Cinemark exibe '...E o vento levou' nesta terça-feira, 25

Professores e pesquisadores de cinema explicam por que ir assistir ao filme no cinema após quase oito décadas de seu lançamento

por Mariana Peixoto 25/04/2017 09:45
MGM/Divulgação
Leslie Howard e Vivien Leigh em cena do clássico de 1939 dirigido por Victor Fleming. (foto: MGM/Divulgação )
''Oito semanas esteve ...E o vento levou no Cine Metro do Rio de Janeiro. Oito semanas sensacionaes que significam o mais retumbante successo cinematographico de todos os tempos da cinematographia no Brasil... No Cine Brasil, será mostrado em avant-première às 7 e meia da próxima sexta-feira, e a partir do dia seguinte, em duas sessões, às 2 da tarde e às 7 e meia da noite, e sempre completo, em sua metragem completa, ou seja, conforme foi exhibido nos Estados Unidos.''

A primeira notícia de que ...E o vento levou estava entre nós foi publicada pelo Estado de Minas em 26 de novembro de 1940. Três dias mais tarde, o filme, finalmente, foi apresentado – com quase um ano de atraso da estreia original, ocorrida em 15 de dezembro de 1939 em Atlanta, Geórgia. Ainda segundo o jornal, que publicaria sucessivas matérias sobre a produção, ao longo de seu primeiro ano em Belo Horizonte o filme seria exibido exclusivamente no Cine Brasil.

Setenta e oito anos se passaram desde então. ...E o vento levou foi visto e revisto por gerações muitas vezes nos cinemas e na televisão, que, no Brasil, chegou na década de 1980. O filme ganha hoje nova sessão na cidade, abrindo a programação da temporada da série Clássicos Cinemark. Em exibição única, o longa será apresentado com nova cópia às 19h30, no Pátio Savassi. Haverá um intervalo de quatro minutos.

Quase oito décadas mais tarde, por que ir ao cinema para ver ...E o vento levou? Porque é a única maneira de assisti-lo, afirmam professores e pesquisadores de cinema ouvidos pelo EM.

''Todos os filmes devem ser vistos no cinema, a não ser quando foram especialmente feitos para a TV. Quando se reduz demais o tamanho da tela, o espectador perde o senso de espaço que o diretor imaginou. ...E o vento levou não cabe na televisão. Quem o viu dessa maneira não assistiu ao filme. Naquele momento, nenhum filme tinha conseguido retratar aquele senso de grandiosidade'', afirma Heitor Capuzzo, professor de cinema, aposentado pela UFMG.

Autor de Lágrimas de luz (Editora UFMG, 1999), em que analisa o melodrama no cinema (uma das obras analisadas é justamente ...E o vento levou), Capuzzo chama a atenção para este aspecto. ''É incrível que a gente assista a um filme de quase quatro horas sobre a Guerra Civil americana sem que ela apareça. É intencional, claro. No melodrama, o conflito é o pano de fundo. O que importa é como o personagem vai reagir a ele. Ou seja: temos a experiência da guerra a partir da evolução da personagem de Scarlett O’Hara.''

Capuzzo exemplifica falando sobre os diferentes momentos da personagem. ''No início, ela é uma debutante, toda patricinha. A experiência da guerra a destrói, que é o momento em que fala que não vai mais passar fome. E mais tarde, ela passa a ser a nova América, renasce meio brega, nouveau riche. Ou seja, para esconder que perdeu a guerra, ela vai se reinventar. Isso é uma metáfora do que vai ser a América pasteurizada, e serve até como uma metáfora para os dias de hoje.''

...E o vento levou nasceu do romance homônimo publicado em 1936 por Margaret Mitchell. O drama percorre o período da guerra civil americana (ou Guerra de Secessão), de 1861 a 1865. Filha de um proprietário de plantação de algodão no Sul dos EUA, Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), jovem impetuosa e fútil, com a guerra descobre a miséria.

Apaixonada por Ashley Wilkes (Leslie Howard), que se casa com sua prima Melanie Hamilton (Olivia de Havilland, ainda viva, completa 101 anos em julho), ela inicia, em meio ao conflito, um relacionamento tempestuoso com Rhett Butler (Clark Gable). Na saga, acompanhamos a personagem da inocência quase ignorante até a maturidade e sua compreensão da vida.

''Todo o modelo que conhecemos como Hollywood, em que o diretor é um funcionário do produtor, foi criado naquela época. ...E o vento levou é o maior emblema desse modelo de produção'', comenta Rafael Ciccarini, diretor do Instituto de Comunicação e Artes do Centro Universitário Una.

...E o vento levou é muito mais o filme do produtor David O. Selznick do que do diretor Victor Fleming. Este último teria dirigido apenas 45% do filme. O diretor original, George Cukor, foi demitido por Selznick. Houve ainda outro diretor, Sam Wood. A verdade é que nenhum deles conseguiu ter suficiente liberdade frente a Selznick.
 
GUERRA 
''O filme é resultado de todo um projeto de megalomania de uma indústria que estava se impondo como soberana nos EUA e no mundo. É um grande espetáculo que tem como tema a guerra. A partir disso, podemos ver como os grandes filmes da história do cinema têm a ver com a guerra. O nascimento de uma nação (1915) é o emblema do cinema clássico; A general (1926), a maior produção do cinema mudo'', acrescenta Ciccarini.

Com números sempre grandiosos – quase quatro horas de duração, oito Oscars, 1,4 mil candidatas a Scarlett O’Hara, 50 personagens, 2,4 mil figurantes –, ...E o vento levou é considerado o filme de maior bilheteria dos EUA. Com números atualizados, segundo ranking da Mojo Box Office, a arrecadação seria equivalente a US$ 1,78 bilhão, superando Star wars (1977, segundo colocado), A noviça rebelde (1965, terceiro colocado).

''É o primeiro blockbuster da história do cinema'', comenta o pesquisador Ataídes Braga. ''É, por um lado, um filme problemático, pois apresenta uma leitura ufanista da guerra. Do ponto de vista histórico, é bastante criticável. É entretenimento e não é para ser levado a sério, pois ele não mostra a história como foi. Por outro, sua beleza plástica e sua narrativa provocam encantamento e fascínio até hoje.''

Saiba antes de entrar no cinema

>> A primeira cena filmada foi a do incêndio em Atlanta. O que pegou fogo foram os cenários de filmes anteriores, como King Kong (1933). O fogo foi tão intenso que pessoas próximas ao local ligaram para os bombeiros pensando que o estúdio, MGM, estivesse pegando fogo.

>> Na cena em que Scarlett caminha entre os corpos e os sobreviventes da Batalha de Gettysburg (1863), a câmera acompanha a personagem em um travelling aéreo conseguido graças a um guindaste de 43 metros. Mil extras foram misturados a bonecos de cera para a cena.

>> Um dos rumores mais conhecidos é o de que Vivien Leigh não suportava as cenas de beijo com Clark Gable por causa do mau hálito do galã. Ela era desconhecida na época, ele um astro. Leigh trabalhou 125 dias no filme e recebeu US$ 25 mil. Gable atuou por 71 dias e ganhou US$ 120 mil.

>> Em 1º de julho de 1939, quando as filmagens, iniciadas no fim de janeiro, terminaram, Selznick tinha 60 mil metros de filme (algo em torno de 28 horas de projeção). Para a montagem, o produtor não consultou nenhum dos diretores.

MAIS PÉROLAS
Criado em 2014, o projeto Clássicos Cinemark já exibiu 65 produções. Para a nova temporada estão programados ainda 2001: uma odisseia no espaço (1968), de Stanley Kubrick (em 30 de maio), e  O mágico de Oz (1939), de Victor Fleming (em 27 de junho). Ingressos: R$ 16 e R$ 8 (meia).

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