionar os humanos que são entrevistados?
Primeiramente, fomos (Ceyda e o coprodutor e diretor de fotografia Charlie Wuppermann) a Istambul no verão de 2013 para ver que tipo de filme poderíamos fazer. Andamos por vários bairros da cidade e falamos com pessoas que víamos interagir com gatos. Foi aí que encontramos algumas das pessoas e gatos que estão no corte final do filme.


No ano seguinte, contratamos produtores que fizeram, durante três meses, o mesmo que havíamos feito – andar por todos os bairros e encontrar os personagens para ''histórias de gato''. Tínhamos personagens para 35 histórias quando começamos a filmar. Conseguimos reduzi-los a 19 nos três meses de filmagem, já que nem todos os gatos apareciam onde deveriam estar. Na montagem, ficamos com os sete que você vê no filme.


Nosso critério principal para encontrar os humanos foi que tipo de visão eles estavam aptos a oferecer sobre sua relação com os gatos. As ''pessoas comuns'' que encontramos nas ruas foram escolhidas por causa de seu conhecimento e de sua relação com um gato específico. Os ''especialistas'' que entrevistamos foram selecionados por causa de seu campo de atuação ou de seu trabalho. Ouvimos muitos artistas, músicos, filósofos e professores de todo tipo, que, por acaso, também são apaixonados por gatos, o que faz com que tenham uma abordagem singular a respeito deles.

Muitos entrevistados no filme expressam a ideia de que os gatos têm personalidade própria, assim como humanos. Mas muitas vezes percebe-se que eles mesmos projetam nos gatos características que admiram ou invejam. Um personagem chega a dizer que, diferentemente dos cães, os gatos têm consciência da existência de Deus. Qual é sua opinião sobre esse tema?

É claro que as pessoas atribuem aos gatos características que veem nelas mesmas ou que as desagradam. Fazemos isso com tudo ao nosso redor, inclusive quando escolhemos os nomes de nossos gatos. Mas acho que é isso que torna fascinante ouvir as pessoas falando sobre gatos. Esse processo nos permite não apenas conhecer melhor os outros, como também a nós mesmos. Também acho que a discrepância entre o que os gatos de fato são e o que as pessoas pensam que eles são diz muito sobre a limitação humana na compreensão do mundo.

Realmente, acredito que gatos, assim como todos os animais, têm personalidades individuais, quando você tem a chance de conhecê-los. É incrivelmente redutor supor que os gatos são apenas de um jeito ou de outro. Conheci gatos leais, que atendem quando são chamados pelo nome, que sabem como consolá-lo quando você está triste e gatos que são simplesmente nojentos!

Acho que admiramos os gatos em parte porque nós os manipulamos menos, diferentemente dos cães, cujas raças nós cruzamos há séculos. Os gatos estão mais próximos de sua condição genuína. É isso que faz parecer que eles têm consciência da existência de Deus. Eles não foram levados a adorar os homens. São completamente autossuficientes, capazes de cuidar de si mesmos sem nenhuma ajuda humana. Por isso o desejo deles de estar ao nosso lado é ultrarrecompensador, porque é uma escolha deles.

Embora os gatos sejam os protagonistas de seu filme, Istambul tem um papel importante. Registrar o modo como a cidade vem crescendo era sua intenção desde o início do projeto?
Sim, definitivamente. Eu queria explorar a maneira como a cidade está mudando, tanto quanto explorar essa relação antiga entre humanos e gatos. E queria mostrar a cidade de um jeito que nós nem sempre vemos em filmes internacionais ou mesmo em documentários. Há muito poucos documentários sobre Istambul feitos por turcos e, em geral, a cidade é mostrada de modo unidimensional – as mesmas cinco tomadas das mesquitas, da ponte, do mercado. Istambul é muito mais do que isso, e eu queria compartilhar esse lado da cidade com as pessoas e até relembrar os que vivem em Istambul da beleza que eles frequentemente estão ocupados demais para notar.

Ao falar sobre sua relação com gatos, muitos entrevistados mencionam aspectos da religião e da fé. Considerando o nível de incompreensão em torno do islamismo existente hoje nos EUA e em outros países, esse aspecto do documentário suscitou alguma preocupação em você?
De modo algum, mas isso ocorreu organicamente. Fiquei feliz de incluir referências ao islã e a Alá, uma palavra que não se costuma ouvir num sentido positivo nos dias de hoje. Contudo, esse é genuinamente um fator importante na atenção que as pessoas dispensam aos gatos na Turquia. Há diversas referências ao profeta Maomé e gatos – ele sendo salvo de uma serpente peçonhenta por um gato; a história de como sua gata adormeceu na barra de sua túnica e, quando ele teve que sair para rezar, cortou o tecido em volta dela para não acordá-la. É sempre um modo de se referir à compaixão e ao respeito pelo outro, que são uma parte muito importante dos ensinamentos do profeta.

No filme, você pergunta a alguns dos entrevistados se eles consideram os gatos ingratos. Você os vê assim?
De jeito nenhum! Eu nem sequer compreendo essa ideia da ingratidão dos gatos. Se vivemos com a expectativa de que nossas boas ações sejam retribuídas da mesma maneira, frequentemente ficamos desapontados. É muito melhor ser amoroso e generoso sem esperar nada em troca. Na verdade, a sensação de satisfação por ser amoroso já é a retribuição desse amor, antes de tudo.

Qual é seu próximo projeto?
Estamos trabalhando em dois – um longa de ficção na forma de um thriller sobrenatural sobre a questão de adotar um código moral na vida e um documentário sobre o sufismo e outras religiões ou vertentes místicas.

 

Abaixo, confira o trailer de Gatos:

 

 

 

 

 

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