Longa mineiro, 'Elon não acredita na morte', estreia nesta quinta nos cinemas

Premiado no circuito de festivais, filme segue a trajetória de um homem que perde a sanidade na busca pela amada

por Mariana Peixoto 27/04/2017 09:00

Vitrine Filmes/Divulgação
Ator Rômulo Braga interpreta Elon e também atua como Januário, em 'Joaquim'. (foto: Vitrine Filmes/Divulgação )

Diretor que transita entre o teatro e o cinema, o mineiro Ricardo Alves Jr. realizou, há alguns anos, um trabalho com o grupo Sapos e Afogados, que alia artes cênicas e saúde mental. Foi ali que conheceu o integrante Elon Rabin. Uma frase dita por ele lhe impactou deveras. Elon disse a Alves Jr. que não acreditava na morte.

O efeito foi tão grande que a frase gerou dois filmes. O curta Tremor (2013), protagonizado pelo próprio Rabin, e o longa Elon não acredita na morte. Primeira incursão de Alves Jr. no formato, chega ao circuito comercial nesta quinta, 27 – em Belo Horizonte, nos cines Belas Artes e Paragem – no projeto Sessão Vitrine Petrobras (com ingressos a R$ 12 e R$ 6, a meia).

Curta e longa partem do mesmo mote – homem vai perdendo a sanidade enquanto procura a mulher desaparecida – e têm vários pontos em comum. Foram filmados com uma câmera na mão, que acompanha o personagem-título em lugares como hospital, delegacia, Instituto Médico Legal. O longa é, inclusive, dedicado a Elon Rabin.

INFERNO 

''Elon é uma espécie de Orfeu, que desce até o inferno em busca da amada'', comenta Alves Jr. O filme estreou no circuito de festivais em Brasília, no fim de 2016. Saiu do evento no Distrito Federal com o Candango de melhor ator para Rômulo Braga, que no longa vive o papel-título. Também participou de festivais no exterior, com destaque para o de Roterdã, na Holanda. 

 

Assim como outra produção recente de BH – A cidade onde envelheço, de Marília Rocha, que abriu a temporada da Sessão Vitrine – Elon não acredita na morte é um filme de locação. Foi filmado no Baixo Centro na cidade, ''a região onde moro e passeio, então traz as paisagens que habito'', acrescenta o diretor.


A principal locação é a antiga Faculdade de Engenharia da UFMG. O prédio, desocupado durante as filmagens (outubro de 2015), serviu tanto como cenário para o IML, como uma delegacia, além do local de trabalho de Elon (que é vigia noturno).

Em busca da mulher, Madalena (Clara Choveaux), ele se encontra com pessoas que convivem com ela. Um dos apartamentos é no conjunto IAPI, no bairro São Cristóvão, outro no edifício Itatiaia, na Praça da Estação.

A câmera de Matheus Rocha está sempre acompanhando muito de perto o personagem, que caminha por corredores e lugares escuros. Em boa parte das cenas, Elon está de costas. “Minha ideia é que a câmera o seguisse na direção em que ele está”, diz Alves Jr. O personagem está em todas as cenas do longa.

CLAUSTROFOBIA

O clima, propositalmente, é claustrofóbico. O espectador não tem qualquer respiro, acompanhando sempre de perto a ''descida aos infernos'' do personagem. ''O caminho que fiz para este filme foi muito diferente da que fiz nos curtas (ele ainda dirigiu Material Bruto (2006), Convite para jantar com o Camarada Stalin (2007) e Permanências (2010). Houve uma investigação para o trabalho da dramaturgia para construir este thriller sobre um cara que vai enlouquecendo em busca da mulher'', completa.

O próximo projeto de Alves Jr. segue tema semelhante. Em A professora de francês (o papel será de Grace Passô) ele vai contar a história de uma personagem que fica presa numa teia de aranha por causa de questões sociais.

 

CAMPO DE ESTUDOS 

Durante a elaboração de Elon não acredita na morte Ricardo Alves Jr. convidou e desconvidou o ator Rômulo Braga algumas vezes. O OK final só veio duas semanas antes do início das filmagens.


Para o intérprete, isto não representou um problema. ''Eu conhecia bastante o roteiro. Um ano e pouco antes de o Ricardo filmar, participei de uma leitura do texto no projeto Janela de Dramaturgia. Naquele momento me apaixonei pelo roteiro'', conta Braga.

A relação do diretor e do ator é muito próxima. Alves Jr. dirigiu Braga em 2014 na montagem Sarabanda, adaptação para o teatro do filme Saraband, de Ingmar Bergman. No espetáculo, o diretor dividiu a função com Grace Passô, que faz uma participação em Elon não acredita na morte.

Também em pequenas participações podem ser vistos Eduardo Moreira, do Grupo Galpão, Germano Mello (Aquarius) e o cartunista e ator Lourenço Mutarelli. Clara Choveaux, atriz franco-brasileira revelada em Tirésia (2003, de Bertrand Bonello), foi escolhida por Alves Jr. depois que ele a conheceu em Exilados do vulcão (2013), de Paula Gaitán.

Uma cena de sexo quase explícito (o filme recebeu classificação etária de 18 anos) entre Elon e Madalena mostra o nível de tensão do protagonista. ''O Ricardo tem uma relação muito forte com o teatro. Como já havíamos trabalhado juntos, a comunicação sobre cada cena foi bastante clara. Foi tudo muito estudado, não havia aquela de 'sentir a energia para fazer acontecer''', conta Braga.

MISTÉRIO  

A cena de sexo, de acordo com o ator, foi ''simples e objetiva'', realizada com dois ou três takes. ''Não houve nenhum grande mistério, e a Clara foi muito parceira neste sentido.''

 

Braga nasceu em Brasília, mas mudou-se aos 16 anos (está com 40) para Belo Horizonte. Sua trajetória está muito ligada ao teatro. Atuou em espetáculos dos grupos Intervalo, Cia. Lúdica dos Atores e Luna Lunera.

O cinema veio com Mutum (2007, de Sandra Kogut). ''Sempre foi um sonho secreto, que eu tinha vergonha de admitir. Achava que o cinema era uma coisa distante. Quando peguei o papel no filme da Sandra (adaptação de Guimarães Rosa) caí de paraquedas neste mundo. E, para mim, o cinema se tornou um campo de estudos muito interessante para o ator. Descobri que poderia imergir numa vida num tempo muito curto, três meses no máximo, e depois não precisaria mais fazer aquele personagem'', acrescenta Braga.

Aos poucos, o cinema tem se aproximado dele. O ator integrou o elenco de Sangue azul (2014, de Lírio Ferreira, que lhe valeu o prêmio de ator coadjuvante no Festival do Rio. Está em cartaz ainda em Joaquim, de Marcelo Gomes. No longa sobre Tiradentes muito antes de ele se tornar o mártir da Inconfidência Mineira, ele é Januário. ''Joaquim tem um pequeno grupo de amigos que retratam as diferentes classes sociais. Meu personagem é aquele que representa o lado mestiço, que nunca vai ter uma oportunidade na vida.''

 

Nesta semana, Braga terminou de filmar, em BH, o longa Sonâmbulos, de Tiago Mata Machado. Agora, volta ao teatro. Atualmente ensaia espetáculo com o grupo Pigmaleão, de teatro de bonecos. 

 

Abaixo, confira o trailer de Elon não acredita na morte

 

 

 

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