Questão de gênero no audiovisual é tema de apresentação da Ancine em BH

Pesquisa realizada pela Agência Nacional do Cinema mostra espaço ocupado pelas mulheres no setor

por Márcia Maria Cruz 03/04/2017 08:00
Anna Muylaert, Tata Amaral, Laís Bodanzky, Daniela Thomas, Marília Rocha, Júlia Rezende são alguns exemplos de que as mulheres têm um importante papel no cinema brasileiro – e não apenas diante das câmeras. Ocupando diferentes funções na cadeia produtiva do audiovisual, elas conquistaram espaço, ganharam prêmios, mas ainda têm uma presença pequena, sobretudo em determinadas funções, se comparada a dos homens.

Essa questão é tema do debate O Ativismo e a Questão de Gênero no Cinema Brasileiro, que será realizado hoje, às 19h, no auditório da UNA, no Lourdes. Participam a diretora da Agência Nacional do Cinema (Ancine) Debora Ivanov, a promotora do Selo Bechdel (leia mais sobre o selo nesta página), a sueca Ellen Tejler, e a coordenadora do curso de cinema da UNA, Carla Maia.

No encontro, será apresentada a mais recente pesquisa da Ancine com a base de dados de 2016. Os números mostram que, na direção, as mulheres reponderam por 17% do total; no roteiro, 21%;  na fotografia e na direção de arte, 5%. A maior presença delas é na produção, 40%. Foram analisados 2,5 mil filmes registrados na agência. Débora ressalta que a pesquisa demonstra que as mulheres estão mais presentes como realizadoras de curta e média-metragem do que de longas. Elas também se dedicam mais ao documentário do que à ficção. “Somos preparadas para apoiar e não para protagonizar as ações. Como podemos quebrar esse ciclo? A Laís Bodanzky diz que o primeiro passo é a tomada de consciência”, afirma.

Nos últimos 10 anos, ocorreu um tímido aumento na presença das mulheres no audiovisual. Segundo levantamento realizado por equipe coordenada por Paula Alves, diretora do Festival Internacional de Cinema Feminino (Femina), em 2010, apenas a presença das mulheres na função de direção era de apenas 15,37%; 6,48% no roteiro; 9,99% na produção e 1,13% na fotografia. “O levantamento ainda mostra que, quando os homens estão na direção, o protagonismo é de personagens masculinos. A maioria das principais funções é ocupada por homens. Quando a mulher assume a direção, o protagonismo feminino emerge, além de as diretoras trazerem outras mulheres para as funções principais”, diz a profissional de cinema Fabiana Leite.

Fabiana avalia que o ativismo tem contribuído para a criação de espaços para a discussão e para maior visibilidade do trabalho das mulheres. Ela participou da criação Malva – Mostra de Cinema Feminista. Durante a mostra, exibiu Batalha das colheres, ficção de 26 minutos em que trata de violência contra mulheres em pequenas comunidades onde elas são mais vulneráveis à agressão e menos atendidas por sistemas de proteção social.

Batalha das colheres foi realizado com recursos do edital Carmem Santos, do Ministério da Cultura, criado para fomentar o trabalho de mulheres. A narrativa questiona o ditado popular que diz que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Em breve, Fabiana pretende lançar seu primeiro longa, Lírios não nascem da lei, sobre a realidade de mulheres encarceradas. “A cultura sexista dificulta a entrada das mulheres em funções principais. Muitas vezes, ocupam funções secundárias, como figurino, assistência. Isso também se deve às limitações de acesso aos financiamentos”, avalia.

PERFIS

Para a coordenadora do curso de cinema do Centro Universitário UNA, Carla Maia, a baixa participação das mulheres em funções ligadas à direção artística se deve à combinação de aspectos sociais, históricos, culturais. “Historicamente, com sua industrialização, o cinema cria ambientes de trabalho com uma divisão de tarefas mais demarcada, e as mulheres, muitas vezes, não conseguem ocupar essas funções, porque a própria classe profissional adquire ou se ampara em perfis específicos, marcados por preconceitos. Um deles é que a mulher não é tão hábil com equipamentos técnicos, no caso da direção de fotografia.”

Embora haja mulheres à frente de produtoras importantes no cenário nacional, como Vânia Catani (Bananeira Filmes), Sara Silveira (19 Som e Imagens), Marisa Rezende (Morena Filmes) e Luana Melgaço (Teia), Carla pondera que, muitas vezes, as mulheres não são escolhidas para cargos de chefia. “Sabemos que a maior parte dos ‘chefes’ ainda são, predominantemente, homens, não apenas no cinema, mas em muitas outras áreas de atuação.”

O debate de hoje integra as atividades da Incubadora de Audiovisual, projeto realizado pela ONG Contato. “É fundamental como se dá a participação da mulher em relação à cadeia produtiva. Raramente, elas ocupam cargos de direção artística ou direção de produção”, afirma o coordenador da Contato, Hélder Quiroga. A entidade trabalha com formação e capacitação de agentes realizadores do audiovisual, na geração de conteúdo educacional e cidadão e na formação de redes e em projetos de cooperação internacional, principalmente no audiovisual. Na quinta-feira, a ONG realiza o debate Novos Modelos de Desenvolvimento para o Audiovisual na América Latina, no auditório da UNA.

O ATIVISMO E A QUESTÃO DE GÊNERO NO CINEMA BRASILEIRO
Debate hoje, às 19h, no Auditório da UNA (Rua da Bahia, 1723 – Lourdes). Entrada franca.


Para reverter o quadro

A conquista de espaço pelas mulheres na cadeia produtiva do cinema começa com a formação. A coordenadora do curso da UNA, Carla Maia, defende que os cursos superiores de cinema contribuam na conscientização de alunos, tanto homens como mulheres, sobre as assimetrias de gênero e na formação qualificada de profissionais mulheres.

“A conquista de espaço é um processo que envolve muitas ações, algumas mais imediatas e pontuais, como o lançamento de editais de realização destinados especificamente a filmes de mulheres. Outras, mais lentas e perenes, que envolvem mudanças estruturais, exigem desconstruir preconceitos, quebrar padrões, formar profissionais conscientes das assimetrias de gênero”, diz Carla.

Atuando como pesquisadora, Carla destaca que, nos filmes dirigidos por mulheres, as temáticas são tão diversas quanto nas produções de diretores homens. Aliás, a pesquisadora alerta para o risco de associar a produção das mulheres a apenas temas ditos do universo feminino. “É comum ouvirmos que mulheres falam mais de afeto, casamento, vida doméstica, mas, quando vamos aos filmes, observamos uma grande variedade de temas e abordagens.”

Carla ainda pondera que nem sempre as questões de gênero emergem na linguagem cinematográfica adotada por produtoras mulheres. “Não basta ter uma mulher na produção/direção para que as questões de gênero sejam endereçadas nas obras, isso nem sempre ocorre.”

A pesquisadora ressalta que a questão de gênero pode emergir também na maneira de construir as personagens femininas, evitando os modos de representação que objetificam a mulher ou a colocam em posição passiva. “Em vez disso, mulheres aparecem como protagonistas fortes, ativas e independentes.” Ainda é preciso filmar sem transformar os corpos em mero objeto de desejo. Nesse sentido, Carla defende que é importante “escapar dos estereótipos, fugir dos imperativos de beleza, valorizando o sujeito feminino para além de sua aparência.”


saiba mais

teste Bechdel


Será lançado em cerimônia em São Paulo, na quarta-feira, o Selo Bechdel. O propósito é testar os filmes no quesito igualdade de gênero. O selo também passará a fazer parte da plataforma IMDb, espécie de enciclopédia digital do cinema. O teste consiste em três perguntas:

1 – O filme tem personagens mulheres com nomes?
2 – Elas conversam entre elas?
3 – A conversa entre elas é sobre homens?

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