Juiz 'preso' pelo sistema protagoniza filme no Fórum Lafayette

Em 'Foro íntimo', Ricardo Mehedff parte da situação real de juízes ameaçados pelos criminosos que julgam para falar de um país abatido pela corrupção

por Silvana Arantes 09/03/2017 08:35
DUDU MIRANDA/DIVULGAÇÃO
Gustavo Werneck vive um juiz em 'Foro íntimo' (foto: DUDU MIRANDA/DIVULGAÇÃO)
Um filme brasileiro centrado na figura de um juiz sob intensa pressão
por ser o responsável por um caso que envolve crimes de um político sem mandato estreará no mês que vem em um festival nos Estados Unidos, o Boston International Film Festival (13/4 a 17/4).

Não, Sergio Moro e a Operação Lava-Jato não são a inspiração de Foro íntimo, que foi inteiramente rodado no Fórum Lafayette, em Belo Horizonte, tendo o ator Gustavo Werneck no papel do juiz.

Esse primeiro longa de ficção de Ricardo Mehedff centra seu foco em 24 horas na vida de um magistrado que se torna refém do sistema judiciário. A intenção subjacente a essa escolha é traçar um paralelo entre a situação do juiz e a de um Brasil que o cineasta enxerga como “doente” e “preso” a “instituições corrompidas na sua essência”.

O ponto de partida para o roteiro (que Mehedff assina a quatro mãos com Guilherme Lessa) foram notícias de jornal sobre juízes vivendo sob proteção policial, algumas vezes confinados em seus gabinetes dia e noite, para diminuir os riscos de serem alvos de atentados durante seus deslocamentos.

A condição de um “juiz preso” chamou a atenção do diretor, em primeiro lugar, por seu potencial imagético. Mas, ao longo da extensa pesquisa que Mehedff conduziu durante o período de elaboração do roteiro, tendo entrevistado representantes da magistratura de vários estados brasileiros, o paradoxo de um sistema judiciário acuado pelo crime ganhou relevo em suas preocupações.

Por isso “era importante não colocar o juiz num pedestal”, diz o diretor, sobre a forma como o personagem é apresentado ao espectador. O protagonista de Foro íntimo se distancia tanto do pedestal que passa a maior parte do tempo na iminência de perder o controle de suas próprias emoções e em dúvida se suas percepções são reais ou alucinatórias.

Acompanhado sem intervalo por seguranças armados e com a família transferida para Buenos Aires, o juiz dorme, se alimenta e toma banho nas dependências do fórum. Com o intuito de blindá-lo, o chefe dos guarda-costas (interpretado por Jefferson da Fonseca Coutinho) restringe os contatos do juiz à advogada que é seu braço direito (Bia França) e ao promotor do caso polêmico (Léo Quintão).

EXPLOSÃO Para Gustavo Werneck, que tem décadas de uma carreira sedimentada no teatro e faz agora sua estreia como protagonista no cinema, a cena mais difícil foi a da “explosão” de seu personagem. Mehedff classifica o longa como “um drama psicológico” e diz que procurou “o máximo de realidade possível dentro de uma narrativa que não é realista”. Tanto não é realista a narrativa que ela se dá em preto e branco e com variação nas margens da imagem na tela (o formato da janela, no termo técnico do cinema), um recurso que acentua a perspectiva (larga ou estreita) do personagem em quadro.

Ao optar por “uma narrativa não realista”, Mehedff, que se tornou conhecido no cenário do cinema nacional como montador, apartou seu filme das características mais comuns à produção brasileira atual. Como ressalta o próprio diretor, Foro íntimo “não tem câmera na mão nem câmera nervosa”. Quanto ao modo de contar uma história, o diretor procurou prestar tributo àquelas que são suas maiores referências no cinema – as obras de “Lynch, Kubrick e Buñuel”.

Imagens captadas por câmeras de segurança também têm destaque na construção de Foro íntimo, cuja trama envolve, de um lado, a associação de políticos com o tráfico, a corrupção e a encomenda de assassinatos para queima de arquivo; de outro, a prática de juízes de vazar informações para a imprensa, como parte de uma estratégia na condução dos processos dos quais estão encarregados.

Mehedff diz se espantar com as semelhanças que o roteiro – concluído em 2015 – adquiriu com o dia a dia do noticiário brasileiro desde que a Operação Lava-Jato ganhou protagonismo. Ainda assim, o cenário real parece mais estranho do que a ficção.

Veterano no teatro, ator estreia em papel principal no cinema

“Nunca estive enrolado na Justiça”, diz Gustavo Werneck, o ator que aceitou o papel do juiz encurralado pelo criminoso que ele tenta punir em Foro íntimo. Werneck nunca tinha estado também sob a mira de uma câmera na condição de protagonista no cinema. Ator de teatro desde os anos 1980 – atividade que leva em paralelo com a prática da medicina –, ele acumulava até aqui apenas participações secundárias em filmes e produções para a TV.

O convite para protagonizar o longa de Mehedff veio do próprio diretor, que o dispensou de testes. Werneck se preparou para o papel acompanhando juízes no exercício da profissão. Achou as “ações muito dramáticas” e saiu das sessões “muito impressionado e muito emocionado”.

Com a presença da câmera, que o deixou “de início meio assim”, foi se acostumando, até achá-la “natural”. Mudança que atribui à habilidade do diretor em deixar os atores à vontade, sem no entanto abrir mão do resultado pretendido.

Sobre a situação de seu personagem no filme, avalia que “a coisa de ele se enclausurar tem um quê da circunstância do risco de vida, mas também de uma vontade dele de se esconder, se afastar, buscar refúgio por outras questões”.

Sem data de lançamento agendada no Brasil, a tendência é que o longa circule pelo circuito de festivais antes de estrear comercialmente. A espera será um novo exercício para Werneck. “Hoje, entendo um pouco mais o que é ser ator no cinema. Gostei muito dessa experiência. Mas me ver na telona não sei como vai ser.”

ÁS DO TRAILER


Pense num filme brasileiro lançado entre 1999 e 2007 (incluindo o fenômeno Cidade de Deus, de 2002). É quase certo que o trailer tenha sido feito por Ricardo Mehedff, que dominou esse mercado no período, quando estava radicado no Rio de Janeiro. Autor de curtas como Capital circulante, Um branco súbito e Noite aberta, Mehedff tem uma produtora de conteúdos audiovisuais em Belo Horizonte, onde voltou a viver em 2010.

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