Longe de ser uma cinebiografia, 'Jackie' faz um retrato complexo da primeira-dama americana

Primeiro longa hollywoodiano do chileno Pablo Larraín mostra a semana mais difícil da vida da primeira-dama, interpretada com primor por Natalie Portman

por Silvana Arantes 02/02/2017 09:00

Diamond Films/Staphanie Branchu/Divulgação
Natalie Portman interpreta Jacqueline Kennedy, determinada a realizar um funeral histórico para o marido, mesmo com a oposição do novo ocupante da Casa Branca. (foto: Diamond Films/Staphanie Branchu/Divulgação)

Quando se dedica a abordar a história real dos chamados personagens ''maiores do que a vida'', o cinema corre o risco de produzir retratos unidimensionais ou hagiográficos e, portanto, muito menores do que a biografia em questão. Eis um perigo do qual o cineasta chileno Pablo Larraín (No, O clube, Neruda) escapa ileso em sua estreia em Hollywood.

Com Jackie, que chega hoje aos cinemas brasileiros, Larraín soube, antes de tudo, dimensionar adequadamente sua ambição. Não se trata de uma cinebiografia da mais famosa (e intrigante) primeira-dama americana, mas de uma versão sobre uma semana (a mais difícil) na vida dela – o 22 de novembro de 1963, em que John F. Kennedy foi assassinado ao seu lado, em Dallas, e os dias seguintes, em Washington, quando ela planeja o histórico funeral do marido.

Em seus longas anteriores, Larraín já havia exibido suficiente domínio da escrita cinematográfica para manter o espectador sob um clima de exasperante tensão psicológica (O clube), fazê-lo desvendar uma ampla trama política por trás de uma história pessoal (No) ou conduzi-lo ao mundo interior de um personagem cujas convicções  são mais fortes do que os fatos que o rodeiam (Neruda).

Natalie Portman

Em Jackie, todos esses elementos se alternam e, por vezes, se misturam de tal forma que o filme nunca perde o interesse, embora esteja longe de ser agradável. Esse resultado não seria possível se Natalie Portman não tivesse sido capaz – como foi – de uma grande interpretação. Mais do que reviver Jacqueline Kennedy, com seu gestual delicado, seu figurino e corte de cabelo que fizeram dela um ícone da moda, Natalie captura a condição de uma mulher em risco (ela e os filhos são considerados potenciais alvos de atentado), sob o trauma do assassinato do marido e, ainda assim, disposta a tomar decisões que, em tese, caberiam ao novo presidente dos EUA.

No roteiro de Noah Oppenheim é especialmente bem-sucedido o quebra-cabeças que mostra Jackie administrando sua imagem pública de tal modo que seja muitíssimo menos assertiva e perspicaz do que seu comportamento em círculos privados. Mas também alternando-se entre inseguranças e atitudes manipuladoras de que apenas os grandes jogadores na política parecem ser capazes.

Jackie dá a entender que sua personagem-título tinha exata consciência do que se esperava de uma mulher em sua época e em sua posição e sabia contornar essas expectativas de modo a que elas não atrapalhassem suas ambições.

Também estão no filme aspectos registrados pela biógrafa Barbara Leaming (Jacqueline Bouvier Kennedy Onassis – The untold history), como o intenso uso do álcool no período imediatamente pós-assassinato de Kennedy, os pensamentos suicidas e os diálogos com um padre num tom e numa abertura semelhantes aos dos consultórios de psicanálise.

A relação com Bobby Kennedy (Peter Sarsgaard), que fica entre a de amigos e aliados nem sempre amistosos; a reprodução de um programa de TV sobre a redecoração promovida por ela na Casa Branca e uma entrevista dada logo após a mudança da residência oficial do primeiro casal americano completam as peças do quebra-cabeças.

Muito provavelmente, Jackie não é o filme pelo qual esperavam os fãs da mulher vista como a mais glamourosa primeira-dama americana de todos os tempos. É um longa sobre uma mulher muito mais forte, complexa e inapreensível. Por isso mesmo, tanto mais admirável.

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