Em Cannes, público vaia Netflix e aplaude o cineasta americano Noah Baumbach

Do glamour dos tempos áureos ao medo do terror, as mudanças de um dos mais importantes festivais de cinema

por Agência Estado 22/05/2017 07:43

 Efren Landaos/REX/Shutterstock
O cineasta americano Noah Baumbach foi aplaudido pelo filme 'The Meyerowitz Stories' (foto: Efren Landaos/REX/Shutterstock)

Algo mudou, e muito, na paisagem desse festival. Nos anos 1950, a Croisette e suas praias eram paraísos de starlettes seminuas, ou nuas, e uma certa Brigitte Bardot saltou do anonimato para a glória num biquíni de florzinhas. Agora, são soldados armados de metralhadoras que guardam a vizinhança do Palais. Cannes teme o terror, e com razão. No sábado à noite, um alarme de bomba retardou o início da sessão de Le Redoutable. Especialistas com cães farejadores fizeram a vistoria da Salle Debussy enquanto jornalistas do mundo todo aguardavam. No final, virou piada. A 'bomba' era o filme de Michel Hazanavicius sobre o romance de Jean-Luc Godard e Anne Wiazemsky no quadro do célebre Maio de 68.

 

Ontem, o público vaiou a Netflix e aplaudiu o cineasta americano Noah Baumbach no final da projeção de The Meyerowitz Stories. É um filme à Woody Allen, história de família, de artistas e financistas, de gente neurótica. E o elenco - quando você ia imaginar que Adam Sandler e Ben Stiller seriam tão bons quanto Dustin Hoffman, no papel do pai artista (e, como Godard) sem noção?

O filme é tão ruim assim? Para falar a verdade, a reconstituição do movimento nas ruas de Paris é impressionante. O problema é Godard, o personagem. É um porre. Quando o filme começa, Godard já está fazendo, com Anne, A Chinesa. Seu filme maoísta, revolucionário. Mas, nas assembleias de maio, os estudantes caem matando. Pequeno burguês narcisista de m... Godard só sabe falar na primeira pessoa. Eu, eu, eu. Você com certeza já ouviu falar em François Truffaut como o pequeno burguês da nouvelle vague. Há controvérsia. Talvez tenha sido Godard. Ciumento, ele inferniza a vida de Anne.


Cannes 2017 não está sendo lisonjeira com o mais revolucionário autor dos anos 1960. Revolucionário da linguagem - mas Agnès Varda, em Visages Villages, que codirigiu com JR, chama Godard de velho rabugento. Misantropo ele já era há 50 anos - dificulta ao máximo a vida dos que querem, queriam, amá-lo. Como Anne, que escreveu um livro sobre esse amor, e sua desilusão. Mas o filme, além da reconstituição, tem seus momentos. Como Godard, Louis Garrel, nu em pelo, critica essa mania de colocar gente desnuda frente à câmera.

Godard briga com Bernardo Bertolucci, ofende um admirador na rua, diz palavras rudes sobre Marco Ferreri, acusa Anne de traí-lo. É um sem noção, que não consegue ver direito o que se passa ao redor. Para mostrá-lo, Hazanavicius faz com que perca três vezes os óculos em meio à agitação da rua. Socorro, tirem essa cara da frente da gente! 

Houve, na Quinzena dos Realizadores, a Joana d’Arc garota - Jeanette - cantada de Bruno Dumont. Igorrr assina a trilha e a plateia morria de rir com o tio rapper, a quem a heroína pede socorro para ir salvar a França. Houve também o brasileiro da Semana da Crítica. Será preciso voltar a Gabriel e a Montanha. Fellipe Barbosa tenta decifrar o enigma de seu amigo Gabriel Buchmann, que morreu na África, escalando uma montanha mítica. Gabriel foi estudar a pobreza, ou partiu numa viagem em busca do pai? O pai, como em Casa Grande, é decisivo, mesmo que aqui não apareça. Haverá muito o que falar sobre Gabriel e a Montanha. Tempo e oportunidade não faltarão. As informações são do jornal

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