Depois de anos de batalha no projeto, o diretor James Gray conclui Z, a cidade perdida

Filme narra a busca do coronel inglês Percy Fawcett por lugar mítico na Amazônia

04/06/2017 12:10
Imagem Filmes/divulgação
Os atores Robert Pattinson e Charlie Hunnam contracenam no filme sobre o explorador britânico que mergulhou na floresta brasileira no começo do século 20 (foto: Imagem Filmes/divulgação)

Quando esteve no Brasil para falar da próxima estreia do novo Homem-Aranha, Tom Holland comentou sobre sua experiência em Z – A cidade perdida. “O cara (o diretor James Gray) é louco, mas foi uma experiência seminal para mim. Filmar na selva pode ser muito difícil e desgastante, mas, se você quer tornar palpável o que, no fundo, é uma história de obsessão, tem de viver esse sentimento.” Tom Holland faz o filho de Charlie Hunnam, que interpreta o aventureiro Percy Fawcett.


Coronel do Exército inglês, Fawcett tem esse sonho de encontrar, na Amazônia, a cidade perdida de Z. Embrenha-se na selva. Durante anos vive esse inferno. Volta à Inglaterra e, a despeito do que para os outros é seu fracasso, resolve voltar. Dessa vez com o filho (Tom Holland). “Esse reencontro de pai e filho é uma coisa meio mítica. James brincava. Dizia que seus filmes anteriores já recriavam o inferno na Terra, mas ele dizia que nunca esperaria ter encontrado o inferno de verdade, e foi na Amazônia. Nunca vivi nada parecido. Você interage com a selva, não é o green screen de O Homem-Aranha”, esclareceu Holland.

Em Berlim, na coletiva, Charlie Hunnam disse que o papel como Fawcett foi sua “melhor oportunidade” (pelo menos antes de Rei Arthur). Robert Pattinson, que participa da expedição, disse que o filme pode ter sido um inferno para fazer, mas, como aventura, é real, comprometida mais com o humano do que com a fantasia. James Gray, mesmo relutante, definiu seu conceito de “inferno”. “Claro que não enfrentamos as mesmas condições de Fawcett, e o tempo todo sabíamos o que estávamos fazendo, um filme. Mas havia o calor insuportável, a umidade, os insetos, os crocodilos e as aranhas. Minha mulher visitou o set, e, mesmo assim, se assustou quando regressei. Estava com uma barba enorme e a cara de um Moisés louco. Face às dificuldades, não me restava outra coisa senão ficar 100% focado no filme. A sensação, para um diretor que também é cinéfilo, é que estava encontrando os heróis da minha infância.”

E que herói, ou heróis são esses? Indiana Jones? “Aguirre, a cólera dos deuses, que para mim é o maior filme de Werner Herzog, e Apocalypse now, embora seja outro contexto. É curioso que Hollywood tenha feito poucos filmes de aventura na América Latina. Temos Entre dois amores (de Sidney Pollack), que é um belo filme, mas racista na maneira de olhar o negro, o outro. Hollywood sedimentou esse tipo de visão ao longo do tempo. Não é a mesma coisa que com os latinos, embora também exista muito preconceito e, nesse momento (fevereiro), o presidente (Donald) Trump esteja falando em muro para isolar o México.”

Paixão

Gray, de qualquer maneira, sabe o filme que fez, ou quis fazer – “Como em tudo o que fiz antes, a família está no centro de Z – A cidade perdida. Fawcett e a mulher, o filho. É extraordinário que ele tenha tido uma mulher apaixonada como a personagem de Sienna Miller, que nunca deixou de honrar e procurar esse marido aventureiro. Se Z foi a obsessão de Fawcett, então pode-se dizer que ele foi a obsessão de sua mulher.”

Foram muitos anos para concretizar o filme. No meio do caminho, Gray desenvolveu outros projetos, sem nunca desistir de Z – A cidade perdida. “Perguntem à minha mulher, ela vai dizer que mudei muito entre o primeiro momento em que me interessei pelo tema e o filme concluído. Provavelmente, seria outro filme, se o tivesse feito anos atrás. Não sei nem se teria trabalhado com Darius (Khondji), que fez um trabalho brilhante de captação das cores e luzes da selva. O que sei é que, amadurecendo o projeto, fui percebendo cada vez mais a transcendência na busca de Fawcett.” Nesse sentido, o desfecho é magnífico. Um dos grandes filmes do ano.

Encontro na selva


Houve um momento em que Brad Pitt deveria interpretar o aventureiro Percy Fawcett em Z – A cidade perdida. Sua empresa, a Plan B, estava engajada no projeto, tudo parecia consolidado. No final, a Plan B permaneceu, mas não Pitt. Foi substituído por Charlie Hunnam, que, para falar a verdade, tem algo do physique du rôle do ex de Angelina Jolie. Ambos são loiros, atléticos. E têm essa ligação com Guy Ritchie. Brad Pitt interpretou Snatch – Porcos e diamantes. Charlie Hunnam é o rei Arthur, no longa ainda em cartaz.

Convencido da existência da cidade mítica, o coronel Fawcett, no início do século passado, se aventura pela Amazônia. Quando retorna à Inglaterra, sua expedição se torna alvo de chacota. Z não existe. É uma utopia. Mas ele insiste e volta com o filho. Separados durante muito tempo, pai e filho se reencontram na selva. E desaparecem. Quem conta a história é James Gray. Se você é cinéfilo, sabe quem é. Há um culto a James Gray, que se consolidou através de filmes como Os donos da noite, Amantes e A imigrante.

Em fevereiro, Z – A cidade perdida integrou a seleção do Festival de Berlim. Passou fora de concurso. Na coletiva, um relutante Gray terminou por admitir que foi o filme mais difícil que fez. “Mas não gostaria de enfatizar essas dificuldades. Não quero que algum espectador vá dizer: ‘Vamos ver por que o filme foi tão complicado’. Filmar na selva envolve condições extremas, tanto físicas quanto psicológicas. O importante é que o filme fale por si. Quantas pessoas gostam de Apocalypse now por que (Francis Ford) Coppola quase enlouqueceu na filmagem? Z conta a história da obsessão de um homem. Tornou-se uma obsessão para nós, também.”

A acolhida favorável da crítica a Z – A cidade perdida mostra que James Gray conseguiu pôr na tela essa obsessão. O filme, em cartaz nos cinemas, é uma grande aventura e um grande estudo de personagem. (Luiz Carlos Merten/Estadão Conteúdo)

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