Errar é humano? Gafe histórica roubou a noite de Moonlight, vencedor do Oscar

Cena tirou o foco das críticas à gestão de Donald Trump

por Mariana Peixoto 28/02/2017 10:30
Mark RALSTON /Getty Images/AFP
Depois de discursar, Jordan Horowitz, produtor de La la land, entrega o Oscar ao verdadeiro dono, Barry Jenkins, diretor de Moonlight (foto: Mark RALSTON /Getty Images/AFP )

Em sete minutos, dois longas ganharam o Oscar de melhor filme na 89ª cerimônia do mais importante prêmio da indústria cinematográfica, em Los Angeles.

Fred Berger era o terceiro produtor de La la land: cantando estações a discursar quando a confusão começou. A estatueta não pertencia a ele e à sua equipe, como os atores Faye Dunaway e Warren Beatty haviam anunciado. O melhor longa-metragem da edição 2017 do Oscar, na noite de domingo, era Moonlight: sob a luz do luar, de Barry Jenkins.

O produtor Jordan Horowitz, que havia feito há instantes um discurso emocionado por La la land, pegou o microfone e afirmou: “Moonlight venceu o Oscar de melhor filme. Não é uma piada, venham para cá”. Dirigia-se a Jenkins e companheiros. E, para provar que falava sério, pegou o envelope das mãos de Beatty com o nome do verdadeiro vencedor.

A equipe de La la land desceu do palco do Dolby Theatre, dando lugar à de Moonlight, ainda estupefata. “Nos meus maiores sonhos, isso não poderia ser verdade. Mas para o inferno com os sonhos. Terminei com eles, porque isto aqui é de verdade. Oh, meu Deus!”, foram as primeiras palavras de Jenkins.


Beatty, que virou protagonista de uma confusão desde já histórica, também pegou o microfone para se eximir da culpa que não era sua. “Quero dizer o que ocorreu. Abri o envelope que dizia ‘Emma Stone, La la land’.”
A empresa PricewaterhouseCoopers (PwC), que audita a cerimônia do Oscar, assumiu a culpa, por meio de um comunicado. “Os apresentadores receberam o envelope da categoria errada. Quando descobrimos, isso foi imediatamente corrigido. Estamos investigando como isso ocorreu e lamentamos profundamente que tenha acontecido.”


Mas o estrago já havia sido feito. A melhor consideração veio da atriz Jessica Chastain: “Por que os produtores do show não correram para o palco quando o vencedor errado foi anunciado? Estou muito triste pela equipe de Moonlight. Gostaria que eles tivessem a experiência completa de ganhar o prêmio de melhor filme sem tanto constrangimento”, ela tuitou.

pó O erro grosseiro fez virarem pó as discussões urgentes de Hollywood sobre o mundo atual.
Os três Oscars de Moonlight – melhor filme, roteiro e ator coadjuvante para Mahershala Ali – calaram muito mais fundo do que as seis estatuetas de La la land – diretor para Damien Chazelle, atriz para Emma Stone, canção, trilha sonora, direção de produção e fotografia. A narrativa sobre a vida de um garoto negro, pobre e homossexual dialoga muito mais com o mundo contemporâneo do que o musical romântico que concorria a 14 estatuetas.


E Hollywood, é sempre bom lembrar, precisava se eximir das edições hegemonicamente brancas de 2015 e 2016, promovendo a diversificação destinada a deixar o prêmio mais inclusivo. Foram 19 os negros indicados. Além de contemplar Moonlight, destinou a uma atriz negra, Viola Davis, o Oscar de coadjuvante por Um limite entre nós.
Além disso, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas precisava fazer uma edição política do Oscar que batesse de frente com o início da gestão de Donald Trump, o conservador presidente dos Estados Unidos.


Estreando na função de apresentador do prêmio (depois do erro, brincou que nunca mais voltará), Jimmy Kimmel, logo nos primeiros momentos, afirmou que a cerimônia estava sendo transmitida para 245 países, “que agora nos odeiam”. E continuou soltando suas pérolas. “Quero agradecer ao presidente Trump. No ano passado, quando o Oscar parecia racista, agora a história é outra. Temos um filme em que os negros salvaram a Nasa (Estrelas além do tempo) e os brancos o jazz (La la land).”

suécia Quando o sueco Linus Sandgren subiu ao palco para receber o Oscar de melhor fotografia por La la land, Kimmel pediu desculpas à Suécia (há uma semana, Trump falou sobre atentados terroristas, inclusive um, que nunca ocorreu, naquele país). A imprensa, alvo constante do presidente, também foi lembrada.
Atores, diretores, vencedores e apresentadores buscaram dar o seu recado. “Como mexicano, como imigrante, sou contra qualquer tipo de parede”, disse Gael García Bernal antes de anunciar Zootopia como melhor animação, referindo-se ao muro que Trump vai erguer na fronteira dos dois países.

irã “Minha ausência é em respeito às pessoas do meu país e de outras 60 nações por causa de uma lei que proíbe a entrada de imigrantes (nos EUA). Dividir o mundo entre nós e os inimigos gera medo e justifica agressão e guerra”, afirmou, numa carta lida do palco, o diretor iraniano Asghar Farhadi, vencedor do Oscar de filme estrangeiro por O apartamento.
Cheryl Boone Isaacs, desde o ano passado buscando reformular as regras da Academia, que preside, fez um discurso direto. “Esta não é uma comunidade de Hollywood ou dos EUA. É uma comunidade que está ficando cada vez mais inclusiva e diversa. Os filmes que amamos, os que realmente importam, independentemente de seu país de origem, falam da condição humana. É isso que celebramos nesta noite.”


E a noite realmente foi de celebração. Até aqueles fatídicos sete minutos. O prêmio a Moonlight é mais do que merecido, como também necessário. Mas não da maneira como foi entregue.

 

O dono da história

 

Quando foi receber o Oscar de melhor roteiro adaptado, o cineasta Barry Jenkins subiu ao palco ao lado de Tarell Alvin McCraney, autor da história que deu origem a Moonlight. Ator e dramaturgo nascido em Miami, McCraney, de 36 anos, escreveu In moonlight black boys look blue como um projeto escolar.


A narrativa nasceu da experiência pessoal de McCrane. Assim como o personagem do filme, ele foi um garoto gay que procurou a própria identidade num gueto negro e pobre (Liberty City) de Miami. Logo depois de escrever Moonlight, McCraney fez residência de dramaturgia na Royal Shakespeare Company, em Londres. Esqueceu-se completamente do projeto até que Jenkins o descobriu.


Só quatro negros foram indicados para o Oscar de direção: Barry Jenkins, John Singleton, Lee Daniels e Spike Lee. Nenhum deles levou o prêmio nessa categoria.

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