Protagonista de A cabana, Octavia Spencer concede entrevista ao EM

Diretor Stuart Hazeldine leva ao cinema a versão do best-seller de William Paul Young, em que um homem em provação se encontra com Pai, Filho e Espírito Santo

por Márcia Maria Cruz 06/04/2017 08:00

Paris Filmes / Divulgação
MAck entre Jesus, Papa e Sarayu: conversas sobre espiritualidade e aprendizado sobre a força da superação (foto: Paris Filmes / Divulgação )
O best-seller A cabana (Editora Sextante, 2007), de William Paul Young, ganhou versão cinematográfica que  chega hoje às telas dos cinemas brasileiros, estrelada pela norte-americana Octavia Spencer (vencedora do Oscar de atriz coadjuvante, em 2012, por Histórias cruzadas), o ator inglês Sam Worthington (Avatar e Fúria de titãs) e a brasileira Alice Braga.

 

Confira os horários de exibição de A cabana nos cinemas da Região Metropolitana de BH 


Com direção do britânico Stuart Hazeldine, o filme aborda a viagem espiritual de Mackenzie (Mack), homem atormentado por questões do passado que não consegue encontrar felicidade mesmo tendo construído uma família feliz, formada por uma mulher bastante religiosa e espiritualizada e três filhos que vivem numa bela casa num subúrbio norte-americano. O filme se encaixa numa teodiceia narrativa – quando a busca porm questões universais se torna, em si mesma, o caminho a Deus, a bondade suprema.

O enredo central traz o encontro de Mack com Deus, apresentado na forma trina (Pai, Filho e Espírito Santo). Religar-se ao divino é o princípio das religiões, o que costuma ser feito pelos fiéis por meio de orações, meditações ou imersão em rituais. No entanto, a história propõe um encontro presencial, em que Mack se coloca cara a cara com Deus. Talvez esse seja um dos segredos de o best-seller ter feito tanto sucesso: 3,5 milhões de exemplares vendidos no Brasil e 18 milhões em todo o mundo.

O diretor lança mão de flashbacks para mostrar tanto o passado de Mack como para apresentar o encontro com Deus. Carinhosamente chamado de Papa por Nan Phillips (a mulher de Mack), Deus-pai ganha vida no corpo de uma mulher negra, interpretada por Octavia Spencer, e, em alguns momentos, por um homem de traços indígenas (Graham Greene). Deus-filho é interpretado pelo ator israelense Avraham Aviv Alush, e Sarayu, o Espírito Santo, é vivido pela atriz japonesa Sumire Matsubara. Como o livro, o filme se assenta na compreensão de Deus e seus mistérios a partir dos dogmas cristãos.

Etnias
É bem verdade que o diretor parte de referências feitas na obra original, mas o mistério de Deus-pai, Deus-filho e Deus-espírito ganha com a escolha de uma mulher negra, um homem israelense e uma mulher japonesa para representá-los em carne e osso. Vale ressaltar que o perfil dos personagens é muito bom, mas não é mérito exclusivo do filme, já que o best-seller traz amplas descrições deles. Fora a escolha dos personagens, a complexidade do mistério da Santíssima Trindade não se traduz de forma ousada na estratégia fílmica. Dentro da teologia cristã, o Espírito Santo também é um dos mistérios mais difíceis de ser compreendido. Apesar disso, o personagem de Sarayu apresenta contornos e relevos modestos no enredo.

Espancado pelo pai alcoólatra na infância, Mack se transforma num pai amoroso e cuidadoso. No entanto, um infortúnio, ocorrido quando estava com os filhos numa aventura nas montanhas, muda os rumos de toda a família. A pequena Kate (Megan Charpentier) desaparece, deixando o pai em desespero. Com um vestido vermelho, a menina faz perguntas complexas ao pai, como, por exemplo, porque Deus deixa morrer a princesa de um conto de fadas. Depois das buscas realizadas pela polícia, o pai encontra numa cabana vestígios que indicam que ela foi assassinada.

A exemplo da filha, Mack quer saber de Deus os motivos que o fazem deixar seus filhos morrerem em situações trágicas – indagação motivada pela morte da menina. Pela dramacidade do enredo, os atores são muito exigidos em suas interpretações. Como poderia se esperar, Octavia Spencer não deixa a desejar. Ela brilha! Com o carisma que lhe é peculiar, constrói um Papa amoroso, afetuoso, que realmente convence quando fala do amor incondicional de Deus por todos.

As conversas dos personagens sobre divindade e problemas existenciais, em alguns momentos, trazem uma visão pueril. Na primeira parte, Sam constrói um Mack soturno. Os flashbacks nos rementem ao passado do personagem. Os problemas da infância são apontados como a razão para um personagem tão taciturno, apesar de ele ter uma mulher amorosa e bons filhos. Mas falta algo – que talvez não seja culpa do ator – para que possamos criar empatia com a melancolia de Mack.

Alice Braga interpreta Sabedoria, que ajuda Mack a refletir sobre as questões que o afligem. Se a forma com a qual a trindade divina é representada no filme faz certas simplificações, o papel dado a Sabedoria não tem quase densidade. Como “sabedoria” pode ser personificada se a fé não é? Digamos que a estratégia encontrada pelo diretor do filme seja bem previsível.

ENTREVISTA 

Oscar de atriz coadjuvante em 2012 por Histórias cruzadas direcionou os holofotes para a atriz Octavia Spencer. Com papel de protagonista em Estrelas além do tempo, Spencer volta ao cinema para viver Papa, Deus-pai no filme A cabana. Em passagem pelo Brasil para o lançamento do filme, ela concedeu entrevista por telefone ao EM.

Em suas orações, como você imagina Papa?


Como eu acho que é Deus? Não é algo que eu imagine. Só sei o que me ensinaram. Não é uma coisa em que eu costumo pensar de verdade.

A cabana é sobre fé. Você já fez algo parecido com a jornada espiritual de Mack?

A vida é uma jornada espiritual, e então, nesse sentido, sim. Para mim, é suficiente dizer que eu acho que a vida é um teste cotidiano de fé, cujo resultado só vamos descobrir no dia do julgamento. Sou uma pessoa de fé e creio.

O filme nos permite refletir sobre relacionamentos e família. Essa experiência a fez pensar sobre sua infância e especialmente o relacionamento com seus pais?

O filme é sobre a família e eu sou muito grata por ter vindo de uma família grande. Tem a ver com o que falamos sobre a fé. A partir do momento em que você aprende a procurar, você aprende sobre Deus e sobre o seu lugar no mundo.

Você protagoniza Estrelas além do tempo, história sobre como mulheres negras se destacaram na Nasa. No Brasil, país de maioria negra, há uma luta por visibilidade e direitos iguais. O que você pode nos dizer sobre isso? O que você pode nos dizer sobre essas reivindicações de visibilidade e direitos iguais?

Detesto o fato de ainda termos de discutir que a mulher mereça estar nos mesmos lugares que os homens. É loucura ainda termos de discutir questões raciais. As pessoas deviam ser julgadas pelo seu caráter e, quanto ao trabalho, por suas habilidades. Então, acredito que fazer aquele personagem em Estrelas além do tempo elimina tais diferenças e questiona essa ideologia.

Como foi sua participação no filme A cabana?

A razão pela qual decidi fazer este filme é porque ele fala de algo maior. Algo maior do que eu. Sempre há tempos sombrios neste mundo e, ultimamente, há esse ressurgimento das trevas. Sempre que há guerra em alguma parte do mundo, qualquer uma, as pessoas sofrem e precisamos de algo que nos dê esperança e fé. A cabana nos dá isso. O personagem de Mack enfrenta um momento muito difícil em sua vida e a única forma de seguir em frente é se curar. Essa é a mensagem do filme. Todos nós temos desafios pessoais e, se pudermos encontrar uma maneira de superar os desafios, então podemos nos tornar pessoas melhores. Isso é o que eu amo sobre a mensagem de A cabana.

 

Confira o trailer do filme:

 

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