Um tio quase perfeito e uma comédia para toda a família

Em seu primeiro filme como protagonista, humorista Marcus Majella é um trambiqueiro com a missão de cuidar dos sobrinhos e tentar ganhar a vida de algum jeito

por Pedro Galvão 15/06/2017 09:47

H2O Filmes/Divulgação
Os atores mirins Sofia Barros e João Barreto dão uma força para o tio, que faz bico como estátua viva nas ruas (foto: H2O Filmes/Divulgação)
Marcus Majella, hoje com 38 anos, partiu para a carreira artística aos 23, quando saiu de Cabo Frio rumo à capital fluminense, onde se formou como ator pela Casa de Artes de Laranjeiras. Encarou os desafios e a falta de oportunidades que muitos profissionais da área conhecem bem. Quase desistiu. Um convite do amigo Paulo Gustavo (Minha mãe é uma peça) para ser contra-regra em uma peça o manteve na ativa e ele seguiu em frente.  Atualmente, é conhecido por vários trabalhos no humor, especialmente como Ferdinando, personagem que faz há cinco anos na sitcom Vai que cola, do Multishow.

 

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Hoje, chega aos cinemas seu mais novo personagem, o tio Tony, também aspirante a ator, mas que não teve a mesma sorte e acabou indo morar de favor na casa da irmã, mãe de três crianças. Na comédia, definida pela própria produção como um family film, ou seja, sobre família e para a família, sobra para o tio fanfarrão cuidar dos sobrinhos: uma de 6 anos, outra de 13, e um de 10, enquanto a mãe se ausenta. Uma trama familiar também para quem conhece alguns sucessos norte-americanos como Uma babá quase perfeita (1993), com Robin Williams, e O paizão (1999), com Adam Sandler.

 


Vagabundo 
A aventura vivida por Majella começa quando ele e a mãe, vivida por Ana Lúcia Torre, são despejados do apartamento onde viviam. O jeito é procurar a irmã Angela (Letícia Isnard), com quem tinham uma péssima relação, e garantir um teto por algumas noites. Acostumada a falar para os filhos que o tio é um vagabundo e a avó uma péssima influência, ela rechaça o pedido, mas acaba cedendo, com a condição de ser apenas uma noite. Aproveitando a ausência da dona da casa por duas semanas, a dupla logo dá um jeito de permanecer mais tempo. Coisa fácil para quem era acostumado a ganhar a vida enganando os outros com falsas pregações e sessões espirituais, ou fazendo bicos como estátua viva no centro da cidade. O difícil seria cuidar das crianças.

A proposta de Um tio quase perfeito, lançado às vésperas das férias escolares, é fazer toda a família rir da história de outra família. As piadas giram em torno da falta de jeito do tio com as crianças e do jeito malandrão “do bem” com que ele tenta resolver as situações: levar os meninos para a escola, ir a reuniões de pais com os professores, além de tentar arrumar algum dinheiro. Nada muito diferente de outras tramas parecidas. “Num drama é difícil saber o que as pessoas estão sentindo, na comédia, não. Ou a pessoa ri ou ela não ri, existem os esquetes e existem as histórias, nós estamos investindo em uma história”, define a produtora Mariza Leão, que assina seu trigésimo filme.

Para atingir a fórmula pretendida, foi preciso tirar o protagonista de seu lugar de conforto, que são os esquetes – além de Vai que cola, Majella também já fez Porta dos fundos e 220 volts –, e levá-lo para dinâmica cinematográfica. “Foram três meses para desconstruir o Ferdinando, abandonar os trejeitos e construir o Tony”, revela o ator, que já havia trabalhado em filmes, mas nunca em um papel principal como agora. “Quero que acreditem no tio Tony como acreditam no Ferdinando, mas sabendo que são personagens completamente diferentes.”


Desafio 
Quem comanda o projeto é Pedro Antônio. O jovem diretor carioca, filho do cineasta Paulo Thiago e da produtora Glaucia Camargos, já havia lançado o longa Tô ryca (2015) e realizado outras parcerias com Majella na TV, como Ferdinando show, no canal Multishow, derivado do Vai que cola. Se com a estrela principal ele já tinha um entrosamento, o grande desafio foi encontrar e dirigir três artistas iniciantes não apenas na profissão, mas na vida.

O diretor conta o processo: “Esses três geniozinhos são fruto de um processo muito louco. Fazendo o teste, eu queria três atores e é muito difícil falar isso para uma criança. A Sofia (Barros) está no mundo há seis anos, comecei a ficar muito preocupado, porque já tínhamos os adultos, mas a alma do filme era as crianças”.  João Barreto e Jullia Svacinna, os outros dois atores mirins, já estavam definidos. “Estava quase desistindo quando ela apareceu”, explica o diretor.

Sofia Barros, de apenas 6 anos, é Valentina, uma caçula no auge da fase dos “porquês”, que aparece segurando sua iguana de estimação em várias cenas, mas é extremamente carinhosa. João Barreto, de 10, vive um garoto com esse mesmo nome, muito enrolado com as notas na escola, enquanto Patrícia, personagem de Jullia Svacinna, é uma jovem inteligente, independente e atenta às malandragens do tio. “Aprendi muito com essas crianças. Na vida de adulto, com tantos trabalhos e tantos textos, a gente fica engessado. As crianças não têm isso, elas tem aquele frescor, aquele brilho no olhar de falar uma coisa pela primeira vez e este filme me deu a oportunidade de resgatar isso”, declara Marcus Majella sobre os colegas mirins.

Se esses três vivem a primeira experiência no cinema, o elenco conta também com a experiência de Ana Lúcia Torre e suas mais de três décadas de trabalhos no cinema e na TV, paralelamente à consolidada carreira no teatro. Ela interopreta Vó Cecília, uma senhora transgressora e trambiqueira, que aparece de forma coadjuvante na trama do filho com os netos. “A vó é mais criança que as crianças, me encantei com essa possibilidade por não ser uma comédia que termina na comédia, mas um filme sobre família que, em tempos tão extremos, dá uma lição sobre aceitar as diferenças”, afirma a atriz, que usa um figurino inspirado, segundo ela, em Rita Lee.

Além do humor leve, praticamente livre de piadas que reproduzam preconceitos contra minorias, ou sobre temas politicamente incorretos e impróprio para crianças, Um tio quase perfeito também oferece ao público a possibilidade de se emocionar. A situação cômica que guia a trama é permeada pelo pequeno drama de uma família desunida há anos e que consegue se reaproximar nesse processo. Roteiro comum em vários lares do país.



três perguntas para...

Marcus Majella
ator


Seus trabalhos humorísticos na TV e na internet, como Vai que cola, são muito populares e muito elogiados, mas a gente sabe que não é fácil levar o formato para o cinema. Como foi transportar seu carisma e talento para as telonas?

Tenho feito o Ferdinando já há cinco anos, as pessoas estão muito acostumados com ele, com os bordões. Meu desafio é que as pessoas acreditem no Tio Tony como acreditam no Ferdinando. Acho que a princípio vão estranhar, muita gente acha que está indo ver o filme do Ferdinando, mas vão ver outro cara e embarcar. Por isso fizemos um trabalho intenso de composição do personagem, para que ficasse real e as pessoas acreditassem nele.  Por isso, eu acho que está rolando, as pessoas estão falando que estão saindo comovidas do filme. Estou conseguindo tocar quem assiste. Esse, na verdade, é meu maior desafio.

O século 21 traz questões importantes quando falamos de humor. Não cabe mais hoje em dia o humor que víamos há décadas, que colocava as minorias como alvo da piada e reproduzia preconceitos. Como é fazer humor em tempos em que o empoderamento e a representatividade são questões tão importantes? Como o filme ajuda nesse processo?

Desde o começo, queríamos que fosse um filme para a família toda, para que todo mundo visse e gostasse, filho, avó, tio… então já foi um filme pensado para isso, roteiro preparado para que fosse um filme com zero preconceito a nada. É muito difícil fazer humor com todas as questões que a gente vive, mas temos que se adaptar, são novos tempos, é importante se preocupar que algumas pessoas estão se preocupando com certas coisas e não falar mais aquilo para não incomodar. Nesse caso a preocupação era para que as crianças gostassem do filme e também ser um filme que tocasse e emocionasse.

Em um momento do filme, na cena da peça de fim de ano na escola das crianças, você faz uma espécie de protesto, dizendo que está fazendo um papel que representa todos os artistas que fazem papel de árvore e de cenário. Você construiu sua carreira ao longo de muito tempo, estudou para isso, onde entra a história pessoal do Marcus nesse personagem que também é um ator?

Me identifico muito, ele é ator e eu também, já passei por todos esses perrengues que ele passa, teste de comercial eu fiz uns 700, nunca passei, já segurei amaciante dizendo “Fofíssimo, o amaciante mais fofo do mercado”, já fiz uns mil e nunca passei, já me vesti de mil coisas que não consigo nem listar. Vida de ator no início é muito difícil, a gente não consegue viver de teatro, e aí eu acabei trabalhando como contra regras, carregando cenário, que é uma profissão maravilhosa, hoje eu sou o ator que eu sou porque trabalhei nos bastidores, todo ator devia trabalhar, pelo menos um tempo, para aprender. Se você estar na mesa no palco, saber como foi ela colocada ali, a luz também, isso é muito importante. Já passei perrengues de não ter dinheiro para pagar as contas e o próprio Paulo Gustavo me ajudou quando eu estava quase desistindo de tudo e voltando para minha cidade. Trabalhei com ele e as coisas foram acontecendo, o Ian SBF me chamou para fazer o Anões em Chamas, que era um canal de humor muito antes do Porta dos fundos, depois vieram os testes no Multishow e o 220 volts, também com o Paulo (Gustavo), antes do Vai que cola, além do Porta (dos fundos).

 

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