Enrica Fico, viúva de Antonioni, fala sobre a obra do marido

Diretor planejou filmar na selva do Brasil, mas teve de adaptar o roteiro, que deu origem a' O passageiro - Profissão: repórter'

por Ricardo Daehn 02/07/2017 11:00
Enrica Fico dirigiu o longa Fare un film pour moi c'est vivre, sobre obra do marido
Reprodução/youtube (foto: Enrica Fico dirigiu o longa Fare un film pour moi c'est vivre, sobre obra do marido)

Austero, enigmático e assombroso. Apresentado desse modo na festa do Oscar em 1995, o diretor Michelangelo Antonioni foi aplaudido de pé por Quentin Tarantino, John Travolta, Susan Sarandon e Tom Hanks. Quem segurava o troféu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dado a ele era sua mulher, Enrica Fico, que serviu como intérprete para o mestre, que ainda sofria os efeitos do derrame ocorrido uma década antes. “É muito belo receber este prêmio, e tão mais bonito encontrar todo este amor. Às vezes, as palavras não são necessárias em decorrência justamente desse amor”, afirmou Enrica.


Uma década depois da morte de Antonioni (1912-2007), Enrica, de 63 anos, fala com carinho do legado do marido. “Ele transformou por completo a minha capacidade de enxergar”, resumiu a cineasta italiana. Fare un film pour moi c’est vivre, produção assinada por Enrica, aborda os bastidores de Além das nuvens (1999), derradeiro longa de Antonioni. Devido à frágil saúde, ele contou com o apoio precioso de Wim Wenders como eventual diretor substituto.

Entre os astros que dirigiu, o italiano tinha apreço especial por Jack Nicholson. O ator americano, certa ocasião, deu pistas para o desvendar do cinema do mestre. “Nos espaços vazios do silêncio no mundo, ele encontrou metáforas que iluminam o canto da mudez dos nossos corações”, ressaltou Nicholson. Os dois trabalharam juntos em O passageiro – Profissão: repórter (1975), com locações na Argélia, Alemanha, Espanha e Reino Unido.

ccbb/reprodução
Enrica Fico e Antonioni: parceria na vida e na arte (foto: ccbb/reprodução)
“Michelangelo nunca foi um turista. Caso fosse para algum lugar, era para estabelecer um enredo. Ele foi ao Brasil à cata de Technically sweet, filme ambientado na selva e que não pode realizar”, diz Enrica. “Antonioni adorava a resistência da força tanto das pessoas quanto da natureza no Brasil. Gostava da música, dos olhares típicos e da língua dos brasileiros. Tinha muito carinho pelo enredo de Technically sweet, mas, diante de impedimentos técnicos, teve que modificar o roteiro e realizar O passageiro – Profissão: repórter”, revela.

Qual foi a maior ambição de Antonioni? De que forma ele transformou a senhora?

A ambição dele era fazer filmes independentemente de compromissos ou acordos. Era um homem empenhado e tenso, que mantinha inabalável a visão devota de sua completa intuição. Claro que estava sustentado por curiosidade e por seu conhecimento. Era um intelectual muito refinado, mas sempre fez questão de ser chamado de artista intuitivo. Antonioni transformou por completo minha capacidade de enxergar, de ver para além das formas, de discernir o mais tênue dos temas, perseguir o mais sutil sentimento como uma forma de perseguir obsessivamente a sondagem da verdade.

Antonioni era devotado a público de elite? Ou gostava das plateias populares?
Ele sempre enfatizou que fazia filmes sem se importar com um público específico. Lembro-me dele vividamente dizendo: ‘Deveria fazer filmes para os japoneses ou para os espanhóis? O público é muito diversificado nos mais diferentes países. Não. Faço filmes para mim mesmo e tento dar a todos a maior beleza possível’.

Qe tipo de filme mais tocava o espírito de Antonioni no fim de sua vida? Ele ainda era espectador voraz?
Michelangelo ia praticamente todos os dias ao cinema, na maior parte das vezes descontente com o que havia visto. Ele era muito exigente. Não gostava, por nada, de toda a violência dos filmes americanos, pois ela confrontava a poesia e o talento dos grandes diretores.

Como ele reagia à falta de entendimento de seus filmes por parte do público?

Ele mantinha o compromisso com a verdade dele. Antonioni nunca abandonou sua própria produção, com ênfase em roteiros. Uma vez realizados, os filmes dele ultrapassavam uma década de entendimento. Ele mesmo assistia aos filmes surpreso, por vezes. ‘Que doido que fui neste!’, dizia.

Ao final da vida, ele era uma pessoa feliz?

Antonioni sempre foi desesperado, mas nunca abandonou a felicidade. Amava a vida demasiadamente, tinha tanto respeito por ela que jamais a viveria sem dignidade. E tentou, o quanto pode, ser feliz.

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