Renato Aragão: "A segunda fase da carreira está só começando"

Aos 82 anos, humorista está de volta ao cinema com a estreia do musical Os saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood

por Ana Clara Brant 19/01/2017 08:00

FOTOS: PÁPRICA FOTOGRAFIA/DIVULGAÇÃO
Ícone do humor nacional, personagem Didi Mocó está de volta às telonas (foto: FOTOS: PÁPRICA FOTOGRAFIA/DIVULGAÇÃO)
Renato Aragão completou 82 anos na última sexta-feira, 13. Já Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo, seu icônico personagem, está chegando à casa dos 57. Ao longo de tanto tempo “convivendo” juntos, é até difícil dissociar um do outro. “O Renato é um pai de família, trabalhador, que tenta dar o exemplo. Já o Didi é um porra-louca, humilde, que é feliz do jeito dele, com a simplicidade. Mas a gente já se misturou”, afirma o humorista.

Criador e criatura estão de volta aos cinemas, depois de um hiato de uma década. Os saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood, que estreia hoje nos cinemas, marca não só apenas o retorno às telas, mas também o 50º filme da carreira do eterno Trapalhão. “Realmente, tenho uma estrada longa e consegui ao longo dessa trajetória cerca de 130 milhões de espectadores. Isso me dá mais força ainda para continuar. A segunda fase da carreira está só começando”, diz.

Voltar para a telona com um projeto que é inspirado em um dos maiores sucessos do quarteto - Os saltimbancos Trapalhões (1981) ainda é a nona bilheteria do cinema nacional – foi realmente especial para Renato. Segundo ele, o segredo da história é que ela consegue arrebatar várias gerações com um humor simples. “Sem contar que as músicas do Chico Buarque são imortais. Tem a coisa da nostalgia, da memória afetiva. Nas pré-estreias, a gente viu muita criança e adulto cantando, dançando e se emocionando”, comenta.

No longa-metragem dos anos 1980, que teve no elenco Lucinha Lins, Mila Moreira e Eduardo Conde, os amigos Didi, Dedé, Mussum e Zacarias se tornam a grande atração do Circo Bartolo, graças à sua enorme capacidade de fazer o público rir. Mas o sucesso cobra um preço: eles passam a ser alvo da rivalidade do mágico Assis Satã e da ganância do Barão, o dono do circo. Juntos, os quatro amigos precisarão combatê-los.

ANIMAIS

Já na versão 2017, Didi, Dedé e sua turma precisam criar novos números para salvar o Grande Circo Sumatra, que passa por dificuldades financeiras desde a proibição do uso de animais no picadeiro. Karina, filha do dono do circo (o Barão), é interpretada pela atriz Letícia Colin, que forma o trio de protagonistas com Renato Aragão e Dedé Santana.

O elenco reúne ainda Alinne Moraes, Rafael Vitti, Emílio Dantas, Maria Clara Gueiros, Nelson Freitas e Roberto Guilherme, além das participações especiais de Dan Stulbach e Marcos Veras. O circo que serve de cenário ao filme pertence ao ator Marcos Frota, que também está no elenco. Um dos estímulos para a produção do longa foi o sucesso do musical Os saltimbancos trapalhões, em 2014, da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, que marcou a estreia de Renato Aragão no teatro.

O diretor João Daniel Tikhomiroff, que já havia trabalhado ao lado dos Trapalhões em dois especiais de fim de ano na TV Globo, ressalta que não se trata de um remake, muito menos de uma sequência. Segundo ele, é um filme que revisita o lendário mundo dos Saltimbancos Trapalhões. “Fui buscar o mesmo conceito, a mesma trilha e fizemos uma versão muito mais atualizada em todos os sentidos. É uma história diferente, mas que mantém as bases da original. E não deixa de ser uma homenagem aos Trapalhões e, sobretudo, ao Renato”, afirma.

Renato Aragão se emocionou diante e atrás das câmeras, num tributo nas cenas finais. “Combinei com todo o elenco, e ele não sabia de nada. Por isso saiu tão espontâneo e verdadeiro. Acredito que é difícil para quem assistir não derramar uma lágrima sequer”, diz Tikhomiroff. “Você viu o que ele aprontou pra mim? (risos). E ainda tem a participação da minha filha, a Livian Aragão, que é outra emoção. Aliás, todo mundo que fez o filme não atuou. Mais do que isso, as pessoas se divertiram e se emocionaram muito”, afirma o artista cearense. Ele diz não gostar de assistir aos programas e filmes antigos dos Trapalhões. “Tenho uma saudade muito grande dos meus companheiros (Mussum e Zacarias). É difícil ver”, conta.

Com relação aos novos Trapalhões, projeto similar ao da Escolinha do Professor Raimundo, reeditado pela Globo com elenco reformulado, Renato Aragão afirma que está feliz com a homenagem. No entanto, não entra em detalhes. “Sei que está previsto para o segundo semestre. Fico feliz de as pessoas terem esse carinho pelos Trapalhões. Acho que muita gente sente falta desse humor mais simples, mais pueril. É muito bom saber que ainda há espaço para ele, mesmo nos dias de hoje. É como o circo, é eterno.” 



Trilha clássica com novos arranjos


A trilha sonora de Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood é um capítulo à parte. As canções compostas por Chico Buarque, Sergio Bardotti e Luiz Enríquez Bacalov transformaram a peça Os saltimbancos num clássico visto por diversas gerações de brasileiros. Gravados originalmente em 1977, versos como “au, au, au, inhó, inhó”, de Bicharia, “nós gatos já nascemos pobres, porém, já nascemos livres”, de História de uma gata, ou “uma pirueta, duas piruetas. Bravo, bravo”, de Piruetas, ganharam inúmeras interpretações ao longo das décadas seguintes e conquistaram lugar de destaque no cancioneiro popular. Por isso, o grande desafio da direção musical do filme foi apresentar arranjos originais, sem descaracterizar as músicas. O trabalho coube à dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, bem como a Marcelo Castro, que assinam respectivamente a direção musical e a trilha sonora. Todo o elenco canta, mas, quando está em cena, as canções são dubladas.

 

Confira o trailer:



três perguntas para...

João Daniel Tikhomiroff
diretor

Como surgiu a ideia de fazer o filme?


Após uma sessão do musical Os saltimbancos trapalhões, do Charles Möeller e Claudio Botelho, em 2014, fui jantar com o Renato e acabei provocando-o sem querer: Você não quer voltar para a telona, não? E quem sabe até a gente pode transportar novamente essa história dos saltimbancos para o cinema? Acho que pode ser bacana. Os olhos dele brilharam, e a coisa acabou evoluindo.

Você teve carta branca para essa produção?

Total. O Renato não foi o produtor, mas um dos autores e é o protagonista. Ele só “interferiu” em uma coisa ou outra do diálogo – e com sugestões muito positivas. Sempre procurei respeitar muito esse lado dele, esse improviso que está na essência dos Trapalhões. E deu supercerto.

O longa traz de volta aquele humor mais ingênuo e simples, bem característico dos Trapalhões. Acha que falta isso às nossas comédias?

Uma coisa que acho interessante desse Saltimbancos é que ele agrada a todas as idades. Tem piadas que só uma criança entende, tem piadas que só os adultos entendem e por aí vai. Ultimamente, acho que as nossas comédias têm focado mais no público adulto, e faltam aquelas produções voltadas para toda a família. Nosso filme resgata, sim, esse humor típico do palhaço, um humor circense, mais ingênuo e espontâneo. E um dos seus grandes méritos é que consegue não só fazer rir, como chorar também.

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