Coprodução entre Brasil e Argentina, La vingança brinca com clichês com os hermanos

Dirigido por Fernando Fraiha, La vingança desconstrói lugares-comuns das comédias populares e explora o ridículo de um machismo que já não tem lugar na atualidade

por Mariana Peixoto 16/03/2017 08:00
Querosene Filmes/Divulgação
Para interpretar a dupla de amigos, Felipe Rocha e Daniel Furlan tiveram liberdade de participar do roteiro e improvisar (foto: Querosene Filmes/Divulgação)

Na última semana, a chef Paola Carosella se envolveu num bate-boca no Twitter com um telespectador do reality MasterChef. Resumo da história: o internauta discordou da avaliação dos jurados em uma prova e alfinetou a argentina radicada no Brasil. Na troca de tweets, chamou-a de arrogante. Paola se saiu da melhor maneira possível: “Não me agrida. A piada xenofóbica de argentina arrogante já passou faz tempo”.

O mote da comédia La vingança, de Fernando Fraiha, que chega hoje aos cinemas, também bebe na mesma fonte. Depois de pegar a namorada (Leandra Leal) fazendo “aquilo” com um chef argentino (Adrián Navarro), Caco (Felipe Rocha) é arrastado pelo melhor amigo, Vadão (Daniel Furlan), para uma viagem de carro, num velho Opala amarelo de nome Jorge, até Buenos Aires. Na cabeça do amigo, a maneira ideal de Caco se vingar da traição é “pegando” a maior quantidade possível de argentinas.

Pois esqueça esse argumento um tanto misógino. Coprodução Brasil-Argentina, La vingança aposta no bromance – relação afetiva entre amigos – em clima de road movie. Algo que o cinema norte-americano já se cansou de fazer (é só lembrar dos sucessos recentes Se beber, não case, Superbad e Um parto de viagem).

Claro que os clichês da rivalidade entre os dois países não faltam. A eterna rixa entre Maradona e Pelé garante boas risadas. Critica-se também o estilo de vida de brasileiros e argentinos, ainda mais porque a dupla brasileira acaba pegando carona com uma trupe de músicos argentinos. E até o título La vingança brinca com o português e o castelhano. Fosse somente em português, o filme deveria se chamar A vingança, já em castelhano, o título correto seria La venganza.

Só que o filme desconstrói lugares-comuns e mostra como o machismo não se encaixa mais no mundo de hoje. É claro que Vadão dá com os burros n’água com tudo o que planeja. De pegador ele nada tem, assim como Caco não se encaixa no papel de pobre coitado. E com timing para as piadas, a dupla Daniel Furlan e Felipe Rocha faz rir sem cair na mesmice das comédias populares que dominaram a produção comercial brasileira.

Em seu primeiro papel de protagonista no cinema, Rocha – ator com uma trajetória expressiva no teatro e que vem somando boas participações na tela grande, como em Nise: o coração da loucura –, acha a premissa de La vingança “muito infantil e preconceituosa”.

“A ideia é um tanto desbaratada. Dá um certo pesar pensar que muita gente pode acreditar que o filme é dessa maneira e decida não vê-lo. Quando ele foi exibido no Festival do Rio, bati o pé para que na divulgação a gente falasse de uma história de dois amigos na Argentina. Este trabalho está num lugar delicado. Quem se interessar por uma comédia mais popular vai se decepcionar, pois ele tem alguma sofisticação. Acredito que, se o filme tiver um tempo, acabe encontrando seu público com o boca a boca.”

Furlan, cria da MTV e com público cativo no YouTube (nos canais Amada Foca e TV Quase), foi visto recentemente como o Vladimir da comédia TOC – Transtornada, obsessiva, compulsiva, o par de Tatá Werneck. “Uma das coisas que me chamam a atenção é que os dois (Vadão e Vladimir) têm uma relação de extensão da personalidade com seus carros. Mas isso revela mais diferenças do que semelhanças entre os dois: Vadão com seu clássico Opala humanizado, muito bem cuidado; e Vladimir com seu Clio sem nome, despersonificado, abandonado, negligenciado, praticamente um saco de lixo sobre rodas.”


Tanto ele quanto Rocha, que contracenaram na série Lili, a ex, do GNT, colaboraram com o roteiro. “Tivemos a sorte de uma pré-produção intensa antes das gravações, com muita liberdade para levar as cenas para outros lugares e improvisar bastante, com muita naturalidade. Isso foi incorporado no roteiro e chegamos seguros no set”, diz Furlan. Rocha acrescenta: “Entrei no projeto antes, então, quando soube que o Daniel havia sido escolhido, fiquei feliz, pois ele é o oposto do machão que faz e tem um humor anárquico. Dessa maneira, cada um de nós trouxe uma oposição à premissa do filme.”

• Mão dupla

Coproduções entre Brasil e Argentina a partir de 2005

» 2005 – Diário de um novo mundo, de Paulo Nascimento
» 2007 – O passado, de Hector Babenco
» 2008 – Café dos maestros, de Miguel Kohan
» 2009 – A festa da menina morta, de Matheus Nachtergaele
» 2010 – Olhos azuis, de José Joffily
» 2010 – 400 contra 1, de Caco Souza
» 2011 – Estamos juntos, de Toni Venturi
» 2012 – Violeta foi para o céu, de Andrés Wood
» 2012 – Infância clandestina, de Benjamin Ávila
» 2012 – Histórias que só acontecem quando lembradas, de Júlia Murat
» 2013 – Juan e a bailarina, de Raphael Gayer Aguinaga
» 2013 – Habi, a estrangeira, de Maria Florencia Álvarez
» 2013 – A sorte em suas mãos, de Daniel Burman
» 2013 – A memória que me contam, de Lúcia Murat
» 2014 – Coração de leão, de Marcos Carnevale
» 2014 – A oeste do fim do mundo, de Paulo Nascimento
» 2014 – Ardor, de Pablo Fendrik
» 2015 – Divã a 2, de Paulo Fontenelle
» 2015 – Mate-me por favor, de Anita Rocha da Silveira
» 2016 – Lua em sagitário, de Márcia Paraíso
» 2016 – Paulina, de Santiago Mitre

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