Festival de Cannes começa hoje com a crise dos refugiados como pano de fundo político

Curta-metragem mineiro 'Nada', de Gabriel Martins e estrelado pela MC Clara, está na Quinzena dos Realizadores na 70ª edição do evento

por Pedro Galvão 17/05/2017 07:45
Alberto Pizzoli/AFP
O Festival reforçou seu aparato de segurança após atos terroristas na França (foto: Alberto Pizzoli/AFP)
Hoje, o mundo volta os olhares para o pequeno balneário de Cannes, na costa mediterrânea da França, com a abertura da 70ª edição do festival de cinema que se consolidou como o mais importante do planeta. A Palma de Ouro tem 18 longas em disputa, selecionados entre 1.930 candidatos. Um dos que devem causar frisson é O enganado, de Sofia Coppola, com Colin Farrell, Nicole Kidman, Elle Fanning e Kirsten Dunst, sobre a chegada de um soldado confederado ferido que altera a vida em uma escola feminina nos Estados Unidos no século 19. Trata-se de uma nova adaptação do romance de Thomas Cullinan já levada à telona por Don Siegel, em 1971, com Clint Eastwood no elenco.


O austríaco Michael Haneke (Amor, A fita branca), o único entre os indicados já premiado anteriormente, apresenta Happy end, sobre a vida de uma família burguesa do Norte da França durante a crise dos refugiados. Isabelle Huppert é a protagonista. “A questão dos refugiados é fundamental e está presente na escolha”, disse o delegado-geral do festival, Thierry Frémaux.

Se no Oscar a polêmica em torno das indicações nos últimos anos girou em torno da representatividade, diante do baixo número de artistas negros em comparação com os brancos, Cannes traz uma nova discussão. Os filmes Okja, do sul-coreano Bong Joon-Ho, e The Meyerovitz stories, de Noah Baumbachum, ambos concorrentes à Palma de Ouro, foram produzidos pela Netflix e não serão lançados no cinema, tendo sua exibição restrita aos assinantes da plataforma de streaming. O fato gerou protestos por parte de outros realizadores e a organização declarou que, a partir do ano que vem, valerá a regra de que apenas filmes que tenham seu lançamento nos cinemas garantido poderão disputar o prêmio máximo em Cannes.

O tom político desta edição será ditado não apenas pela crise dos refugiados, mas também pelas mudanças climáticas e o ativismo. “Esperamos que este festival seja uma folga que permitirá não falar só de cinema, mas do cinema como reflexo do mundo, falamos de política e de grandes temas”, disse o presidente do festival, Pierre Lescure, ao apresentar a seleção.

REALIDADE VIRTUAL
A questão migratória está presente não apenas em Happy end, mas também em Jupiter’s moon, do húngaro Kornél Mandruczo. O mexicano Alejandro González Iñárritu (Babel) volta a Croisette com um projeto de realidade virtual sobre a experiência de ser um migrante. Carne y arena, que será apresentado fora de competição, acompanha um grupo de refugiados “vivendo intensamente parte de seu périplo”, segundo o diretor.

Na mostra paralela Um Certo Olhar, um dos destaques entre os 16 selecionados é Out, do eslovaco Gyorgy Kristof, que descreve o mundo dos trabalhadores migrantes na Europa. Nessa mesma seção, o thriller político La cordillera, do argentino Santiago Mitre, traz Ricardo Darín como um presidente argentino reunido com vários colegas latino-americanos no topo da Cordilheira dos Andes, no Chile.

O cinema brasileiro, que no ano passado disputou a Palma com Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, está presente de forma mais discreta. O curta mineiro Nada, de Gabriel Martins, um dos fundadores da produtora Filmes de Plástico, de Contagem, foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores, outra mostra paralela em Cannes.

“Tive a ideia do filme a partir de uma imagem na minha cabeça de uma garota que, ao ser perguntada sobre o que queria fazer no vestibular, responde ‘nada’. Fui imaginando todas os desdobramentos e aí nasceu a história dessa menina”, afirma o diretor de 29 anos. Filmado em BH e em Contagem, o filme representa ainda outra vertente da cultura da capital mineira. Quem interpreta a protagonista é a rapper Clara Lima, de 17 anos, campeã nacional no Duelo de MCs.  

Gabriel viu potencial na cantora. “Acompanhava a trajetória dela nas batalhas, começando com produções próprias, fiquei muito atraído pela figura dela. Achava fascinante esse universo da batalha, do improviso, de pensar o freestyle ali como algo muito instintivo. Fiquei curioso em como isso poderia acontecer diante das câmeras, porque ela apresenta nas batalhas uma qualidade de afronta, e a personagem pedia isso”, diz o diretor.

A desenvoltura nas rimas criadas no improviso nas batalhas de MC ajudou a jovem a estrear diante das câmeras. “A batalha é uma parada que você tem que estar preparado, mas sem nunca saber o que vai acontecer. Em frente da câmera é parecido, tem que decorar, saber se expressar, mas foi tranquilo, me identifiquei muito com a personagem, pela personalidade dela. E um bagulho forte, saca, também a idade; ela está no terceiro ano do ensino médio, se formando, assim como eu”, diz MC Clara, que, tal qual sua personagem, não pretende começar um curso superior no momento, por causa de sua carreira musical. “Agora estou encaminhada, mas no futuro gostaria de fazer algo ligado à produção musical ou produção de eventos”, diz ela, que lançará seu primeiro disco neste ano.

Nada terá sua primeira exibição em Cannes. A expectativa do diretor é que a vitrine de Cannes abra boas possibilidades para a distribuição do curta em outros espaços. “É sempre uma grande oportunidade de impulsionar os projetos, a partir da entrada num festival desse tamanho. A tendência é mais gente se interessar e querer passar o filme, já que dependemos de muitos parceiros para que nossos filmes sejam exibidos em salas e outros circuitos”, diz Gabriel, que já teve realizações em outros festivais importantes do Brasil e do mundo, como o filme Dona Sônia pediu uma arma a seu vizinho Alcides, exibido no Festival de Roterdã, em 2011, e no Festival Internacional de Curtas de Clermont-Ferrand, na França, naquele mesmo ano. Em 2013, outro filme da Filmes de Plástico figurou entre os selecionados da Quinzena dos Realizadores de Cannes. Foi o curta Pouco mais de um mês, dirigido por André Novais de Oliveira.

Além do filme mineiro, outras duas produções brasileiras serão exibidas em Cannes neste ano. O longa Gabriel e a montanha, dirigido por Fellipe Barbosa, conta a história real da viagem para a África de um jovem economista cheio de ideais e projetos, mas que teve desfecho trágico. O filme concorre ao Grande Prêmio da Semana da Crítica, outra mostra paralela na programação, cujo júri será presidido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho. O curta Vazio do lado de fora, de Eduardo Brandão Pinto, aluno da Universidade Federal Fluminense, também está selecionado na Cinéfondation, mostra de filmes dirigidos por estudantes de cinema.

Além disso, a 70ª edição do festival prestará homenagem ao cineasta polonês Andrzej Wajda, que morreu em outubro de 2016. Wajda ganhou a Palma de Ouro em 1981 com O homem de ferro, sobre as origens do sindicato Solidariedade. O líder histórico do Solidariedade Lech Walesa deverá estar presente na homenagem. (Com AFP)

 

 

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