Filme coreano 'A Criada' traz clima sensual e surpresas na trama

Longa sul-coreano de Park Chan-Wook, conhecido por Oldboy, disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes

por Agência Estado 13/01/2017 09:07
mares filmes / Divulgação
(foto: mares filmes / Divulgação)
A Criada, do sul-coreano Park Chan-Wook (de Oldboy) é uma obra de muitas faces.

Primeiro, é história de época. Situa-se nos anos 1930, com a Coreia ocupada pelo Japão.

Segundo, é um drama erótico, apelidado por muitos como O Azul É a Cor Mais Quente oriental. Alusão ao filme francês de Abdellatif Kechiche, que faturou uma Palma de Ouro com a história altamente erótica do amor entre duas garotas.

Terceiro, é obra de suspense, com muitas reviravoltas de roteiro, uma daquelas tramas sem chão firme para pisar e que desafiam a atenção do espectador, sua inteligência e às vezes sua paciência.

A história é a da jovem coreana Sookee (Kim Tae-ri), contratada como dama de companhia e serviçal de uma rica herdeira japonesa, Hideko (Kim Min-Hee), que mora com um tio poderoso e autoritário numa casa imensa e retirada da cidade.

Há um plano diabólico por trás de tudo. Aliada a um trapaceiro, Sookee deseja colocar a mão na fortuna de Hideko. A função de criada seria nada mais que um disfarce com o fim de infiltrar-se na mansão, seduzir a jovem Hideko para que se case com um estranho e depois de se apoderar do dinheiro, livrar-se dela e do tio. Este é um velho devasso, que ocupa seu tempo ocioso (quer dizer, todo o seu tempo) em sessões eróticas inspiradas em Sade e Sacher-Masoch. Essa intrusão ocidental numa trama oriental é bastante significativa e se dá através do culto à "perversão" sexual.

Por outro lado, a trama não ignora a situação histórica, em que os coreanos são discriminados pelos então ocupantes do país, os japoneses. Aliás, o filme é falado nas duas línguas - coreano e japonês. E os coreanos são vistos como seres inferiores pelos ocupantes. Saber falar japonês é um trunfo para coreanos que pretendem servir os invasores e, no limite, aproveitar-se deles. É o desejo de Sookee, que se vale de sua inteligência e também de sua beleza e força de sedução para chegar a uma determinada finalidade.

Deve-se dizer que Park Chan-Wook filma sua história de maneira suntuosa. Faz com que tudo evolua de maneira lenta e detalhista, com uma câmera que esculpe imagens em longos planos-sequência. Há algo de hipnótico em sua escritura cinematográfica, como se conduzisse o espectador a uma dimensão que tem tanto a ver com o real como com o sonho. Situa-se numa espécie de limbo entre os dois planos, opção sublinhada também por uma música envolvente, com células repetitivas, que produzem uma sensação quase tátil na relação com as imagens.

As cenas de sexo são intensas e na fronteira com o explícito, mas nunca de mau gosto - sem que haja aqui juízo de valor (há espaço para o chamado "mau gosto" desde que sirva a propósitos narrativos). Apenas constatação de que o registro do sexo entra no plano geral do cineasta, com seu apuro estético das imagens. São cenas bonitas, enfim. Como numa espécie de rebatimento, ou de rima com as obsessões sensuais do tio, os encontros entre as protagonistas são banhados por um tom de leve perversão. Por exemplo, uma delas simulando ser o parceiro masculino, como se as preliminares do ato entre mulheres fossem apenas treino para um futuro encontro heterossexual de uma delas.

No plano do suspense, Park Chan-Wook mantém um dos dogmas do gênero - o espectador jamais deve adivinhar de início para onde a trama caminha e, muito menos, qual será o seu desfecho. Deverá ser surpreendido a cada passo e constatar que o terreno onde pisa é sempre cediço. A trama é engenhosa. Tanto que, às vezes, com suas reviravoltas, passa a sensação de artificialidade. O próprio cineasta deve ter sentido que forçava a barra, pois de vez em quando fornece ao espectador indícios explicativos do que está ocorrendo. Quando essa impressão de algo pré-fabricado aparece, a sensação de envolvimento com o que está na tela diminui. E o espectador pode se sentir um tanto fora da história.

Por outro lado, como arremate dessa fabulação, elegante em 90% do tempo, Park Chan-Wook não nega suas tendências de sempre e apresenta algumas cenas de violência explícita, sem as quais a sua assinatura estilística não seria reconhecida em nenhum cartório do mundo do cinema. Parecem dispensáveis e gratuitas, mas, enfim, cada diretor coloca o que quer em seus filmes e cabe a nós interpretá-los e fruí-los. Ou não.

Fica, de A Criada, a lembrança de um trabalho muito bem elaborado, sensual e inteligente, embora em medidas às vezes desequilibradas. Essa desmedida se expressa na longa duração - 2h24 - , excessiva para o que o filme efetivamente tem a dizer.

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